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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Minutos de leitura

 

«Para que o carácter humano revele qualidades verdadeiramente execionais, temos de ter a boa sorte de ser capazes de observar o seu desempenho durante muitos anos, Se esse desempenho é desprovido de egoísmo, se o seu propósito é uma generosidade inigualável, se há a certeza absoluta de que não existe uma ideia de recompensa e que esse propósito, além do mais, deixou a sua marca visível na terra, então, não haverá engano.

Há cerca de quarenta anos, eu fiz uma viagem longa, a pé, pelas montanhas da remota região onde os Alpes descem até à Provença, e que ainda se mantinha desconhecida dos turistas. Na altura em que embarquei nessa longa viagem a pé, através dessa região deserta, a terra parecia estéril e sem cor. Nada crescia por ali, a não ser alfazema selvagem.

Atravessava essa região na sua zona mais ampla, e depois de três dias a caminhar, dei por mim no meio de uma desolação inigualável. Acampei perto dos vestígios de uma aldeia abandonada. Ficara sem água no dia anterior, e tinha de encontrar alguma. Aquelas casas geminadas, embora em ruínas, como velhos ninhos de vespas, indicavam que devia ter havido ali, em algum momento, uma nascente ou um poço. Existia, de facto, uma nascente, mas estava seca. As cinco ou seis casas, sem teto, roídas pelo vento e pela chuva, a pequena capela com o seu campanário, esfarelado, estavam ali como se fossem as casas e a capela de uma aldeia com vida, mas a vida tinha desaparecido de facto.

Era um belo dia de junho, resplandecente de sol, mas naquela terra desprotegida, a grande altitude, o vento soprava com uma ferocidade insuportável. Rugia sobre as carcaças das casas como um leão importunado durante o seu festim. Tive de mudar o sítio do meu acampamento.

Depois de cinco horas a caminhar ainda não encontrara água e não havia nada que me desse a esperança de a descobrir. Tudo em mim era a mesma secura, a mesma erva áspera. Pensei ver, ao longe, uma pequena silhueta escura, vertical, e pensei tratar-se do tronco de uma árvore solitária. Apesar disso, fui na sua direcção. Era um pastor. Trinta ovelhas estavam ao seu redor, na terra que fervia.

Ele deu-me água a beber da sua cabaça e, pouco depois, levou-me para a sua cabana numa ligeira elevação do terreno. Ele retirava a sua água – água excelente – de um poço natural e bem fundo, onde construíra um guincho.»

 O homem que plantava árvores / Jean Giono. Lisboa. Alma dos livros.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

A maior flor do mundo - memórias de um menino

 As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples… Quem me dera saber escrever essas histórias…

Se eu tivesse aquelas qualidades, poderia contar, com pormenores, uma linda história que um dia inventei… …seria a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas…
… havia uma aldeia. …e um menino.
… sai o menino pelos fundos do quintal, e, de árvore em árvore, como um pintassilgo, desce o rio e depois por ele abaixo…
Em certa altura, chegou ao limite das terras até onde se aventurara sozinho. Dali para diante começava o “planeta Marte”. Dali para diante, para o nosso menino, será só uma pergunta: «Vou ou não vou?» E foi. O rio fazia um O rio fazia um desvio grande, afastava-se, e de rio ele estava já um pouco farto, tanto que o via desde que nascera. Resolveu cortar a direito pelos campos, entre extensos olivais, ladeando misteriosas sebes cobertas de campainhas brancas, e outras vezes metendo pelos bosques de altas árvores onde havia clareiras macias sem rasto de gente ou bicho, e ao redor um silêncio que zumbia, e também um calor vegetal, um cheiro de caule fresco.

Ó que feliz ia o menino! Andou, andou, foram rareando as árvores, e agora havia uma charneca rasa, de mato ralo e seco, e no meio dela uma inclinada colina redonda como uma tigela voltada. Deu-se o menino ao trabalho de subir a encosta, e quando chegou lá acima, que viu ele? Nem a sorte nem a morte, nem as tábuas do destino… Era só uma flor. Mas tão caída, tão murcha, que o menino se achegou, de cansado. E como este menino era especial de história, achou que tinha de salvar a flor. Mas que é da água? Ali, no alto, nem pinga. Cá por baixo, só no rio, e esse que longe estava!... Não importa. 

