sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XIII)

  
 A Civilização Romana - A cidade romana (III)
 
Os dois espaços mais importantes da cidade romana eram o fórum e o mercado. Na construção da cidade romana após a edificação das muralhas e da definição dos arruamentos, o fórum e a o mercado eram alvo de uma grande atenção.
 
O fórum era o espaço mais importante da cidade. Nele estavam os espaços administrativos e de representação simbólica, como as repartições  públicas, o Senado, o Tribubal (Basílica), os diversos templos, as termas e os espaços de comércio. No mercado se situavam os espaços de comércio para agricultores e comerciantes se instalarem e venderem os seus produtos. O mercado funcionava a céu aberto rodeado por colunas. O mercado funcionava num pátio interior, existindo espaços para outros negócios, de dimensão maior e que se relaciona com diferentes locais do Império. Esses outro espaço funcionava no piso superior. Com o tempo os mercados diversificaram-se surgindo em outros espaços, nomeadamente ao longo das ruas.
 
No planeamento das cidades romanas após o fórum e o mercado erigiam-se as casas. As das pessoas mais importantes e ricas de Roma, ou de uma província do Império chamavam-se domus. Elas tinham duas divisões principais, o atrium e o peristilo
 
O primeiro ocupava a parte da frente da casa e era formado por um pátio com uma abertura quadrada ao nível do telhado, de nome cumpluvium que permitia a entrada de luz e de água no pátio. De modo a aproveitar as águas da chuva que caíam nesse pátio construia-se um pequeno tanque para armazenar essa água, a que se dava o nome de impluvium. Os romanos tinham o hábito de colocar divindades, ou altares para garantir a sua proteção. Nas domus era costume erigir um altar de proteção à habitação. Ainda à volta do atrium construíam-se ainda quartos, arrecadações, cozinha e um espaço que era uma rudimentar casa de banho.

O peristilo constituía com o atrium os dois grandes espaços da casa. Naquele encontrava-se um jardim interior de dimensões significativas, ladeado por colunas e que se situava na parte de trás do domus. Era o espaço mais calmo da habitação romana dos proprietários mais ricos. Nesse jardim, a utilização de mosaicos e de um pequeno lago faziam lembrar as musas e a sua procura por uma felicidade humana.

Para os mais pobres, os romanos construíram outro tipo de habitações, as insualae. Falaremos delas noutra publicação.

             Imagem: Copyiright - A casa dos repuxos, Conímbriga.

Dia dos Afetos

 

 

Celebração do Dia dos Afetos que se assinala anualmente a onze de fevereiro. O trabalho que aqui se apresenta resultou de uma articulação entre as disciplinas de Matemática e Inglês e envolveu as turmas do 8ºFB e 9ºFC.

Dia Internacional das Mulheres na Ciência

 


Evocação do Dia Internacional das Mulheres e das Raparigas na Ciência, assinalado a 11 de fevereiro. O trabalho que se apresenta resultou de uma articulação entre as disciplinas de Matemática e Inglês, que envolveu as turmas do 9ºFB, 9ºFC, 8FA e 8ºFB.

Dia dos Afetos

 Integrado no Projeto ETwinning desenvolvido na EBF deixa-se um trabalho em suportye vídeo realizado de modo articulado entre as disciplinas de Inglês e Matemática com as turmas do 8FB e 9FC.


 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Onda azul no AEARS


 Onda Azul invade o Agrupamento de Escolas António Rodrigues Sampaio

Chegaram as nossas bandeiras! Escola Azul! Desde o passado dia 23 do mês de outubro que todas as escolas deste agrupamento são Escola Azul.

Este projeto resultou de uma candidatura à Escola Azul, que é gerida pelo Ministério do Mar e que pretende intervir no desenvolvimento sustentável dos espaços marítimos e marinhos. O nome do projeto é: Os Oceanos – A FORMAR cidadãos agentes de mudança. O projeto procura partir de uma temática concreta e com ela envolver recursos diversos, com um claro significado para a leitura e ter nas áreas curriculares formas de intervenção e exploração de possibilidades para a ideia central – formar cidadãos que se sintam conscientes do seu papel para a mudança que se tornar tão necessária.

