Espaço institucional de partilha e divulgação das atividades das Bibliotecas Escolares do Agrupamento de Escolas António Rodrigues Sampaio
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
Arte e representação
"O que é belo
há de ser eternamente uma alegria, e há de seguir presente. Não morre;
onde quer que a vida breve nos leve, há de nos dar um sono leve, cheio de
sonhos e de calmo alento." (1)
Uma atividade desenvolvida na disciplina de Educação Visual fez-nos pensar sobre uma ideia, um conceito, quase o que podemos chamar a nossa representação do mundo. O belo. Conceito secular construída pela Estética como disciplina, devolve-nos margens de pensamento ligado às ideias, à cultura, ao social e à representação das sociedades. Pode o belo ser uma alternativa à razão e é nesse sentido uma forma mais sensível de conhecer?
Nada mais difícil do que definir o belo, pois ele foi muitas coisas em diferentes épocas. Mas, ainda assim ele é uma forma que ao que agrada, ao que dá uma
satisfação capaz de um entusiasmo. O belo tem si as suas próprias formas de
beleza, ou somos nós como observadores a construir um conceito?
João Bénard da Costa (2) contava uma história
interessante, a de que uma criança ao ler excertos dos Lusíadas dizia, "Eu
não percebo nada disto, mas isto é tão bonito". E talvez que em muitas
circunstâncias o belo seja não só o que ultrapassa a compreensão, ou que está
para além dela, mas que o encontro com algo de maravilhoso seja a
incompreensão. A visita a um templo oriental, como o templo dourado em Kyoto
provoca um sentido diferente de percepção do espiritual, mas ainda assim
achamo-lo belo. E, todavia compreendemos a sua funcionalidade?
Não a percebemos e talvez seja isso que o belo
seja, o que não se percebe tão bem, ou se percebe menos e, justamente porque a
compreensão é do nível do mistério. Podemos visitar o Epidauro, conhecer as
características técnicas daquele espaço, mas a transcendência pode não nos
contemplar. E assim o que fazemos é o estudo da Estética, em que relacionamos a
a representação do belo com as ideias filosóficas de um tempo. E aqui temos
muitas possibilidades. O estudo da Arte no tempo é uma das fontes para olhar para esse fundo de universo, que somos todos nós.
Vincent Van Gogh inspirou alguns alunos do oitavo ano a ver a cor. Ele próprio tentou e, sabemos com que dificuldade se entregou à cor, para a representar como nunca ninguém a tinha visto. Ele próprio o confirmou numa carta a Théo, em 1891. Dizia Vincent, «Os ciprestes ocupam-me constantemente. (...) Nas linhas e nas
proporções são tão bonitos como um obelisco egípcio. E o verde é um tom fino
muito especial. É a mancha negra numa paisagem batida pelo sol, mas é um dos
mais interessantes tons negros; todavia, não, posso pensar em nenhum outro que
seja mais difícil de obter. Tem de se ver os ciprestes aqui contra o azul, para
dizer melhor, dentro do azul»
Em posts a publicar nos próximos dias daremos conta dessa imagem da cor vista pelos alunos.
Imagem: Vincent van Gogh, Seara sobre vento, Museu de Amesterdão.
(1) Kohn Keats. (1841).
"Endymion", in The poetical works of John Keats. London: William
Smith.
(2) João Benard da Costa, Ciclo de conferências
"Ecce Homo", Lisboa, Maio de 2007.
Dia mundial contra o cancro
Dia 4 de fevereiro é o Dia
Mundial do Cancro e o seu objetivo principal é desmistificar algumas das ideias
pré-concebidas sobre o cancro e informar sobre os fatos reais da doença,
sensibilizar a população e mobilizá-la na luta contra o cancro.
Há duas décadas que a doença oncológica é uma preocupação
global. A celebração desta data remonta ao ano 2000 e baseia-se na Carta de
Paris, aprovada em 4 de fevereiro desse ano, na World Summit Against Cancer for
the New Millenium. A Carta apela à aliança entre investigadores, profissionais
de saúde, doentes, governos e parceiros da indústria no âmbito da prevenção e
do tratamento do cancro.
Em Portugal, o cancro é também um assunto sério: Segundo dados
do Observatório Global de Cancro (Globocan, 2018) em 2018, Portugal registou 58
mil 199 novos casos de cancro, prevendo-se um aumento para 69 mil 565 novos
casos em 2040. Já no que se refere à mortalidade por cancro prevê-se um aumento
de cerca de 31%, com quase 38 mil mortes em 2040.
Para além disso, é importante recordar que somos um dos países
mais envelhecidos da Europa, sendo que o maior fator de risco para o
aparecimento do cancro é, precisamente, o envelhecimento.
Estes são alguns dos problemas comprovados e
prioridades por alcançar, identificados por especialistas e instituições, e que
são, em si mesmos, os motivos que justificam a existência deste Dia Mundial do
Cancro:
- A incidência de cancro tende a aumentar e todos os anos 9.6
milhões de pessoas continuam a morrer de cancro. Algumas destas mortes seriam
evitáveis com maior apoio governamental e financiamento para programas de
deteção precoce, prevenção primária e secundária (rastreios) e tratamento.