Desce o menino a montanha, atravessa o mundo todo, chega ao grande rio, com as mãos recolhe quanta de água lá cabia, volta o mundo atravessar, pelo monte se arrasta, três gotas que lá chegaram, bebeu-as a flor com sede. Vinte vezes cá e lá… Mas a flor aprumada já dava cheiro no ar, e como se fosse uma grande árvore deitava sombra no chão. O menino adormeceu debaixo da flor. Passaram as horas, e os pais, como é costume nestes casos, começaram a afligir-se muito. Saiu toda a família e mais vizinhos à busca do menino perdido. E não o acharam. Correram tudo, já em lágrimas tantas, e era quase sol-pôr quando levantaram os olhos e viram ao longe uma flor enorme que ninguém se lembrava que estivesse ali. Foram todos de carreira, subiram a colina e deram com o menino adormecido. Sobre ele, resguardando-o do fresco da tarde, estava uma grande pétala perfumada…

Este menino foi levado para casa, rodeado de todo o respeito, como obra de milagre. Quando depois passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos. Este era o conto que eu queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever histórias para crianças. Mas ao menos ficaram sabendo como a história seria, e poderão contá-la doutra maneira, com palavras mais simples do que as minhas, e talvez mais tarde venham a saber escrever histórias para crianças… 

Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?...
José Saramago. A maior flor do mundo. Ilustrações de André Letria.

Fundação José Saramago. 2013.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Minutos de leitura


"— Banco de arenques a bombordo! anunciou a gaivota de vigia, e o bando do Farol da Areia Vermelha recebeu a notícia com grasnidos de alívio.
Iam com seis horas de voo sem interrupções e, embora as gaivotas-piloto as tivessem conduzido por correntes de ares cálidos que lhes haviam tornado agradável aquele planar sobre o oceano, sentiam a necessidade de recobrar forças, e para isso não havia nada melhor que um bom fartote de arenques.
Voavam sobre a foz do rio Elba, no Mar do Norte. Viam lá do alto os barcos alinhados uns atrás dos outros, como pacientes e disciplinados animais aquáticos à espera de vez para saírem para o mar largo e ali orientarem os seus rumos para todos os portos do planeta.
Kengah, uma gaivota de penas cor de prata, gostava especialmente de observar as bandeiras dos barcos, pois sabia que cada uma delas representava uma forma de falar, de dar nome às mesmas coisas com palavras diferentes.
— As dificuldades que os humanos têm! Nós, gaivotas, ao menos grasnamos o mesmo em todo o mundo — comentou uma vez Kengah para uma das suas companheiras de voo.
— Pois é. E o mais notável é que às vezes até conseguem entender-se — grasnou a outra.
Mais para além da linha de costa, a paisagem tornava-se de um verde intenso. Era um enorme prado em que se destacavam os rebanhos de ovelhas pastando ao abrigo dos diques e das preguiçosas velas dos moinhos de vento.
Seguindo as instruções das gaivotas-piloto, o bando do Farol da Areia Vermelha tomou uma corrente de ar frio e lançou-se em voo picado sobre o cardume de arenques. Cento e vinte corpos perfuraram a água como setas e, ao regressar à superfície, cada gaivota segurava um arenque no bico.
Saborosos arenques. Saborosos e gordos. Era mesmo do que precisavam para recuperar energias antes de continuarem o voo para Den Helder, onde se lhes juntaria o bando das ilhas Frísias.
No plano de voo estava previsto que seguiriam depois até ao estreito de Calais e ao canal da Mancha, onde seriam recebidas pelos bandos da baía do Sena e de Saint-Malo, com os quais voariam juntas até chegarem aos céus da Biscaia.
Seriam então umas mil gaivotas que, como uma rápida nuvem cor de prata, iriam aumentando com a incorporação dos bandos de Belle-Île e de Oléron, dos cabos de Machicaco, do Ajo e de Peñas. Quando todas as gaivotas autorizadas pela lei do mar e dos ventos voassem sobre a Biscaia, poderia começar a grande convenção das gaivotas dos mares Báltico, do Norte e Atlântico.
Seria um belo encontro. Era nisso que Kengah pensava enquanto dava conta do seu terceiro arenque. Como todos os anos, iriam escutar-se interessantes histórias, especialmente as contadas pelas gaivotas do cabo de Pemãs, infatigáveis viajantes que voavam às vezes até às ilhas Canárias ou às de Cabo Verde.
As fêmeas como ela iriam entregar-se a grandes festins de sardinhas e lulas enquanto os machos instalariam os ninhos à beira de uma escarpa. Neles poriam os ovos, neles os chocariam a salvo de qualquer ameaça e, quando tivessem crescido às gaivotinhas as primeiras penas resistentes, chegaria a parte mais bela da viagem: ensinar-lhes a voar nos céus da Biscaia.
Kengah mergulhou a cabeça para agarrar o quarto arenque e por isso não ouviu o grasnido de alarme que estremeceu o ar:
— Perigo a estibordo! Descolagem de emergência!
    Quando Kengah tirou a cabeça da água viu-se sozinha na imensidade do oceano."
 