O projeto tem os seguintes princípios:

  • A Terra tem um Oceano global e muito diverso;
  • O Oceano e a vida marinha têm uma forte ação na dinâmica da Terra;
  • O Oceano suporta uma imensa diversidade de vida e de ecossistemas;
  • O Oceano e a humanidade estão fortemente interligados;
  • Há muito por descobrir e explorar no Oceano.
 É propósito deste projeto ser mais assertivo nas ações, envolver mais famílias e, de forma mais efetiva, implicar mais professores das turmas, bem como a Direção do Agrupamento.

O projeto exposto tem como objetivos:

  • contribuir para a mudança de comportamentos dos envolvidos e um maior conhecimento dos oceanos; um maior conhecimento da cultura marítima de Esposende;
  • formar alunos com sentido crítico, em relação aos problemas relacionados com o mar;
  • tornar os alunos agentes de sensibilização, em ambiente familiar, para os problemas e soluções da temática.

Na abordagem à sua concretização pretende-se ver a escola como um laboratório, onde se promove a experimentação. Neste sentido tenta-se partir de observar o real, saber ler as informações, diagnosticar os problemas e apresentar hipóteses de intervenção. No seu desenvolvimento serão desenvolvidas várias iniciativas como a promoção de debates/assembleias, pesquisas, construção e apresentação de conteúdos.
Na dinâmica da exploração dos seus diferentes objetivos, envolver a comunidade local, os encarregados de educação, a escola como instituição de promoção da cidadania e dos valores democráticos. Assim torna-se pertinente envolver diferentes atores do território em que a escola está situada, tais como organismos Municipais, ONG’s, associações de pais, representantes de turma, associações comerciais. Estes parceiros são essenciais para elaborar ações e estratégias para melhorar e proteger o ambiente que nos rodeia. Neste sentido estão pensadas ações de verificação/monitorização das mudanças climáticas, ações de limpeza, ações de corte de invasoras na orla marítima e outras atividades.

 

Biblio@rs - a civilização romana (XII)

                                

                                      A Civilização Romana - A cidade romana (II)

A cidade romana é sem dúvida um dos marcos de uma grande civilização e património de uma memória que influenciaria séculos vindouros. Os Romanos não desenvolveram o pensamento, nas suas diferentes formas como os Gregos, mas aproveitaram algumas das suas marcas civilizacionais e atribuíram-lhe uma abordagem mais prática, mais funcional à sociedade que queriam erigir.

O planeamento das cidades, ou o Urbanismo teve nos Romanos uma especial destaque, pois só desse modo se poderia atingir a funcionalidade que tanto desejavam. Assim, nesta civilização foram planeados um conjunto de construções, ou de obras públicas, como teatros, termas, aquedutos, pontes, entre outras. Na cidade romana a estrada em pedra, como suporte de locomoção, as praças públicas, ou os bairros residenciais são exemplos de um planeamento urbanístico de grande significado.

No planeamento das cidades decidia-se o que se construía, o local, as formas, no qual a mitologia entrava, o que era natural, pois fazia parte da cultura romana. A cidade iniciava a sua construção, a partir de um acampamento militar, o castrum que organizava o espaço de construção com a marcação do local e das suas dimensões. A cidade era logo marcada nas suas principais ruas, uma que se organizava na direção norte -sul e outra na direção este-oeste. 

O castrum enquanto a cidade não estava construída passava a ser o seu centro. A partir dele definiam-se as muralhas, as casas de habitação, as lojas do comércio e o fórum que tinha uma função administrativa e religiosa muito importante. Era ainda marcado o espaço para a construção dos templos, do mercado, dos balneários, do teatro, assim como os passeios. Era um trabalho de profundo planeamento marcante nas civilizações até aí existentes.

O Civilização Romana inovou muito no planeamento, nas soluções encontradas, mas também nos materiais. A pedra, a argila que era usada no fabrico de telhas era completamente inovador, a argamassa que servia para ligar os tijolos e as pedras, assim como a madeira. A maioria do trabalho era feito por escravos. As estradas e pontes já construídas asseguravam a ligação à cidade a construir.

