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segunda-feira, 6 de junho de 2022

O 1.º Modernismo - Fernando Pessoa e Almada Negreiros (VI)

 

 

Almada Negreiros foi um dos artistas do século XX que esteve ligado ao 1.º Modernismo. Fernando Pessoa também dele participou, nomeadamente através da Revista Orpheu, onde foi colaborador, tendo escrito alguns textos para essa importante revista.

“Retrato de Fernando Pessoa” de Almada Negreiros é o título de dois quadros pintados por Almada Negreiros. O primeiro quadro é de 1954 e foi pintado para o restaurante Irmãos Unidos, que era um antigo ponto de encontro da geração do Orpheu. O segundo quadro é de 1964 e foi realizado, a partir de uma encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian. O segundo quadro representa a imagem invertida do representado no primeiro quadro. Almada Negreiros já tinha pintado a figura de Fernando Pessoa por duas vezes, uma na primeira década do século XX, justamente em 1913 e outra nos anos trinta, em 1935. A primeira para Exposição dos Humoristas e a segunda, aquando da morte do poeta, publicada no Diário de Lisboa.

     “Retrato de Fernando Pessoa” é um duplo quadro de grande importância por diversos motivos. Em primeiro lugar pelo grande valor de Fernando Pessoa como poeta e de Almada Negreiros como um importante artista. “Retrato de Fernando Pessoa” é na obra de Almada Negreiros que foi extensa e diversificada, uma das suas mais importantes criações. Quando os quadros foram produzidos a geração do Orpheu já não existia, o que também lhe dá a importância de religar duas gerações na arte em Portugal no século XX.

     O quadro apresenta-nos algumas características curiosas. Fernando Pessoa aparece sentado a uma mesa num lugar a que ficou especialmente ligado,  podendo ser “o Martinho da Arcada”, ou “a Brasileira do Chiado” e na mesa o número dois da revista do Orpheu. Na representação do poeta o olhar revela uma determinada fragilidade no olhar, onde se percebe um sentido de introspeção, de pensamento, onde a emoção não se pressente e com a curiosa apresentação de uma figura que se assemelha com um arlequim. O quadro apresenta-se-nos como um olhar do poeta parado em direção a um pensamento, onde se vislumbra uma atmosfera de pouca tranquilidade.

     Fernando Pessoa criou um conjunto de figuras poéticas, os seus heterónimos com características diversas no seu olhar sobre o mundo e a sociedade. Um dos poemas de Fernando Pessoa, “Chuva Oblíqua” conduz-nos a algumas das ideias que o quadro de Almada Negreiros expressa. Se lermos Chuva Oblíqua e observarmos alguns dos detalhes do quadro vemos a ideia do interseccionismo que se apresenta de modo comum.

     No quadro encontramos essa ideia (interseccionismo) através dos pontos que fazem essa intersecção e que são apoiados pela luz de tons quentes. A luz é marcada pelos tons alaranjados que se interpõem no espaço onde aparece a figura de Fernando Pessoa. Essa luz desdobra-se em outras cores, como os vermelhos, ou os amarelos. A estrutura pictórica é também marcada por zonas de sombras, com tons acastanhados e vermelhos escuros. Existem ainda outras tonalidades com tons de cinzento e de azuis que marcam as zonas onde se definem a luz e a cor. E neste tons encontramos objetos como o açucareiro, os punhos da camisa, a chávena do café ou a folha de papel. Todo o quadro é construído segundo a ideia de uma conceção geométrica do espaço, onde se cruzam planos quadriculados de linhas perpendiculares com as linhas diagonais que se cruzam no pavimento em ladrilho.

   O poema destacado enquadra-se com as ideias expressas no retrato, pois nos dois, as ideias de interseccionismo estão presentes de diversos modos.  Nos dois vemos as ideias do futurismo, com as sobreposições dinâmicas  e a  confluência de um mundo exterior em diálogo com um eu interior. Dessa contemplação e intersecção de paisagens surge a fragmentação dos planos, que no poema é muito clara.

Fonte: A arte em Portugal no século XX / José-Augusto França. 4ª ed. - Lisboa : Livros Horizonte, 2009. 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

O 1.º Modernismo - Fernando Pessoa e Almada Negreiros (III)

 A sociedade em Portugal nos finais do século XIX

Pertenço a uma geração que ainda está por vir, cuja alma não conhece já, realmente, a sinceridade e os sentimentos sociais". (Fernando Pessoa, Orpheu, Nº1)

     A História contemporânea portuguesa foi marcada por um conjunto de acontecimentos que criariam no país profundas dificuldades de arranque industrial e de construção de uma sociedade moderna. Na 1ª metade do século XIX, houve uma grave crise do indústria e do comércio, agravada pelas invasões francesas, pela ida da corte para o Brasil, pela perda do exclusivo do comércio com o Brasil e pela crescente influência da economia inglesa nos mercados portugueses.  Até 1850, falharam muitas das ideias de industrialização para o país.