  História de uma gaivota e de um gato que a ensinou a voar /Luís Sepúlveda.Porto: Asa, 2005.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Minutos de leitura


"Era uma vez uma árvore...
que amava
um menino...

E todos os dias
     o menino vinha,
     juntava
as
     suas
folhas

e com elas
fazia coroas,
imaginando ser
o rei da floresta.

Subia o seu tronco,
balançava-se nos seus ramos,
comia as suas maçãs,
brincavam às escondidas

e quando ficava cansado
dormia à sua sombra.

O menino amava aquela árvore...
como ninguém.

E a árvore era feliz.

Mas o tempo passou."

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Minutos de leitura

No tempo em que ainda trepava às árvores - há muitos, muitos anos, há dezenas de anos atrás, media pouco mais de um metro, calçava o número vinte e oito e era tão leve que podia voar - não, não estou a mentir, naquele tempo eu podia de facto voar - ou, pelo menos, quase,ou melhor dizendo: naquela altura teria realmente conseguido voar, se de facto o tivesse querido fazer e se verdadeiramente o tivesse tentado, pois... pois lembro-me com exactidão de que uma vez não voei por um triz, era precisamente no Outono, no meu primeiro ano de escola, quando voltava das aulas para casa e soprava um vento bastante forte, eu conseguia apoiar-me nele sem cair, sem abrir os braços, e tão inclinado como um saltador de esqui, ou ainda mais inclinado... e então quando chocava contra o vento nos prados ao descer a colina da escola - porque a escola ficava numa pequena colina fora da aldeia - e conseguia elevar-me um pouco acima do chão e estendia os braços, o vento levantava-me e eu podia sem esforço dar saltos de dois, três metros de altura e  de dez, doze metros de comprimento - ou talvez não tão compridos nem tão altos, que importância tem isso! (...)
 
Com o trepar às árvores era mais ou menos a mesma coisa: subir não apresentava a menor dificuldade. Viam-se os ramos à nossa frente, experimentavam-se com as mãos, e podia avaliar-se da sua robustez antes de nos içarmos e de lhes pormos os pés em cima. Mas na descida não se via nada, e tinha de se tactear com o pé, mais ou menos às cegas, os ramos de baixo, antes de se poder encontrar um apoio firme, e muitas vezes o apoio não era suficientemente firme mas sim podre e viscoso, e ou se escorregava ou ele quebrava, e quando não nos agarrávamos bem a um ramo com ambas as mãos, caíamos ao chão como uma pedra, obedecendo às chamadas leis da gravidade, que o investigador italiano Galileu Galilei descobriu há quase quatrocentos anos, e que ainda hoje estão em vigor. (...)
 