- Portugal não tem uma comunidade científica com acesso às
melhores condições de trabalho. Pensar numa estrutura e estratégia nacional que
permita ao investigadores avançarem com o seu trabalho e que facilite a
execução de mais ensaios clínicos no país parece ser um dos focos.
- Ainda não existe plena
equidade no acesso a meios de diagnóstico, tratamento e cuidados em oncologia.
Há desigualdades muito acentuadas.
- Os tempos de espera são demasiado elevados, para diagnóstico,
tratamentos e cirurgias.
- Existe uma necessidade em
aumentar a literacia em saúde e a compreensão sobre o cancro, reduzindo o medo
causado por mitos, visto que 1 em cada 3 cancros podem ser evitados com a
redução dos riscos comportamentais. Mais de 50% dos doentes com cancro
conseguem curar-se.
- Outra das prioridades apontadas é a de criar instituições de
apoio a sobreviventes, sobretudo para aqueles que ficam com sequelas tardias.
Pensar de que forma é que estes podem regressar à sua vida normal o antes
possível é importante.
Texto de Sara Fevereiro
A SIC construiu uma página onde aborda este tema falando-nos dos especialistas, das notícias sobre esta doença e das histórias das pessoas. para aceder, aqui.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
In Memorian: George Steiner
Era
um continente de recordações, de uma herança cultural vasta e falou-nos do
livro, da leitura, da linguagem como forma de construir significados.
Conhecedor e utilizador de várias línguas, cultivava essa ideia de saber como
uma expressão do coração, como um património interior. Professor em diversos
sítios do mundo falou-nos do valor a perder-se do silêncio, do pensamento como
forma de construir o real e de como a cultura se não souber ser assumidamente
uma voz de coragem de nada serve.
Os livros, disse-nos, vivem entre o que nos
sugerem e o silêncio que soubermos romper do esquecimento, que afasta cada um
de um quotidiano de dignidade. Por muito que a morte seja um sinal evidente da
própria vida, fica esta impressão de continentes da memória perdidos entre a
poeira dos dias.
De Steiner, um excerto, de um dos seus livros, dos muitos que
escreveu sobre os próprios livros e o poder da linguagem:
“A sensibilidade do
escritor é livre quando é mais humana, quando tenta apreender e representar de
novo a maravilhosa variedade, a complexidade e persistência da vida, através
das palavras mais escrupulosas, mais pessoais, mais repletas do mistério da comunicação
humana, que a linguagem lhe proporciona. O oposto exacto da liberdade é o
estereótipo, e nada é menos livre, mais prisioneiro da inércia da convenção e
da brutalidade vazia, do que uma sucessão de palavras obscenas.
A literatura só
é um diálogo vivo entre o escritor e o leitor quando o primeiro é capaz de
assumir uma atitude de duplo respeito: respeito pela capacidade de imaginação
do seu leitor, e, de modo complexo mas decisivo, respeito pela integridade,
pela independência e pela substância vital das personagens que cria.
O respeito pelo
leitor significa que o poeta ou o romancista convida a consciência do leitor a
colaborar com a sua própria consciência no acto da representação. O escritor
não diz tudo porque a sua obra não é uma cartilha para meninos de escola nem
para deficientes mentais. Não esgota as respostas possíveis da imaginação do
leitor, mas regozija-se com o facto de sermos nós a preencher, a partir dos
nossos próprios recursos de memória e desejo, os contornos por ele delineados. “
George Steiner, Linguagem e Silêncio - Ensaios sobre a
literatura a linguagem e o inumano. Lisboa: Gradiva, 2014
Etiquetas:
Efemérides,
Leitura
fevereiro
Cada dia é uma perna.
E fevereiro é esse mês.
que perdeu duas ou três:
ou ficou com vinte e nove
ou vinte e oito, bem vês.
Mesmo com pernas a menos
já corre o bom fecereiro
p'rà casa da Primavera,
que quer ser o mês primeiro
a chegar a essa meta.
E não é, mas fica perto:
pois tanta é a chuva e o granizo
que ele às vezes escorrega
em lameiros e colinas.
E o prémio de consolação?
É a festa do Carnaval
que quase sempre lhe calha
là p'rò final da corrida.
E é ver o bom fevereiro,
mascarado, já festeiro,
a solatar vivas à vida.
João Pedro Mésseder, O livro dos meses
E fevereiro é esse mês.
que perdeu duas ou três:
ou ficou com vinte e nove
ou vinte e oito, bem vês.
Mesmo com pernas a menos
já corre o bom fecereiro
p'rà casa da Primavera,
que quer ser o mês primeiro
a chegar a essa meta.
E não é, mas fica perto:
pois tanta é a chuva e o granizo
que ele às vezes escorrega
em lameiros e colinas.
E o prémio de consolação?
É a festa do Carnaval
que quase sempre lhe calha
là p'rò final da corrida.
E é ver o bom fevereiro,
mascarado, já festeiro,
a solatar vivas à vida.
João Pedro Mésseder, O livro dos meses
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