      Na 2ª metade de Oitocentos, a Regeneração tentou modernizar o país através de um conjunto de planos de reforma educativa, fomento industrial e novas vias de comunicação. É o país que Eça nos deu nos seus romances e artigos de opinião. No final de Oitocentos, Portugal era predominantemente agrícola, com um défice acumulado por um maior número de importações e por uma indústria pouco competitiva em quantidade e qualidade. O Estado recorria a frequentes aumentos de impostos. A crise económica e financeira de 1890 veio juntar-se ao Ultimato Inglês para consolidar a ideia de uma crise da Monarquia. No início do século XX em Portugal há um confronto entre um partido republicano em ascensão e as posições monárquicas em queda de influência na sociedade.

      Foi neste contexto que o regicídio e a implantação da República criaram focos de esperança para uma sociedade mais desenvolvida. Registaram-se sinais de profunda divisão na sociedade, ainda dominantemente rural e sem grupos sociais capazes de uma mudança de fundo. É com este enquadramento e com a agitação social e política da 1ª República que as ideias do Modernismo tentam, pela Arte e pela Literatura, romper com um Portugal antigo e propor uma nova ideia sobre o país e sobre o mundo. Elementos essenciais deste 1º Modernismo foram diferentes artistas como os pintores Santa-Rita, Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa.

terça-feira, 31 de maio de 2022

O 1.º Modernismo - Fernando Pessoa e Almada Negreiros (II)

 

Base para uma exposição de pintura a realizar pelos alunos do nono ano em ligação com o movimento das vanguardas - o 1.º Modernismo e aquilo que foi uma nova ideia para a Arte em Portugal no início do século XX.

"Somos portugueses que escrevem para a Europa, para toda a civilização; nada somos por enquanto, mas aquilo que agora fizermos será um dia universalmente conhecido e reconhecido. (…)A uma arte assim cosmopolita, assim universal, assim sintética, é evidente que nenhuma disciplina pode ser imposta, que não a de sentir tudo de todas as maneiras, de sintetizar tudo, de se esforçar por de tal modo expressar-se que dentro de uma antologia da arte sensacionista esteja tudo o que de essencial produziram o Egipto, a Grécia, Roma, a Renascença e a nossa época. A arte, em vez de ter regras como as artes do passado, passa a ter só uma regra - ser a síntese de tudo."

(Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, p.124)

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XXV)

                                                   

                                                      A civilização romana - A arte -  A pintura

Com a pintura na civilização romana terminamos esta viagem pela arte, cultura e sociedades do mundo antigo e clássico que fomos fazendo em ligação estreita com o currículo da disciplina de História, ao nível do sétimo ano. Deixaremos após este um de conclusão sobre a influência desta civilização no espaço da Hispânia e da Península Ibérica e dos seus dois países.

A pintura romana conseguiu chegar aos nossos dias, como tantas outras formas materiais e não materiais desta grandiosa civilização. A pintura que até nós chegou encontra-se fixada em murais, em mosaicos que decoravam diferentes espaços, como salas, paredes, ou pavimentos. Tal como nas outras características da arte romana, a influência da civilização grega foi muito notória, embora com tempo algumas marcas podem ser consideradas, como criações originais do pensamento romano.

Na pintura romana tem destaque o retrato que se apresentava com uma expressão realista, na representação das suas formas. A expressividade dos elementos do corpo são notórios, sendo a imagem em cima um dos seus casos mais conhecidos e encontrado em Pompeia e datado do século I d.C. Este exemplo indica-nos como a cor e os contrastes eram muito desenvolvidos. Apesar de expresso com realismo a perspectiva e as cores introduzidas criavam um efeito de uma certa irrealidade ou mistério.

Nas representações de murais e de pavimentos a vida romana é um dos temas representados. As atividades económicas com destaque para as ligadas à terra ou ao mar, ou os eventos desportivos e de luta como a dos gladiadores eram muito representadas. A fauna, a flora dos espaços do Império, os instrumentos de trabalho, o vestuário, ou as habitações eram outros temas representados. A mitologia também teve um destaque na representação da pintura, embora pela sua durabilidade tenha sido no mosaico que a obra obra romana mais perdurou.