Portanto, no tempo em que ainda trepava às árvores - e eu trepava muito e bem, nunca caía! Até conseguia trepar às árvores que ainda não tinham ramos em baixo  e às quais se tinha de subir pelo tronco nu, e conseguia também saltar de uma árvore para outra, e construía inúmeros refúgios no topo, uma vez até fiz uma autêntica casa com telhado e janelas e alcatifa, no meio da floresta, a dez metros de altura - ah, creio que passei a maior parte da minha infância em cima das árvores, comia e lia e escrevia e dormia em cima das árvores, lá aprendi o vocabulário inglês e os verbos irregulares latinos e fórmulas matemáticas e leis físicas, como, por exemplo, a mencionada lei da gravidade de Galileu Galilei, tudo em cima das árvores, fazia os meus trabalhos de casa orais e escritos em cima das árvores, e com prazer urinava do cimo das árvores, fazendo um arco ruidoso e alto através da ramaria.
 
A história do senhor Sommer / Patrick Süskind; il. Sempé. Lisboa: Sextante Editora, 2007.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Minutos de leitura

   
Até aos quatro anos de idade, o James Henry Trotter teve uma vida feliz. Vivia placidamente com os pais numa bela casa à beira-mar. Tinha sempre muitos meninos com quem brincar, havia uma praia por onde podia correr e o mar onde chapinhar. Era a vida perfeita para um menino.
     Então, um dia, os pais do James foram fazer compras a Londres e aconteceu uma coisa terrível. Os dois foram, subitamente, devorados - em plena luz do dia, imagina, numa rua cheia de movimento - por um enorme e furioso rinoceronte, que tinha fugido do jardim zoológico da cidade.
    Isto, como podes imaginar, foi uma experiência bastante desagradável para uns pais tão carinhosos. Mas, a longo prazo, foi muito pior para o James. Os problemas deles acabaram num ápice. Morreram e desapareceram em exatamente trinta e cinco segundos. O pobre James, por sua vez, continuava vivinho da silva e, de repente, viu-se sozinho e cheio de medo num mundo enorme e hostil. A casa bonita ao pé do mar teve de ser vendida imediatamente e o rapazinho, levando consigo apenas uma pequena mala com dois pijamas e uma escova de dentes, foi despachado para casa das duas tias.
     Os eus nomes eram tia Sponge e tia Spiker e, lamento dizê-lo, eram duas pessoas mesmo horríveis. Eram egoístas, preguiçosas e cruéis e, desde o início, começaram a bater no pobre James por dá aquela palha. Nunca o tratavam pelo nome verdadeiro (...)
     Viviam - a tia Sponge, a tia Spilker e, agora, também o James - numa casa estranha e meio desconjuntada no cimo de uma grande colina, no sul de Inglaterra. A colina era tão alta que, quando o James olhava para baixo era quase tudo jardim, via quilómetros e quilómetros de uma paisagem deslumbrante de campos e bosques; e, nos dias claros, se virasse os olhos para a direção certa, avistava ao longe, no horizonte, um pontinho cinzento que era a casa onde tinha vivido com os seus queridos pais. E logo a seguir, conseguia ver o mar, uma faixa longa e estreita azul-escura a lembrar um risco a tinta por baixo da linha do céu. (...)
    O jardim, que ocupava todo o cimo da colina, era grande e desolado e, tirando um amontoado de loureiros velhos e poeirentos no canto mais afastado, a única árvore que tinha era um pessegueiro centenário que nunca dera frutos. Não tinha um baloiço, nem um arre-burrinho, nem uma caixa de areia, e as outras crianças nunca eram convidadas a subir a colina para brincar com o pobre James. Não havia sequer um cão ou um gato nas redondezas que lhe fizesse companhia. Assim, com o passar do tempo, ele foi ficando cada vez mais triste e cada vez mais sozinho, e todos os dias passava horas a fio ao fundo do jardim a olhar com saudade para o mundo maravilhoso mas proibido dos bosques, dos campos e do mar, que se estendia à sua frente como um tapete mágico.
 