A construção da muralha apoiada em portas fortificadas (quatro) e de torres asseguravam a defesa da cidade e da sua população. No planeamento da cidade, a construção de aquedutos (faziam o transporte da água), e de um sistema de drenagem apoiado em esgotos que corriam sob os passeios e que ao fim de algum tempo se ligavam a túneis que iam dar aos rios marcam o urbanismo romano. Concluída a muralha definiam-se as ruas a construir. Após essa definição de espaços, iniciava-se a construção dos dois espaços mais importantes da cidade, o fórum e o mercado. Falaremos deles no próximo post.

                   Imagem: Cidade romana de Conímbriga, perto de Coimbra

 

Minutos de leitura

 

«Para que o carácter humano revele qualidades verdadeiramente execionais, temos de ter a boa sorte de ser capazes de observar o seu desempenho durante muitos anos, Se esse desempenho é desprovido de egoísmo, se o seu propósito é uma generosidade inigualável, se há a certeza absoluta de que não existe uma ideia de recompensa e que esse propósito, além do mais, deixou a sua marca visível na terra, então, não haverá engano.

Há cerca de quarenta anos, eu fiz uma viagem longa, a pé, pelas montanhas da remota região onde os Alpes descem até à Provença, e que ainda se mantinha desconhecida dos turistas. Na altura em que embarquei nessa longa viagem a pé, através dessa região deserta, a terra parecia estéril e sem cor. Nada crescia por ali, a não ser alfazema selvagem.

Atravessava essa região na sua zona mais ampla, e depois de três dias a caminhar, dei por mim no meio de uma desolação inigualável. Acampei perto dos vestígios de uma aldeia abandonada. Ficara sem água no dia anterior, e tinha de encontrar alguma. Aquelas casas geminadas, embora em ruínas, como velhos ninhos de vespas, indicavam que devia ter havido ali, em algum momento, uma nascente ou um poço. Existia, de facto, uma nascente, mas estava seca. As cinco ou seis casas, sem teto, roídas pelo vento e pela chuva, a pequena capela com o seu campanário, esfarelado, estavam ali como se fossem as casas e a capela de uma aldeia com vida, mas a vida tinha desaparecido de facto.

Era um belo dia de junho, resplandecente de sol, mas naquela terra desprotegida, a grande altitude, o vento soprava com uma ferocidade insuportável. Rugia sobre as carcaças das casas como um leão importunado durante o seu festim. Tive de mudar o sítio do meu acampamento.

Depois de cinco horas a caminhar ainda não encontrara água e não havia nada que me desse a esperança de a descobrir. Tudo em mim era a mesma secura, a mesma erva áspera. Pensei ver, ao longe, uma pequena silhueta escura, vertical, e pensei tratar-se do tronco de uma árvore solitária. Apesar disso, fui na sua direcção. Era um pastor. Trinta ovelhas estavam ao seu redor, na terra que fervia.

Ele deu-me água a beber da sua cabaça e, pouco depois, levou-me para a sua cabana numa ligeira elevação do terreno. Ele retirava a sua água – água excelente – de um poço natural e bem fundo, onde construíra um guincho.»

 O homem que plantava árvores / Jean Giono. Lisboa. Alma dos livros.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Videohistórias (VIII) - A surpresa de Handa

 


A surpresa de Handa / Eileen Brown. Alfragide: 2009, Caminho.

Dia de Carnaval - atividades

 Vídeo do desfile de Carnaval promovido pelas turmas 5ºMA e 5ºMB... com o devido distanciamento e máscara! Ah, também tem um cheirinho do Dia dos Namorados.

 

Videohistórias (VII) - O coração e a garrafa

                                                       O Coração e a garrafa / Oliver Jeffers: Orfeu Negro

  


Dia da Internet Segura

Vídeo realizado âmbito do Dia da Internet Segura. Atividade construída através da articulação das disciplinas inglês e matemática, nas turmas do 8FA, 8FB, 9FB.