Imagem: Um casal, Museu de Pompeia, século I



sexta-feira, 4 de junho de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XXIV)

 

A civilização romana - A arte - A escultura

Como já tínhamos salientado no post anterior, a arquitetura foi uma das grandes áreas, onde a arte e a cultura romana se manifestaram. A escultura não teve a mesma importância, sobretudo não foi tão original nas formas propostas. Influenciada pela cultura grega, a escultura romana, como em tantas outras áreas foi durante bastante tempo a cópia desses modelos. Assim, Roma reproduzia cópias semelhantes, pois as de origem grega eram de grande valor estético e simbólico. Nessa cópia muitas vezes as divindades tinham os mesmos atributos, embora com nomes diferentes. 

A escultura tinha para os romanos uma função ornamental e esta era usada muito nas habitações, pois a casa romana tinha uma conjunto de divindades que supostamente a protegiam do mal que poderia acontecer. Só quando o retrato se desenvolveu é que as escultura pode assumir formas mais importantes, sobretudo com a representação do busto e do rosto.

A escultura romana tinha uma característica realista e não assumiu um ideal de beleza, como os gregos a tinham desenvolvido. Não existia uma idealização da beleza, mas sim o retrato realista de personagens com as suas características positivas e ou negativas.  A escultura desenvolveu-se com a construção de máscaras que tinham uma função de honrar a memória dos antepassados. Com Augusto a escultura ganhou valores de idealização, com uma representação mais expressiva, o que serviu muito para a construção da figura do imperador. 

Com o século I o retrato como forma de divulgação de figuras importantes cresce e os retratos públicos de determinadas figuras difunde-se pelo Império, assim como as estátuas equestres, de valorização dessas figuras. Nos baixos-relevos as esculturas assumiam formas realistas dando à construção arquitectónica um aspeto mais grandioso e expressivo. Os arcos triunfais foram outra forma de consagrar o poder do Império, onde eram historiadas representações da história e do poder imperiais. As colunas imperiais, como a de Trajano seguiam as mesmas disposições de relato e glorificação de determinadas figuras do Império.

A coluna de Trajano, (século II) - Situa-se no Fórum Romano, no centro de Roma

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XXIV)

 

A civilização romana - A arte - A escultura

A escultura romana não teve a criatividade e a originalidade observadas na sua arquitetura. Mais uma vez as influências das civilizações Etrusca e Grega foram importantes, embora tenha existido uma linha própria do que foi a escultura na civilização romana. 

A conquista da Grécia levou a uma atitude de cópia das obras gregas. Simplesmente fazia-se uma cópia, sabendo-se que aquela tinha sido uma civilização de um nível cultural muito importante. Para a civilização romana, a estátua tinha uma função utilitária, servia para decorar os espaços das habitações. Só quando o retrato evolui na arte romana é que na representação dos elementos e da estátua, em particular, com o rosto e o busto ganharam maior importância. 

A civilização grega tinha procurado um ideal de belo, afirmando ideais de perfeição. A civilização romana olha para a representação como algo mais utilitário, mais prático, onde se encontra uma aproximação a algo identificado com a experiência da vida no real, as suas virtudes e imperfeições, dando-nos tipos de personagens que ofereciam um leque variado de sensibilidades e histórias. A escultura romana começou por representar máscaras que eram usadas para o culto dos antepassados. Alguns sinais de idealismo afirmaram-se com o Imperador Augusto, onde a expressividade ganhou formas interessantes ao nível do rosto. As estátuas-retrato e a estatuária equestre ganham formas de expressão com o século I. 

A dimensão realista da escultura romana alargou-se com a construção dos baixos-relevo que eram uma forma de afirmar valores culturais e de decorar espaços, como as estelas funerárias, ou  os arcos triunfais. As colunas triunfais, como a de Trajano ilustravam uma narrativa e afirmavam o poder e importância de um imperador.  O retrato atingiu o seu expoente no século I, com Augusto que é uma afirmação do poder imperial e uma forma de divinizar o seu poder e atributos.