James e o Pêssego Gigante / Roald Dahl; il. Quentin Blake. Alfragide: Oficina do Livro, 2018.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Minutos de leitura

 

Certo dia, apareceu na horta do Tio Manuel Liró um grilo espantoso. Era verde, tão verde como as alfaces repolhudas que cresciam num pequeno canteiro ao cimo da horta. E em dias de sol e noites estreladas, punha-se a assobiar modinhas.

Os grilos que viviam por perto, como não eram verdes nem sabiam assobiar, acharam aquele vizinho esquisito, muito invulgar. Foram contar aos colegas que moravam por aquelas redondezas.

— VERDE?!

 — E ASSOBIA?!... PODE LÁ SER!

A notícia espalhou-se, andou de toca em toca, voou de lura em lura. Todos os grilos ficaram a saber das afrontas do parceiro que morava na horta do Tio Manuel Liró. Sim, afrontas! Ser-se verde e assobiador não eram coisas de grilo que se fizessem... Resolveram fazer-lhe uma visita para o convencer a mudar de farda e de música.

Numa tarde de domingo deixaram as luras que tinham nos quintais, campos, bouças e matas. Entraram na horta do Tio Manuel Liró e perguntaram ao companheiro:

— Porque não tens uma cor igual à nossa? Porque não cricrilas? Então o Grilo Verde respondeu-lhes:

— Se nasci verde, não posso ser preto. E se assobio é porque não sei fazer outra coisa. E vós — perguntou — porque não sois verdes e não sabeis assobiar como eu?

— Porque sempre fomos pretos e só sabemos cricrilar.

 — Então — concluiu o Grilo Verde — estamos empatados: se eu sou verde — vós sois pretos; se assobio — vós cricrilais. Para quê tanta preocupação?

 — Alto lá! — reagiram os grilos pretos — Esqueces-te que és o primeiro colega a fazer tamanhos disparates!

— E não será disparate ter cor preta e cricrilar?

 — Não venhas com bazófia. Por acaso já pensaste na confusão que vais criar?

 — Confusão!? — espantou-se o Grilo Verde — Eu?!...

 — Já pensaste que, se por acaso os homens te vêem, vão logo dizer aos seus amigos que há grilos que não são pretos e grilos que assobiam. Já pensaste nisso? E por tua causa todos os grilos do Mundo ficam desacreditados!

— Não vejo mal nisso. Mas dizei-me — pediu o Grilo Verde

E o Grilo Verde? Esse, empoleirou-se numa couve, e dando um suspiro de alívio, escondeu-se entre as suas folhas verdes, tenras e largas, deixando-se estar quieto, caladinho.

E o Tio Manuel Liró continuou a cavar o talho, mexendo-o de ponta a ponta. Grilos não viu. E voltou a cavar, cada vez mais furioso. Cavou, cavou, estrangalhou, revirou a terra e voltou a revirar... Mas como podiam aparecer grilos se já tinham dado à pata?!

Transpirado, corado, aborrecido, enervado, fatigado, o Tio Manuel Liró pensou: «Foram-se os grilos e foi-se o feijoal».

Exausto, voltou para a sombra da oliveira. Pegou no jornal, leu novamente as palavras de letras gordas, virou a folha, suspirou três vezes, esqueceu o incidente, fechou os olhos e adormeceu.

 António Mota, O Grilo Verde. Porto: Ambar: 1999.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Minutos de leitura - O velho e o mar

 

Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamente e declaradamente salao, o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com o esquife vazio e sempre descia a ajudá-li a trazer as linhas arrumadas ou o croque e o arpão e a vela enrolada no mastro. A vela estava remendada com quatro velhos sacos de farinha e, assim ferrada, parecia o estudante da perpétua derrota. O velho era magro e seco, com profundas rugas na parte de trás do pescoço. As manchas castanhas que o Sol provocava ao reflectir-se no mar iam pelos lados da cara abaixo, e as mãos dele tinham as cicatrizes profundamente sulcadas que o manejo das linhas com peixe graúdo dá. Mas nenhuma destas cicatrizes era recente. Eram antigas como erosões num deserto sem peixes.

O velho e o mar / Ernest Hemingway. Lisboa: Livros do Brasil, 2006. Imagem: Copyright - Cardume Brasil