segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Rómulo nas suas palavras...


(Rómulo de Carvalho e o seu amigo António Gedeão, foram duas pessoas que juntaram em si formas de olhar o mundo e os outros de uma forma única e capaz de nos fazer melhor compreender o mistério da vida. Nos dois vimos a divulgação científica, o artigo, o livro, o poema, o sonho de vencer o preconceito e a ignorância pela luta diária do pensamento. Que sentimentos e angústias conheceram Rómulo e Gedeão nas suas vidas de cientista e poeta? Memórias dá algumas respostas. É desse livro que conversa connosco e que servirá de base a algumas atividades que deixamos um excerto sobre essa figura muito rara e de grande inspiração.)

Eu digo "pobre de mim" como diria pobre do pobre que está sentado à soleira da porta a apanhar sol e a coçar as costas. Mas ele, o pobre,ainda é feliz porque ao vê-lo desejo ajudá-lo, e eu era um ser indefeso que ninguém pensava em ajudar. Nunca tive vocação nem jeito para viver, inclinação elementar que qualquer ser, mesmo sem ser humano, possui por natureza. Tão incapaz, tão estranho, tão desajustado que ainda hoje, aos oitenta e um anos, me sinto tão surpreendido de viver como aquele frágil menino de um ano a quem a irmã mais velha ampara, no retrato, para que não caia do alto da coluna de madeira em que o poisaram.

Ele tem a cabecinha um pouco inclinada sobre o lado direito como quem pede auxílio, e eu sempre assim a mantive, mas por dentro, dissimulada numa cara comprida e talvez severa, implorando o mesmo auxílio. Sou um pobre ser necessitado de carinho, à espera de um afago que lhe cerre os olhos interiores com deleite como os gatos quando se deitam de barriga para cima. Preciso de amor constante, o amor que se exprime em cada gesto e em cada olhar do quotidiano, mesmo sem contactos, sem palavras, sem premeditações, espontâneo, natural. Amor é um termo ambíguo que se presta a ridicularizar quem o pronuncia. Mas este de que falo não é o que nos faz supor de olhos brancos, em alvo. O amor de que falo é o que se opõe ao ódio, à violência, à dissimulação, ao orgulho, à prepotência, a todas essas "virtudes" que adornam os humanos com os loiros dos triunfos.

Por não possuir tais "virtudes" fui sempre encarado com uma ponta de desconfiança pelos meus companheiros de existência porque naturalmente sentiam a minha impenetrabilidade às suas manobras, manobras correntes, quase inocentes, atitudes do dia-a-dia, de momento a momento, só detectáveis por um escrúpulo demasiado como sempre foi o meu. Em jovem já guardava da humanidade o mesmo sentimento que conservo, a mesma incompatibilidade com as normas correntes de conduta social  e privada, e a passagem dos anos apenas veio dar mais solidez e convicção às suspeitas do instinto.  Aliás, se me alheasse dessas normas por um instante bastaria pegar em qualquer jornal do dia para tudo se avivar. Felizmente a vida proporcionou-me encontros com algumas excpções ao tipo comum do ser humano, e acolhi-as com comoção.

Apesar destes rigores falo bem a toda a gente, uso boas palavras, não me exalto, e posso-me gabar que nunca, na vida inteira, me zanguei com alguém, nunca cortei relações com alguém, nunca virei a cara a alguém. É que, meus queridos tetranetos, eu não detesto os outros nem fujo ao seu convívio se os vejo aproximarem-se de mim. Os meus sentimentos para com os outros não são de repulsa, mas (imaginem!) de pena, de piedade. tenho pena de ver as pessoas presas aos seus preconceitos, às suas ansiedades, aos imperativos da sua hereditariedade, ao peso das tradições, aos condicionamentos do ambiente físico  e humano em que nasceram ou vivem. Tenho pena de todos, e também tenho pena de a ter, porque as pessoas preferem ser odiadas a suscitarem pena. No fundo somos todos irresponsáveis, tanto eles pelo que fazem como eu por reparar nisso.

Rómulo de Carvalho. (2010). Memórias. Lisboa: fundação Calouste Gulbenkian


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