Imagem: Estátua equestre de Marco Aurélio, Palácio dos Conservadores, Museus Capitolinos, Roma.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XXIII)


 A civilização romana - A arte - A arquitetura (III)

A arquitetura foi uma das grandes áreas, onde a arte e a cultura romana se manifestaram. Na chamada arquitetura civil dois elementos dominaram as técnicas de construção, o arco e a abóbada.  Estes foram primeiro construídos com pedras e depois com tijolos, outra inovação desta civilização. Neste tipo de construção, um dos mais significativos foi o conhecido Coliseu de Roma, originalmente conhecido, como o anfiteatro de Flávio. A construção  do Coliseu assumiu uma dimensão de efeitos muito espectaculares, devido à existência de arcos no exterior e à repetição no espaço das arcadas sobrepostas em três andares.

O espaço atribuído aos espetadores (a cávea) estava dividido em socalcos de altura diferenciada que eram suportados por um sistema de corredores, onde as abóbadas de aresta davam um grande significado na utilização funcional do espaço. O arco e em particular o arco de triunfo era outro elemento da arquitetura civil romana e muito usado na celebração das vitórias militares das legiões. Os arcos tinham uma ornamentação de baixos-relevos, suportados em pilares. O arco foi muito importante nas construções de pontes e aquedutos. 

Justamente, os aquedutos é outra da inovação desta civilização. Tratou-se de algo de um grande valor civilizacional, pois não só abasteciam de água determinadas zonas das cidades, como na sua construção estavam inseridos os arcos de volta perfeita, com outros mais pequenos. as construções romanas mostraram-se sólidas, duráveis e com uma qualidade técnica muito significativa.  O tijolo e o cimento foram dois materiais que asseguraram uma durabilidade muito significativa às construções do Império Romano. 

Outro dos grandes edifícios desta civilização foi o Panteão, que tinha inicialmente uma forma retangular e depois de reconstruído assumiu uma forma circular.  A sua reconstrução foi realizada no século II por um dos imperadores mais importantes do Império, Adriano. O Panteão impressionava pelas suas dimensões e formas geométricas.

Imagem: Copyright - Coliseu de Roma, APH


sexta-feira, 14 de maio de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XXII)


 A civilização romana - A arte - A arquitetura (II)

A arte romana e em particular a sua arquitetura guiou-se por critérios de funcionalidade. No entanto, o contacto com outras culturas permitiu que ela evoluísse e aceitasse a introdução de valores ligados ao belo. Com esta evolução o templo romano adapta-se e evolui.

 Assim o chamado pórtico feito de colunas que formam a sua fachada e a cella que era um espaço fechado são elementos essenciais do templo romano. Este na sua área exterior tinha sobretudo uma dimensão de frontalidade, no sentido de demarcar o exterior do interior. A ideia de frontalidade era ainda incentivada pela construção do edifício num espaço elevado, a que se acedia por degraus. O facto de ser a única forma de acesso e de saída dava um sentido à própria função do edifício.  No interior o edifício tinha uma planta em círculo e era sustentado por um conjunto de pilares. Verifica-se um grande valor dado ao espaço interior, onde as dimensões de proporções colossais são uma das suas marcas. 

Ao nível da arquitetura civil nota-se que a evolução dos conhecimentos permitiu aperfeiçoar formas de construção. O teatro e o anfiteatro são as formas de edifícios mais relevantes neste domínio. Na sua edificação o arco e as abóbadas em pedra e mais tarde de tijolos são os elementos essenciais da sua construção. O Coliseu é sem dúvida um dos marcos deste tipo de construção.  

O anfiteatro era construído numa sequência de espaços exteriores com diversos arcos sustentados por pilares, o que dava um sentimento de grandiosidade, produzido pela repetição dos arcos e pela altura das colunas. O interior dos anfiteatros era destinado aos que vinham assistir a alguma cerimónia ou espetáculo. Existiam diferentes espaços de socalcos que organizavam o anfiteatro. Sob eles um conjunto complexo de corredores em abóbada completavam as funções deste espaço público. A abóbada foi um dos elementos mais importantes na arquitetura romana e na sua arte, não só no seu tempo, como em séculos posteriores.

Imagem: Copyright -  Anfiteatro romano de Italica, Sevilha, século II

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XXI)


 
A civilização romana - A arte - A arquitetura (I)

A arte é um dos elementos mais importantes de uma civilização. Nela se expressam as ideias, os valores, as emoções de uma sociedade sobre o material, mas também sobre tudo aquilo que repousa no imaginário. A arte romana como toda a sua civilização foi muito influenciada pela civilização grega. De qualquer modo Roma e o seu império conseguiram criar uma arte romana que a identificasse com os princípios mais utilitários ou práticos que a dominaram na sua essência.

