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segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Um poema

rilke1896

Mesmo que o mundo mude com rapidez,
 como nuvens em movimento, 
tudo volta outra vez
ao primeiro momento.

Sobre as mudanças, quanto
mais livre ainda se estira
e dura o teu pré-canto,
deus com a lira!

Não se compreende a dor,
não se aprende o amor,
e ao que na morte nos desterra

a mente é muda.
Só o canto sobre a terra
salva e saúda.

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu, (II.19).

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Um poema


"Os mares de Homero deixaram 
de trazer, esbeltas, as suas naves

em nome dos sem-nome, continua
por desertos de areia, desertos sem
sentido, continua. por rostos no deserto,
os do sem nome ou rosto, continua.
ao fundo do deserto, diz-se gotas de
sangue e grãos de areia, a esfinge
no deserto, continua. no verdadeiro
nome do espesso líquido que se diz
vital, em toneladas certas, continua.

os divinos moinhos moendo devagar
fina farinha, inúteis mares de pó."

Ana Luísa Amaral, “Mediterrâneo”, in What´s in a name

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Um poema



"Lá vem o meu pobre Outono
que em troca daquela beleza
de vestir folhas douradas,
um vermelho sem igual
e um castanho especial,
sente a obrigação de abrir
a porta ao vento e à chuva ...

que nesta estação já perderam
a vontade de brincar
e lembram a toda a gente
que é tempo de trabalhar.
Ao Outono resta ainda
a bela consolação
de comer frutos de Verão".

Outono, João Pedro Mésseder, in O Livro dos Meses
Imagem: Copyright: Junaida


segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Um poema

"Paisagem rural
vindo à deriva
de há séculos;
a distância

amplia-se
o navio singra.
Outra vez a constante
música alimenta

um vazio à popa,
os Açores sumidos.
O vácuo atrás e o vácuo
à frente são o mesmo.
toda a ilha é um continente."

John Updike, “Azores”.
Imagem: Ilha do Pico, entre as vinhas e o negrume das rochas – © Maria Adelina.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Um poema

 


Se deste Outono

“Se deste outono uma folha,
apenas uma, se desprendesse 
da sua cabeleira ruiva, 
sonolenta, 
e sobre ela a mão 
com o azul do ar escrevesse 
um nome, somente um nome, 
seria o mais aéreo 
de quantos tem a terra, 
a terra quente e tão avara 
de alegria.“  

Se deste Outono”, in O sal  da Língua / Eugénio de Andrade. Porto: Assírio & Alvim,  2018. 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Um poema

Agora sei que a minha alma se saciou,

com uma suavidade secreta,  
com uma beleza abundante, 
tremor das árvores
nas florestas silenciosas, onde bebi   
a juventude.

Agora sei que colhi  
mesmo todas estas flores,
e todo este cantar,  
que agora está quase a ferver
nas orlas dos bosques
nos caminhos silenciosos,
quando no pasto me entreguei aos sonhos.

Nas florestas descobri múltiplas ruas:  
construí caminhos até aos sonhos 
e enlacei com flores o meu coração,
só a mim não me reconheci ali.
Talvez me encontre um dia entre as pessoas
para medir o meu coração.

Dane Zajc, Dia Nacional da Eslovénia, com a participação da Embaixada da Eslovénia e do Leitorado de Língua e Cultura Eslovena da Faculdade de Letras da UL. 
Imagem – ©: m-ban

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Um poema


"Se o amor fosse o dos livros, acre
ditavas? Se o segredo desvendado fosse tudo o que era preciso, agarravas? Se não houvesse mágoa, rancor, se fossemos só de força e verdade, de respeito, certeza, bondade, pousavas a mão? Se os lugares bons das historias fossem tudo o que ficava do caminho, se o principio inocente e desprendido fosse eterno, todos os dias, de manhã, o primeiro lugar onde se acorda, de corpo perto, olhavas de frente? Se o mundo a gritar fosse mudo, e nós surdos também, confiavas? Sei de um sitio em segredo onde as historias começam. Longe da desilusão há lugares que nos guardam. Longe do medo há lugares onde nos guardamos, onde nos temos no nosso melhor, fotografados, como nos filmes. Se o amor fosse um sitio, um lugar, um quarto que sabíamos onde era, ias até lá? Se fosse um objeto pequeno, que coubesse na mão, uma pedra, um anel, uma semente, um livro antigo, uma carta? Se o amor fosse uma paisagem, um mar, um caminho, uma viagem, chegavas até ao fim? Se o fim não existisse, acreditavas? Se o amor fosse sempre uma pagina em branco, uma frase que se espreita, num livro, o silêncio da descoberta e um sorriso de chegada, olhavas para dentro? Se o amor fosse um beijo parado no tempo, um toque, uma canção, o passeio de um dedo num ombro nu, um sopro, uma dança, a parte quente dos corpos abraçados, a explosão… Se o amor nos falasse baixinho, como um amigo fiel, nos indicasse a direção, nos acolhesse, nos abrisse os olhos, querias ouvir? Se o amor nos amasse, e fosse real. Se o amor fossemos nós também e éramos grandes e infinitos, mas humanos, mas fracos, mas feitos de perdão… Aceitavas? Sei de um sitio puro, limpo, honesto e tão leve que quase não existe no mundo. Sei de um sitio, em segredo, onde as historias começam, e são eternas."
Tiago Bettencourt, “Texto de sala”. Imagem: © – m-ban

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Um poema

                                                     

                                                        "(...)Que o poema seja microfone e fale
                                                                              uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
Para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.