A maior flor do mundo - memórias de um menino

 As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples… Quem me dera saber escrever essas histórias…

Se eu tivesse aquelas qualidades, poderia contar, com pormenores, uma linda história que um dia inventei… …seria a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas…
… havia uma aldeia. …e um menino.
… sai o menino pelos fundos do quintal, e, de árvore em árvore, como um pintassilgo, desce o rio e depois por ele abaixo…
Em certa altura, chegou ao limite das terras até onde se aventurara sozinho. Dali para diante começava o “planeta Marte”. Dali para diante, para o nosso menino, será só uma pergunta: «Vou ou não vou?» E foi. O rio fazia um O rio fazia um desvio grande, afastava-se, e de rio ele estava já um pouco farto, tanto que o via desde que nascera. Resolveu cortar a direito pelos campos, entre extensos olivais, ladeando misteriosas sebes cobertas de campainhas brancas, e outras vezes metendo pelos bosques de altas árvores onde havia clareiras macias sem rasto de gente ou bicho, e ao redor um silêncio que zumbia, e também um calor vegetal, um cheiro de caule fresco.

Ó que feliz ia o menino! Andou, andou, foram rareando as árvores, e agora havia uma charneca rasa, de mato ralo e seco, e no meio dela uma inclinada colina redonda como uma tigela voltada. Deu-se o menino ao trabalho de subir a encosta, e quando chegou lá acima, que viu ele? Nem a sorte nem a morte, nem as tábuas do destino… Era só uma flor. Mas tão caída, tão murcha, que o menino se achegou, de cansado. E como este menino era especial de história, achou que tinha de salvar a flor. Mas que é da água? Ali, no alto, nem pinga. Cá por baixo, só no rio, e esse que longe estava!... Não importa. 

Desce o menino a montanha, atravessa o mundo todo, chega ao grande rio, com as mãos recolhe quanta de água lá cabia, volta o mundo atravessar, pelo monte se arrasta, três gotas que lá chegaram, bebeu-as a flor com sede. Vinte vezes cá e lá… Mas a flor aprumada já dava cheiro no ar, e como se fosse uma grande árvore deitava sombra no chão. O menino adormeceu debaixo da flor. Passaram as horas, e os pais, como é costume nestes casos, começaram a afligir-se muito. Saiu toda a família e mais vizinhos à busca do menino perdido. E não o acharam. Correram tudo, já em lágrimas tantas, e era quase sol-pôr quando levantaram os olhos e viram ao longe uma flor enorme que ninguém se lembrava que estivesse ali. Foram todos de carreira, subiram a colina e deram com o menino adormecido. Sobre ele, resguardando-o do fresco da tarde, estava uma grande pétala perfumada…

Este menino foi levado para casa, rodeado de todo o respeito, como obra de milagre. Quando depois passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos. Este era o conto que eu queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever histórias para crianças. Mas ao menos ficaram sabendo como a história seria, e poderão contá-la doutra maneira, com palavras mais simples do que as minhas, e talvez mais tarde venham a saber escrever histórias para crianças… 

Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?...
José Saramago. A maior flor do mundo. Ilustrações de André Letria.

Fundação José Saramago. 2013.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XI)

                                             A Civilização Romana - A cidade romana (I)

A Civilização Romana deixou marcos muito importantes para os séculos seguintes. As suas cidades foram um desses marcos que importa conhecer. 

A cidade romana tinha um conjunto de elementos que a tornam única no mundo antigo. Os banhos públicos são um desses elementos. Eles eram uma fonte de procura para o revigoramento do corpo, mas serviam também como um espaço central na vida social da cidade. Na cidade Roma pensa-se que existissem cerca de vinte espaços termais. Os balneários existiam em diferentes espaços do Império, pois o planeamento implicava a distribuição de uma ideia e de uma forma cultural de Roma a todo o Império. Naturalmente os espaços termais em Roma eram os maiores.  No século III, as termas edificadas por ordem de Diocleciano podiam comportar cerca de duas mil pessoas, o que mostra a sua importância nesta civilização.

As termas tinham diversos espaços, com os vestiários, os banhos frios (frigidarium), os tépidos (tepidarium) e os quentes (caldarium). Em algumas termas existiam ainda uma Biblioteca, piscinas de natação, recintos para refeições, salas de ginástica, um aqueduto e um jardim.  O balneário presente nas termas era formado por um hipocasuto, que era uma estrutura que permitia o aquecimento por vias de tubagens subterrâneas. Os utentes das termas podiam passar pelos diferentes espaços. Geralmente o espaço do frigidarium era o último a ser visitado e onde os cremes e as massagens compunham uma possibilidade para o cidadão romano. 
 