A arte romana começa a ganhar forma essencialmente a partir de II a. C. A civilização romana não tinha a preocupação de pensar a existência e de a abordar de um modo filosófico tão denso como a grega. Na verdade a expansão grega decorre mais da vontade de unificar em cidades do Mediterrâneo a sua cultura e o seu comércio, do que, como na romana de "civilizar" o mundo e de lhe impor um modo de vida e de sociedade.

Em Roma os cidadãos tinham uma função essencial. E essa era serem militares e combater. Para esta função primária a construção de templos não era essencial. A necessidade das construções romanas ligam-se mais à necessidade de construir algo que é útil. O principal critério nessa fase é dominar a técnica de construir templos e torná-los acessíveis a um conjunto de pessoas. E é por isso que a principal área da arte romana é a arquitetura e mesmo nesta o útil sobrepõe-se aos critérios do belo.

A funcionalidade da criação de espaços é o grande critério da arte romana e da sua arquitetura. Esta procura servir as necessidades da vida social e política dos romanos. A criação nas cidades romanas do fórum revela-nos esse princípio de criar espaços que sirvam grandes aglomerados humanos e as suas necessidades na sociedade. O fórum concentrava em si espaços que se relacionavam com atividades religiosas, administrativas, de justiça e de comércio. 

A presença na arquitetura romana e na construção de cidades dominadas por uma rede de ruas que organizavam os diferentes espaços, ou a edificação dos espaços das termas revela um conjunto de princípios que assentava na ideia de dotar as cidades de conforto. A funcionalidade dos espaços é o grande princípio da arquitetura romana e também da sua arte.

Imagem: Copyright - Tetro romano de Mérida

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XX)



A civilização romana - as formas culturais

A civilização romana alcançou nas atividades culturais uma grande dimensão. A língua e a literatura tiveram expressões de grande significado. O latim foi uma das suas mais importantes marcas. Criado a partir de uma zona da península itálica foi evoluindo com as influências que recebeu da cultura helénica (na gramática e na literatura), da etrusca (introdução de algumas palavras) e das línguas faladas no Mediterrâneo com especial destaque para o fenício.

A literatura romana foi muito influenciada pela cultura grega, embora tenha construído uma dimensão própria que deu resposta à sua ideia mais prática da vida. Cícero foi um dos seus maiores expoentes com a produção de uma obra marcada pelos temas morais e assuntos políticos. Virgílio foi um dos grandes poetas da civilização romana, tendo deixada obras tão marcantes como As Bucólicas ou a Eneida.  Horácio foi outro dos grandes nomes da literatura romana com as suas obras dedicados à vida pública e privada. Ovídio marcou a poesia com a sua obra Metamorfoses, onde descreveu as lendas da civilização romana. Tito Lívio foi um dos mais marcantes historiadores de Roma.

É importante notar que na fase do Império os grupos sociais mais ricos frequentavam espaços de leitura pública (os auditoria), onde se ouviam textos em voz alta. Existia a frequência de bibliotecas, quer públicas, quer privadas. Na civilização romana os mais ricos tinham o hábito de ter escravos (muitas vezes conhecedores do grego) que copiavam livros para a sua biblioteca privada. 

Os espectáculos como forma de ocupar o tempo de um modo lúdico ou virado para a diversão marcaram a civilização romana. Existiam festas públicas de natureza religiosa, festas familiares e espectáculos de teatro, assim como as competições nos anfiteatros. Os teatros foram sobretudo de pedra. Durante um período (seis a treze de Julho) eram organizados jogos públicos em honra de Apolo, os quais continham uma vertente religiosa e de espetáculo público. 

O anfiteatro e o circo eram manifestações importantes na civilização romana e estão ligadas entre si, sobretudo na sua criação. No circo os exercícios físicos dominavam, como era o caso do pugilato, das corridas a pé, ou a cavalo. Nas corridas o imperador distribuía alguns presentes e no fim dos espectáculos era mesmo oferecido um banquete. Estas atividades enquadravam-se nas formas de consolidação do poder dos imperadores.

O anfiteatro é uma invenção romana. Embora espalhados por algumas zonas do Império, o de Roma, conhecido como Coliseu é na verdade o mais emblemático. Ele é uma das marcas materiais mais marcantes da civilização romana. Os combates entre gladiadores era algo muito comum nos anfiteatros. Estes combates entre homens que eram escravos, ou apenas aventureiros à procura de um prémio valioso marcaram uma civilização de grande significado material, mas com formas de entretenimento muito violentas. Os combates chegaram a realizar-se entre homens e feras e ente estas o que mostra de algum modo as dimensões culturais e morais do Império.

