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terça-feira, 18 de maio de 2021

Livros do mês - 2.º e 3º Ciclos - maio


 "O silêncio é uma esteira onde nos podemos deitar.

Esteira de poeira cósmica, se eu olhar de novo o céu escuro. Esse azul do céu me lembra o chão do mar. Um mar, afinal, é só um deserto molhado, em vez de homens e camelos, tem peixes e canoas a passear nele. O deserto é parecido com o mar, o mar é parecido com o universo cheio de estrelas pirilampas."

Amanhecemos com a sua claridade. Vemos com ela os recortes deixados na hora crepuscular e a sua luminosidade envolve-nos em diferentes momentos do dia. Quase pensamos que com ela vemos o essencial e sentimos em écrans de possíveis o que podemos imaginar. Associamo-la muito ao que fazemos, nas rotinas que estabelecemos. Tem um simbolismo de quase verdade.

Existe, no entanto, na sua ausência todo um mundo a descobrir, feito de sombras, de cheiros, de silêncio, onde o universo se revela, onde os gestos se significam na escuridão. É nesta imensidão de noite que melhor percebemos a dimensão infinita do Universo, e que de tão vasto apenas o podemos acolher no coração, nos gestos que amamos, nos desejos mais humanos.

A luz onde tentamos viver transmite-nos muito ruído, muitos passos, largos caminhos em gestos apressados, pouco silêncio em linhas onde ouvimos mal a respiração que nos aproxima, as ideias que queremos partilhar. Na escuridão encontramos céus estrelados, universos de uma luz diferente, onde o silêncio faz anunciar anjos, onde as mãos guardam o som marítimo, os desejos dos sonhos impossíveis, do tempo redescoberto, inventado.

Na escuridão os gestos individuais são caminhos para construir pontos de luz, encontrar as memórias, as sombras perfumadas, desenhar contornos de mãos, os sonhos a acontecer. A imaginação nasce aqui, da escuridão que se quer bonita, da lua a descer nas estrelas, do perfume de abacate dos cabelos dela, do som do cheiro da água e o coração. Do coração que se veste do azul límpido e do mar habitado no sorriso, por onde a beleza se veste com as pálpebras da noite.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Escritor do mês (II)

                     "Como se tempo fosse um lugar"


José Saramago acreditava que a memória poderia reconstruir a infância e os passos mais belos do que vivemos e do que fomos em momentos em que de algum modo formamos o que nos pudermos vir a ser. A infância é um território, uma geografia particular, mas sempre um local com características únicas que é a de crescer entre um mundo de adultos que poucas vezes se compreende.

 Ondjaki escreveu um livro que nos dá  essa memória dos dias mais belos, quando o tempo não existia e em que os milagres da fantasia enchiam o coração de possibilidades. Neste pequeno livro as palavras conseguem resgatar esses pontos cardeais, cujos aromas perfumam a infância. Nele descobrimos sempre como a fantasia, nas crianças é uma forma de responder ao segredos do crescimento, às desventuras de um real imenso. 

 Ondjaki escreveu um livro da memória do crescimento em África, concretamente em Luanda, nos anos oitenta, quando a guerra fria colocava outras geografias nos trópicos. É um livro que pelo olhar de uma criança, nos devolve o que no Ocidente há muito perdemos, as ruas como espaços de socialização. A cidade é aqui ainda a personalização das  ruas como espaço de vida e aventura, e as relações humanas eram construídas mais no abraço, que na despedida. 

 Um livro de grande valor humano para a descoberta que "uma casa está em muitos lugares, é uma coisa que se encontra". Livro sobre as geografias do encontro na infância, quando as palavras inventam de outro modo as memórias, entre o silêncio dos sorrisos e o brilho da fantasia. Mesmo sabendo que os unicórnios jamais voltam do tempo, ouvir os seus passos esquecidos é sempre um reconforto.

 Ondjaki escreveu um livro que nos dá  essa memória dos dias mais belos, quando o tempo não existia e em que os milagres da fantasia enchiam o coração de possibilidades. Neste pequeno livro as palavras conseguem resgatar esses pontos cardeais, cujos aromas perfumam a infância. Nele descobrimos sempre como a fantasia, nas crianças é uma forma de responder ao segredos do crescimento, às desventuras de um real imenso. 

 Ondjaki escreveu um livro da memória do crescimento em África, concretamente em Luanda, nos anos oitenta, quando a guerra fria colocava outras geografias nos trópicos. É um livro que pelo olhar de uma criança, nos devolve o que no Ocidente há muito perdemos, as ruas como espaços de socialização. A cidade é aqui ainda a personalização das  ruas como espaço de vida e aventura, e as relações humanas eram construídas mais no abraço, que na despedida. 

 Um livro de grande valor humano para a descoberta que "uma casa está em muitos lugares, é uma coisa que se encontra". Livro sobre as geografias do encontro na infância, quando as palavras reiventam as memórias, entre o silêncio dos sorrisos e o brilho da fantasia. Mesmo sabendo que os unicórnios jamais voltam do tempo, ouvir os seus passos esquecidos é sempre um reconforto.


Os da minha rua / Ondjaki. Alfragide: Caminho. 2015

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Escritor do mês


Ondjaki, de nome verdadeiro Ndalu de Almeida nasceu em Luanda em 1977. Apresenta-se como um utilizador da língua, não aquela que se fixa em dicionários e prontuários, mas da que nasce e se eleva com o barro que cimenta a construção e a vivência do quotidiano. Apresenta-se como prosador, e às vezes também poeta. É membro da União dos Escritores Angolanos. 

Tem interesses diversos, como sejam a interpretação teatral, ou a pintura, tendo já feito exposições em Angola e no Brasil. No ano 2000 recebeu uma menção honrosa no prémio António Jacinto (Angola) pelo livro de poesia Acto Sanguíneo e em 2013 recebeu o Prémio José Saramago, com a sua obra Os Transparentes.

A sua escrita constrói-se muito a partir da geografia africana, das suas figuras, do seu quotidiano, dos costumes e crenças populares a que deu rosto em diversas publicações. Alguns dos seus livros são: Bom dias Camaradas (2001); Quantas madrugadas tem a noite (2004), Os da minha rua (2007); E se amanhã o medo (2007); O voo do golfinho (2009); A bicicleta que tinha bigodes (2011); Uma escuridão bonita (2013); Ombela. A origem das chuvas (20014); Sonhos azuis pelas esquinas (2014).