As termas eram pois, um lugar para tratar do corpo e do espírito, pois era um espaço de convívio, de encontro de conhecidos e ou de amigos. Existia ainda a possibilidade de realizar diferentes jogos nas termas, como a péla, os halteres, a esgrima, ou ainda jogos disputados a dinheiro. Os negócios, as disputas de poder entre os mais influentes tinham nas termas um espaço privilegiado.

Imagem: Termas de Carcala, Roma, século III d. C.
 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Minutos de leitura


"— Banco de arenques a bombordo! anunciou a gaivota de vigia, e o bando do Farol da Areia Vermelha recebeu a notícia com grasnidos de alívio.
Iam com seis horas de voo sem interrupções e, embora as gaivotas-piloto as tivessem conduzido por correntes de ares cálidos que lhes haviam tornado agradável aquele planar sobre o oceano, sentiam a necessidade de recobrar forças, e para isso não havia nada melhor que um bom fartote de arenques.
Voavam sobre a foz do rio Elba, no Mar do Norte. Viam lá do alto os barcos alinhados uns atrás dos outros, como pacientes e disciplinados animais aquáticos à espera de vez para saírem para o mar largo e ali orientarem os seus rumos para todos os portos do planeta.
Kengah, uma gaivota de penas cor de prata, gostava especialmente de observar as bandeiras dos barcos, pois sabia que cada uma delas representava uma forma de falar, de dar nome às mesmas coisas com palavras diferentes.
— As dificuldades que os humanos têm! Nós, gaivotas, ao menos grasnamos o mesmo em todo o mundo — comentou uma vez Kengah para uma das suas companheiras de voo.
— Pois é. E o mais notável é que às vezes até conseguem entender-se — grasnou a outra.
Mais para além da linha de costa, a paisagem tornava-se de um verde intenso. Era um enorme prado em que se destacavam os rebanhos de ovelhas pastando ao abrigo dos diques e das preguiçosas velas dos moinhos de vento.
Seguindo as instruções das gaivotas-piloto, o bando do Farol da Areia Vermelha tomou uma corrente de ar frio e lançou-se em voo picado sobre o cardume de arenques. Cento e vinte corpos perfuraram a água como setas e, ao regressar à superfície, cada gaivota segurava um arenque no bico.
Saborosos arenques. Saborosos e gordos. Era mesmo do que precisavam para recuperar energias antes de continuarem o voo para Den Helder, onde se lhes juntaria o bando das ilhas Frísias.
No plano de voo estava previsto que seguiriam depois até ao estreito de Calais e ao canal da Mancha, onde seriam recebidas pelos bandos da baía do Sena e de Saint-Malo, com os quais voariam juntas até chegarem aos céus da Biscaia.
Seriam então umas mil gaivotas que, como uma rápida nuvem cor de prata, iriam aumentando com a incorporação dos bandos de Belle-Île e de Oléron, dos cabos de Machicaco, do Ajo e de Peñas. Quando todas as gaivotas autorizadas pela lei do mar e dos ventos voassem sobre a Biscaia, poderia começar a grande convenção das gaivotas dos mares Báltico, do Norte e Atlântico.
Seria um belo encontro. Era nisso que Kengah pensava enquanto dava conta do seu terceiro arenque. Como todos os anos, iriam escutar-se interessantes histórias, especialmente as contadas pelas gaivotas do cabo de Pemãs, infatigáveis viajantes que voavam às vezes até às ilhas Canárias ou às de Cabo Verde.
As fêmeas como ela iriam entregar-se a grandes festins de sardinhas e lulas enquanto os machos instalariam os ninhos à beira de uma escarpa. Neles poriam os ovos, neles os chocariam a salvo de qualquer ameaça e, quando tivessem crescido às gaivotinhas as primeiras penas resistentes, chegaria a parte mais bela da viagem: ensinar-lhes a voar nos céus da Biscaia.
Kengah mergulhou a cabeça para agarrar o quarto arenque e por isso não ouviu o grasnido de alarme que estremeceu o ar:
— Perigo a estibordo! Descolagem de emergência!
    Quando Kengah tirou a cabeça da água viu-se sozinha na imensidade do oceano."
 
  História de uma gaivota e de um gato que a ensinou a voar /Luís Sepúlveda.Porto: Asa, 2005.