Imagem: Villa Hadriana (Vila Adriana) , antigo espaço palaciano (século II) - Imperador Adriano

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XIX)

                                     

                                       A Civilização Romana - A religião (I)

No estudo de uma civilização a religião e a arte desempenham um papel muito importante. Nas civilizações clássicas essas dimensões ainda assumem uma dimensão mais substantiva. A religião desempenhou na civilização romana um importante papel, quer na vida privada, quer na pública. Na sociedade romana as cerimónias religiosas ocorriam nos espaços públicos, mas também nos espaços privados. 

A religião romana sofreu um conjunto de influências de diversa origem. Em primeiro lugar influências das culturas da Península Itálica, com os seus diversos povos, como os Etruscos, ou os Sabinos. Mais tarde a influência grega foi muito importante, pois as divindades romanas foram copiadas da Civilização Grega, tendo recebido outros nomes, mas mantendo atributos semelhantes. Os cultos orientais, quer do Egito, quer da Pérsia também influenciaram a religião romana. O Cristianismo acabaria igualmente por também influenciar a religião romana.

A religião romana estava presente nos diferentes aspetos da vida quotidiana. Existiam um conjunto significativo de deuses, escolhidos para darem uma proteção especial a cada ato ou situação da vida. Existia uma figura, os áugures que previam se a realização de um acontecimento seria ou não favorável numa determinada data. Na religião romana figuras, como astrólogos ou adivinhos eram muito frequentes, pois na sociedade romana eram figuras que podiam ajudar a interpretar os sonhos.

A religião romana construiu um conjunto de figuras e crenças (a sua mitologia) que apesar de influenciada pelos gregos foi em  muitos aspetos diversa, e mais pobre quer nas atribuições, quer nas figuras criadas. Os Romanos não eram tão dados à espiritualidade como os gregos, pois como em tudo na sua civilização procuravam um sentido mais prático da vida. Na verdade os romanos não tinham muita devoção pelos seus deuses, apenas procuravam uma proteção.

Os heróis também integraram a religião romana e nesse sentido o mais conhecido deles foi  Hércules, ele próprio uma adaptação do herói grego Héracles. Assumindo uma dimensão familiar e comunitária, a religião romana assumiu três formas de culto, a saber:

  • O culto familiar: este culto era assumido pela figura do paterfamiliae (o pai de família) que dirigia um conjunto de cultos, nomeadamente aos antepassados, aos deuses protetores da casa e aos das chamadas provisões.
  • O culto público: servido por um conjunto de sacerdotes, ou de sacerdotisas (vestais) procuravam manifestações ou indícios das vontades dos deuses e que podiam ser encontradas no traçado das tempestades, ou da análise dos animais sacrificados. 
  • O culto ao imperador: Com o Império torna-se um dos cultos mais importantes e todos os cidadãos o deviam fazer. O Cristianismo e a sua influência acabariam por no século IV transformar este culto. A partir dessa data ele tornou-se a religião oficial do Império.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XVIII)

                               

                           A Civilização Romana - As atividades económicas 

O Império Romano atingiu uma dimensão extraordinária, tendo-se construído à volta do Mar Mediterrâneo. Observando a sua rede de estradas que ligaram diferentes espaços de continentes diversos não podemos deixar de admirar esse grande lago romano, como suporte de uma civilização de grande desenvolvimento em muitas das áreas da sociedade.

A construção de um império e a ideia de romanização levada a este espaço, onde uma "pax romana" pretendia manter controlados muitos povos e civilizá-los de acordo com a cultura romana, assume uma dimensão de grande significado. A dimensão do império alterou a organização económica e social do mesmo. A partir do século III a.C., a agricultura e a pastorícia deixaram de ser as únicas atividades da sociedade romana. A chegada de metais preciosos, de cereais, de tributos elevados pagos pelos povos dominados e de escravos alteraram a organização económica. 

A existência de produtos agrícolas de grande qualidade em determinadas zonas do Império, como o norte de África (cereais), ou da Britânia (lã e cerveja), ou da Hispânia (azeite) levaram ao abandono de terras em algumas regiões do Império. A criação de gado desenvolveu-se bastante, assim como a exploração da arboricultura, de modo a satisfazer as necessidades de madeira, como fonte de energia.

No Império Romano a "indústria" e o comércio desenvolveram-se muito. Existiam áreas que precisavam desse fornecimento de produtos criados e comercializados. Atividades como a metalurgia, a cerâmica, a produção de tecidos, de conservas de peixe e a exploração mineira foram muito desenvolvidas no império. Os grupos sociais e políticos mais poderosos não se interessavam por este tipo de atividades, sendo feito por artesãos e por escravos. 