Que o poema faça um poeta de cada
Funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo  acorde no lusíada
A saudade de novo o desejo de achar.

Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui".

Manuel Alegre, "Poearma", in Poemas de Abril

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Um poema

“Promessa”
És tu a Primavera que eu esperava, 
A vida multiplicada e brilhante, 
Em que é pleno e perfeito cada instante.

“Nevoeiro”
A minha esperança mora 
no vento e nas sereias.
É o azul fantástico da aurora 
e o lírio das areias.



“IV”
Sonhei com lúcidos delírios
à luz de um puro amanhecer.
numa planície onde crescem lírios
e há regatos cantantes a correr.

Sophia 
Dia do Mar/Sophia de Mello Breyner Andresen ; pref. Gastão Cruz. – 1ª ed. – Porto : Assírio & Alvim, 2014. – 119, [8] p. ; 21 cm. – (Obras de Sophia de Mello Breyner Andresen). – ISBN 978-972-37-1746-4

(Fazemos viagens, idealizamos caminhos para ver nascer a possibilidade do real. A poesia de Sophia procura esse real deslumbrante e deu-nos em palavras as que nos podem iluminar para o azul, para a manhã que se ordena no significado do vento e das marés. Em abril, as suas palavra são ainda, como sempre de uma claridade livre.)

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Um poema - a rosa e o mar


"Eu gostaria ainda de falar
da rosa brava e do mar.
A rosa é tão delicada,
o mar tão impetuoso,
que não sei como os juntar
e convidar para um chá
na casa breve do poema. 
O melhor é não falar: 
sorrir-lhes só da janela." 

Eugénio de Andrade, "A rosa e o mar", in Aquela nuvem e as outras (Fonte: sal da língua).

quinta-feira, 31 de março de 2022

Um poema - Les feuilles mortes

"Oh je voudrais tant que tu te souviennes

Des jours heureux où nous étions amis
En ce temps là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Tu vois je n’ai pas oublié
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emportet
Dans la nuit froide de l’oubli
Tu vois, je n’ai pas oublié

La chanson que tu me chantais (…)" 

Jacques Prévert, Les Feuilles mortes; (Imagem: Copyright – bokeh-in-my-pocket)

segunda-feira, 21 de março de 2022

Um poema - Mediterrâneo

O
s mares de Homero deixaram

de trazer, esbeltas, as suas naves
em nome dos sem-nome, continua
por desertos de areia, desertos sem
sentido, continua por rostos no deserto,
os do sem nome ou rosto, continua.
ao fundo do deserto, diz-se gotas de
sangue e grãos de areia, a esfinge
no deserto continua. no verdadeiro
nome do espesso fluido que se diz

vital, em toneladas certas, continua. 

Os divinos moinhos moendo devagar
fina farinha, inúteis mares de pó. 

“Mediterrâneo”, in What’s in a name / Ana Luísa Amaral. – 2ª ed. – Porto : Assírio & Alvim, 2018. – 76, [3] p. ; 21 cm. – (Poesia inédita portuguesa ; 156). 
Imagem: Templo da deusa Atena (pormenor) Partenon, Acrópole de Atenas, séc. V a.C. (imagem © J. P. P.)

segunda-feira, 14 de março de 2022

Um poema - Disfarce

"Fico no disfarce
à meia-lua

escondida entre
estrelas
no seu regaço

numa folha 
de sol
onde escrevo

poemas de amor
versos 
   do espaço."


Maria Teresa Horta, “Disfarce”, [VI – A Avocação], in Poesis / Maria Teresa Horta. – 1ª ed. – Lisboa : Publicações Dom Quixote, 2017. 
Imagem: Eliot Porter – Shadbush, Near Hillsborough, New Hampshire, from the series Intimate Landscapes

sexta-feira, 11 de março de 2022

Um poema - Endymion

 

"O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem dos céus e alenta a nossa vida."

