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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A noite de Natal (III)

A Estrela


Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar para trás. As árvores pareciam enormes e os seus ramos sem folhas enchiam o céu de desenhos iguais a pássaros fantásticos. E a rua parecia viva. Estava tudo deserto. Àquela hora não passava ninguém. Estava toda a gente na Missa do Galo. As casas, dentro dos seus jardins, tinham as portas e as janelas fechadas. Não se viam pessoas, só se viam coisas. Mas Joana tinha a impressão de que as coisas a olhavam e a ouviam como pessoas.
«Tenho medo», pensou ela.
Mas resolveu caminhar para a frente sem olhar para nada. 

(…)

O silêncio era tão forte que parecia cantar. Muito ao longe via-se a massa escura dos pinhais.
«Será possível que eu chegue até lá?», pensou Joana.
Mas continuou a caminhar.
Os seus pés enterravam-se nas ervas geladas. Ali no descampado soprava um curto vento de neve que lhe cortava a cara como uma faca.
«Tenho frio», pensou Joana.
Mas continuou a caminhar.

À medida que se ia aproximando dele, o pinhal ia-se tornando maior. Até que ficou enorme.
Joana parou um instante no meio dos campos.
«Para que lado ficará a cabana?», pensou ela.
E olhava em todas as direções à procura de um rasto.
Mas à sua direita não havia rasto, à sua esquerda não havia rasto e à sua frente não havia rasto.
«Como é que hei-de encontrar o caminho?», perguntava ela.
E levantou a cabeça.
Então viu que no céu, lentamente, uma estrela caminhava.
«Esta estrela parece um amigo», pensou ela.
E começou a seguir a estrela.

(…)

Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos.
«Será um lobo?», pensou.
Parou a escutar. O barulho dos passos aproximava-se. Até que viu surgir entre os pinheiros um vulto muito alto que vinha caminhando ao seu encontro.
«Será um ladrão?», pensou.
Mas o vulto parou na sua frente e ela viu que era um rei. Tinha na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto azul todo bordado de diamantes.
— Boa noite — disse Joana.
— Boa noite — disse o rei. — Como te chamas?
— Eu, Joana — disse ela.
— Eu chamo-me Melchior — disse o rei. E perguntou:
— Onde vais sozinha a esta hora da noite?
— Vou com a estrela — disse ela.
— Também eu — disse o rei —, também eu vou com a estrela.

E juntos seguiram através do pinhal.
E de novo Joana ouviu passos. E um vulto surgiu entre as sombras da noite.
Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros caía um grande manto vermelho coberto de muitas esmeraldas e safiras.
— Boa noite — disse ela. — Chamo-me Joana e vou com a estrela.
— Também eu — disse o rei — também eu vou com a estrela e o meu nome é Gaspar.
E seguiram juntos através dos pinhais. E mais uma vez Joana ouviu um barulho de passos e um terceiro vulto surgiu entre as sombras azuis e os pinheiros escuros.
Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía um longo manto verde bordado de pérolas. A sua cara era preta.
— Boa noite — disse ela. — O meu nome é Joana. E vamos com a estrela.
— Também eu — disse o rei — caminho com a estrela e o meu nome é Baltasar.
E juntos seguiram os quatro através da noite.

(…)

Já quase no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade. E sobre essa claridade a estrela parou.
E continuaram a caminhar.
Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana viu um casebre sem porta. Mas não viu escuridão, nem sombra, nem tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos anjos o iluminava.

E Joana viu o seu amigo Manuel. Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo.
Em sua roda, ajoelhados no ar, estavam os anjos. O seu corpo não tinha nenhum peso e era feito de luz sem nenhuma sombra.
E com as mãos postas os anjos rezavam ajoelhados no ar.
Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel.
— Ah — disse Joana — aqui é como no presépio!
— Sim — disse o rei Baltasar — aqui é como no presépio.
Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes.

A noite de Natal / Sophia de Mello Breyner Andresen. Ilustrações de Maria Keil.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

leituras de dezembro


Título: O chapéu das fitas a voar
Autor: Augustina Bessa-Luís
Edição: 1ª
Páginas:2008
Editor: Guimarães Editores
ISBN:  978-972-665-523-2
CDU: 821.134.3

Sinopse (Excertos):
"Não são os crentes que se salvam; são os que esperam em plano de igualdade com o que é eterno - a vida humana e a realidade dos seus direitos. Devo acrescentar aqui alguma coisa que sempre me pesou: acima dos amigos eu tive o pensamento; além da gratidão, eu pus o amor forte e generoso pela vida. (...)

Somos sempre muito faladores com o insignificante e muito calados com o que nos assusta. Assusta-nos o íntimo das nossas vidas, por passarmos todas as portas sem pensar que elas se fecham para sempre atrás de nós. Não podemos voltar para compor o inacabado ou as palavras soltas ou a que faltou a experiência.

A criança de seis anos que eu era, que andava sozinha pela avenida onde cresciam as grandes tílias e só os pássaros se ouviam como guardas dos meus passos, teve o primeiro pressentimento do extarordinário. Disse para mim: "Estou num lugar, numa hora, numa vida que não me são desconhecidos." É que esse entendimento de que a nossa vida é repetição e pode ser corrigida a ponto de produzir uma forma de profecia, aquilo que nos abençoa e protege e alegra, fazendo com que o sofrimento tenha sentido no mundo". (1)

(Desta vez optámos apenas por retirar uns excertos do livro escolhido, pois a sabedoria de Agustina nas suas palavras é a melhor forma de seduzir outros leitores a descobrir uma obra rara, a que voltaremos mais vezes, para essa multiplicação do eterno).

   (1) Agustina Bessa-Luís, "Os amigos", in O chapéu das fitas a voar, págs. 214-215

(Pela sua dimensão mais reduzida e pelo seu imaginário, em dezembro iremos nos livros do mês e no autor do mês deixar alguns excertos a ler sobre a beleza da palavra, ou a sua construção em nós. )

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Livros do mês


Iniciamos este mês e nesta semana o destaque dos livros que semanalmente serão destacados de formas diversas. A leitura, a sua promoção e a transformação que as palavras nos podem conceder são uma das mais importantes funções que uma biblioteca deve promover. Semanalmente destacaremos um livro que pela sua importância, pelos caminhos que abre aos leitores nos permitem fazer deles companheiros de uma viagem que é a do nosso quotidiano. Haverá apenas um escritor do mês e será à volta dele que surgirão os livros do mês que poderão ser complementados com algumas das ideias desenvolvidas no planeamento mensal.

Os livros escolhidos obedecem à ideia de divulgação de algo que nos pode fazer enriquecer o que somos, o que vivemos, o que ainda desejamos construir. Livros esses que possam realizar essa viagem e que nos permita chegar ao plano elevado que António Lobo Antunes exprimiu de forma sábia, "ilhas eternas de fraternidade". Embora tendo nós na ideia, um conjunto de opções a destacar estamos disponíveis para alterar o que for relevante para o próprio currículo escolar. A lista mensal já foi enviada através da Informação inicial.

Os livros em destaque serão alvo de uma pequena apresentação no blogue e estarão em suporte físico em alguns espaços de algumas bibliotecas. Esses livros integrarão alguns dos espaços da difusão da informação que tentamos implementar junto de todos. Caso seja possível existirá a construção de uma Newsletter / Boletim que apresentaremos aos docentes e que integrarão alguns destes destaques.
A Biblioteca organizará visualmente um arquivo desses destaques, assim como outro tipo de temáticas. que serão dadas a conhecer a seu tempo.