A partir do momento em que Roma constrói um vasto império e desenvolve um conjunto de atividades muito significativas, estas produções são mais uma forma de impor a romanização a todos os espaços conquistados. A rede de estradas era um dos suportes desta dominação. O comércio romano fazia-se por terra, mas também por mar, onde se destacam três zonas: a do mar Mediterrâneo, a do mar Vermelho e a zona do canal da Mancha. O comércio mais importante era o interno, aquele que se fazia entre as províncias.

Roma importava produtos de espaços tão diversos como (madeira, tecidos de lã) da Gália, (metais preciosos), de África, (vinho, tecidos finos, artigos de luxo), da Grécia, (âmbar e ouro), da Escandinávia e (trigo, papiro, linho, granito, mármore), do Egito. Com um grande desenvolvimento comercial o Império Romano conhece um aumento significativo da circulação de moeda. Todo este desenvolvimento fez nascer centros urbanos maiores.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XVII)

 

A Civilização Romana - Os tempos do quotidiano (III)

As civilizações transportam consigo ideias, técnicas, valores e com essas construções do espírito deixam um património. A alimentação desenvolvida sobre os produtos criados na natureza e a sua transformação dão uma imagem sobre a sua dimensão social e cultural. Os sabores e as cores dos alimentos são também uma das mascas deixadas para o futuro. A civilização romana também deixou na área da alimentação marcas, sinais de um mundo que no Mediterrâneo estão ainda muito presentes.

A alimentação do mundo antigo e das épocas clássicas não conhece o que hoje se designa de comer equilibradamente. Esse mundo tinha limitadas formas de produzir alimentos frescos, pelo que a conservação dos mesmos era muito praticada. A conservação dos alimentos era feita por diferentes modos. Aqueles podiam ser fumados, salgados, secos, ou ainda conservados em vinagre. 

A conservação não era perfeita e muitas vezes quando eram consumidos os alimentos já se encontravam deteriorados. A utilização de ervas tinha a função de lhe dar um sabor mais agradável. É importante saber que os alimentos que hoje são conhecidos em qualquer ponto do mundo, não eram no mundo clássico conhecidos. Assim o chá, o café, as bananas ou as simples batatas eram dos romanos desconhecidos. Os citrinos foram conhecidos já na parte final do Império (após o século II).

Na sociedade romana faziam-se três refeições por dia. O lentaculum, o prandium e o convivium

O lentaculum realizava-se de manhã e pode ser comparado com o que se designa pequeno-almoço. A merenda escolar também conhecia este nome. Este lentaculum era muito simples composto de pão com queijo e água.

O prandium assemelhava-se ao que poderíamos designar como almoço. Neste se introduziam os legumes, as carnes frias, frutas e vinho.

Na sociedade romana o convivium era a principal refeição do dia. Era tomada numa sala própria e servida após os romanos tomarem o seu banho. Iniciava-se no princípio da tarde e podia durar até à noite. Era um momento de lazer e de convívio, onde a poesia, a leitura, a música, os cantos e as danças podiam integrá-la. Era esta refeição que determinava o fim do dia e o recolhimento.

A principal refeição (o convivium) era tomada na triclinia que era uma grande mesa quadrada, à volta da qual se encontravam camas viradas contra a mesa, onde reclinados, os romanos conviviam. A distribuição dos lugares no espaço era feito em função da importância dos que ali estavam. Esta ideia de se ter uma refeição em posição reclinada ou deitada pode ter chegado por influência da cultura grega.

A cultura romana prolongou pelos espaços do Mediterrâneo alguns dos alimentos que deram substância a diferentes povos. Entre eles são essenciais, os cereais, o azeite e o vinho. O mel conhecido desde os egípcios também era conhecido. O peixe desempenhou um papel importante na alimentação dos romanos, com particular importância para o garum que era uma pasta que poderíamos hoje de apelidar de conserva de peixe e que era transportado em ânforas pelo império. 

                    Imagem: Casa de Julia Felix. Pompeia, Museu Arqueológico de Nápoles 

sexta-feira, 19 de março de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XVI)

 A Civilização Romana - Os tempos do quotidiano (II)

As civilizações podem distinguir-se por muitos aspetos: a economia, as instituições políticas, as formas de arte. Nos tempos do quotidiano a família e aquilo que a envolve também.