"Endymion", in The Complete Poems of John Keats, Wordsworth Editors.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Um poema - Vozes de crianças


"O
 amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste,
é uma teia de luz cansada
onde recordo quando iam dormir.
Ainda lhes leio naquele quarto,
debaixo da lâmpada ao lado da cama,
os contos com capas duras de cores brilhantes.
De súbito, em alguma madrugada,
ouço uma criança que me chama e incorporo-me,
mas não há ninguém, só um velho
que ouviu o rumor da memória,
um leve fragor de ar na escuridão
como se uma bala atravessasse a casa.
Ao apagar a luz guardava um tesouro."
“Vozes de crianças”, in Casa da Misericórdia / Joan Margarit. Ovni, 2009.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Um poema - palavras para um milagre


“Toda a miséria, toda a brutalidade deveriam ser interditas como insultos ao belo corpo da humanidade. Toda a iniquidade era uma nota falsa a evitar na harmonia das esferas. (…) Toda a felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a. A menor deselegância desfeia-a, a menor estupidez embrutece-a. (…) alguns homens pensarão, trabalharão e sentirão como nós; ouso contar com esses continuadores colocados a intervalos irregulares ao longo dos séculos, com essa intermitente imortalidade. 

A vida é atroz, sabemos isso. Mas precisamente porque espero pouco da condição humana, os períodos de felicidade, os progressos parciais, os esforços de recomeço e de continuidade parecem-me outros tantos prodígios que compensam quase a massa enorme dos males, dos fracassos, da incúria e do erro. (…) As palavras liberdade, humanidade, justiça reencontrarão aqui e ali o sentido que temos tentado dar-lhe. (1)

Um pé na erudição, outro na magia, ou, mais exatamente e sem metáfora, nesta magia simpática que consiste em nos transportarmos em pensamento ao interior de alguém. (…) é somente por orgulho, por ignorância grosseira, por cobardia, que nos recusamos a ver, no presente, os lineamentos das épocas que hão-de-vir. Aqueles livres sábios do mundo antigo pensavam como nós em termos da física ou de filologia universal: encaravam o fim do homem e a morte do globo.
 Plutarco e Marco Aurélio não ignoravam que os deuses e as civilizações passam e morrem. (…)

Este século I interessa-me porque foi, durante muito tempo, o dos últimos homens livres. Nada mais frágil que o equilíbrio dos lugares belos. As nossas fantasias de interpretação deixam intactos os próprios textos, que sobrevivem aos nossos comentários; mas a menor restauração imprudente infligida às pedras, a menor estrada macadamizada cortando um campo onde a erva crescia em paz desde há séculos criam para sempre o irreparável. A beleza afasta-se, a autenticidade também.”

(1) – Memórias de Adriano / Marguerite Yourcenar. Lisboa: Ulisseia, 2014. 
(2) – (do conjunto dos apontamentos das diversas edições da obra).

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Um poema - Texto de sala


"Se o amor fosse o dos livros, acreditavas? Se o segredo desvendado fosse tudo o que era preciso, agarravas? Se não houvesse mágoa, rancor, se fossemos só de força e verdade, de respeito, certeza, bondade, pousavas a mão? Se os lugares bons das historias fossem tudo o que ficava do caminho, se o principio inocente e desprendido fosse eterno, todos os dias, de manhã, o primeiro lugar onde se acorda, de corpo perto, olhavas de frente? Se o mundo a gritar fosse mudo, e nós surdos também, confiavas? 

Sei de um sitio em segredo onde as historias começam. Longe da desilusão há lugares que nos guardam. Longe do medo há lugares onde nos guardamos, onde nos temos no nosso melhor, fotografados, como nos filmes. Se o amor fosse um sitio, um lugar, um quarto que sabíamos onde era, ias até lá? Se fosse um objeto pequeno, que coubesse na mão, uma pedra, um anel, uma semente, um livro antigo, uma carta? Se o amor fosse uma paisagem, um mar, um caminho, uma viagem, chegavas até ao fim? Se o fim não existisse, acreditavas? 

Se o amor fosse sempre uma pagina em branco, uma frase que se espreita, num livro, o silêncio da descoberta e um sorriso de chegada, olhavas para dentro? Se o amor fosse um beijo parado no tempo, um toque, uma canção, o passeio de um dedo num ombro nu, um sopro, uma dança, a parte quente dos corpos abraçados, a explosão… 

Se o amor nos falasse baixinho, como um amigo fiel, nos indicasse a direção, nos acolhesse, nos abrisse os olhos, querias ouvir? Se o amor nos amasse, e fosse real. Se o amor fossemos nós também e éramos grandes e infinitos, mas humanos, mas fracos, mas feitos de perdão… Aceitavas? Sei de um sitio puro, limpo, honesto e tão leve que quase não existe no mundo. Sei de um sitio, em segredo, onde as historias começam, e são eternas."

Tiago Bettencourt, “Texto de sala”. Imagem: © – m-ban

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Um poema - 7


"Nós, os ateus, nós, os monoteístas
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águas que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia."
Hélia Correia (2012). A Terceira Miséria. Relógio D’ Água, pág. 13
Imagem – ©: madras91

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Um poema - E por vezes


E por vezes as noites duram meses 

E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira, “E por vezes”, Antologia Poética.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Um poema - Que é voar


Que é voar?

É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência.
E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório, momentâneo…
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.

Ana Hatherly, ‘Que é voar’. Poesia 1958-1978.