Na sociedade romana não era a mãe que determinava ou influenciava a posição social da criança. O ritual de aceitação da criança passava por uma cerimonial em que o pai da criança a levantava junto  aos retratos dos seus antepassados e perto dos deuses protetores da casa e do altar que existia par o efeito. Ao novo dia a criança era apresentada à família e era "baptizada". Era dado a conhecer o seu nome e registada. 

No registo dos nomes, os romanos usavam três categorias de nomes. O prenome que indicava os antepassados da criança, o nome próprio que era o da família e o sobrenome que distinguia os diferentes ramos de uma mesma família. Apenas os homens podiam usar nome próprio, pois as mulheres usavam um único nome.

A educação das crianças tinha algumas semelhanças com as conhecidas no mundo grego, mas também comportavam diferenças. Até aos sete anos de idade eram a mãe a ama que educavam os rapazes. Esta fase era dominada pelo jogo e pelas brincadeiras. A partir dos sete anos de idade os rapazes frequentavam uma escola para aprender a ler, a escrever e a contar. Nas famílias mais pobres a educação terminava aqui, aos doze anos. 

Os que prosseguiam tinham dois anos (entre os treze e os quinze anos) para estudar literatura grega e latina, história, geografia, música, mitologia e matemática. A partir dos quinze anos acompanham o pai para serem introduzidos na vida pública da sociedade romana. Aos dezasseis anos o rapaz recebia a toga branca e era considerado que tinha atingido a maioridade. Aprendia então numa outra escola a retórica, a oratória para poder entrar na carreira política. Aos vinte anos os rapazes atingiam a idade adulta.

A educação das raparigas era semelhante à realizada na Grécia. Quer dizer que era muito escassa e apenas recebiam uma instrução para as tarefas domésticas, mantendo-se em casa até à idade do casamento.Na sociedade romana a vida da mulher era difícil mantendo-se nas tarefas da casa ou, em alguns casos em apoio às tarefas do trabalho com que a família vivia. Apesar das limitações, a sociedade romana permitia a saída de casa das mulheres para tarefas diversas. A independência da mulher estava muito ligada ao casamento, pois o marido controlava os seus bens. A sociedade romana era pois muito desigual entre o papel dos homens e das mulheres e da sua participação na sociedade e na vida pública.

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sexta-feira, 12 de março de 2021

Biblio@rs - a civilização romana (XV)

                        

                                A Civilização Romana - Os tempos do quotidiano (I)

Numa sociedade com grandes diferenças na sua organização social é fácil reconhecer que no trabalho elas também seriam muito evidentes. O acesso a determinado tipo de trabalho era determinado pela posição social de cada um. Se os mais ricos podiam aceder ao exército e aos espaços de administração, que lhes dava acumulação de riqueza e poder, os menos afortunados serviam como mão -de-obra de trabalho para os que se encontravam em melhor posição. Assim os direitos no trabalho, espaços de folga ou de fruição do tempo para lazer era muito diverso.
 
A sociedade romana estava organizada de um modo em que a mobilidade social era reduzida. Era difícil mudar de posição social. Os ofícios passavam de pai para filho. Carpinteiros, barqueiros ou outros artesãos vendiam o produto do seu trabalho nas suas pequenas oficinas, ou a comerciantes que os distribuíam pelo espaço do Império. Tal como no mundo grego, o trabalho da mulher era muito focado na casa. A existência de profissões mais destacadas eram pouco conhecidas. Em alguns casos as mulheres eram um apoio para os artesãos na produção dos seus objetos. 
 
A economia romana já conhecia a capacidade de produção em larga quantidade, pois já  sabiam utilizar o forno, onde novos materiais seriam dados ao mundo, como a telha ou o vidro.  Conheciam a produção de ferro, como suporte para a produção de objetos de ourivesaria, assim como o do bronze, ou dos metais mais preciosos, como o ouro e  a prata. No entanto, a produção em série, como a conhecemos hoje não existia no espaço romano. 
 
Numa civilização com uma grande preocupação pela materialidade e pela difusão da civilização pelo mundo a pedra era uma das matérias-primas mais importantes, pela sua necessidade para a construção das cidades, na sua edificação e no seu embelezamento. A romanização fez dela um dos seus materiais mais importantes. A difusão de uma cultura a três continentes implicava a construção de edifícios bem projetados, com a edificação de espaços abertos. O cimento já era conhecido pelos romanos e tornou-se um dos elementos presentes na sua urbanização.
 
     Imagem: um casal, cuja imagem foi encontrada em casa de um padeiro de nome Terentius Neo, em Pompeia.