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terça-feira, 8 de março de 2022

Leitoras...

No dia internacional da mulher falar no feminino de esperanças e direitos é falar também de livros e, em particular, de leitoras. 
Todos vivemos e construímos um imaginário feito de esperanças, desejos, possibilidades. Naquilo que cada um formaliza, que cada um vive e sonha, cria e aspira desenha-se uma Biblioteca Imaginária, que somos nós. A História da Biblioteca Imaginária formaliza-se nos leitores, nas suas construções intimistas, mas também nos escritores, nesses desejos de reerguer possibilidades, como visíveis linhas de um real. Na História da Leitura os rostos foram sempre mais os femininos. Neles se construíram na intimidade possibilidades de novos quadros sociais e culturais. Falemos um pouco dessa viagem das leitoras.

Ossip Mandelstam foi um dos poetas russos que sucumbiu ao regime dos camaradas, aí, onde toda a palavra era um argumento de traição, embora eles próprios não soubessem nunca muito a quê. Os seus breves poemas foram queimados, mas Nadeshda, sua mulher registou-os todos mentalmente e voltou a escrevê-los e preservou-os. Ela que escreveria “Hope against Hope” na denúncia do regime comunista de Estaline fez aquilo que mais importa a um leitor, registar na memória as palavras impedidas de nascer ao sol, à respiração das coisas.

O feito de Nadeshda Mandelstam foi o de ser uma leitora, uma criadora de uma Biblioteca Imaginária. Os leitores, mas sobretudo as leitoras têm desempenhado essa missão generosa de guardar tesouros, de os partilhar com os outros. Às vezes algo interrompe essa generosidade por uma outra. Chamam-lhe amor, mas sendo ele tanto de sedução e fragilidade, há quem considere que o amor na literatura é mais perene, talvez mais feliz. Às vezes o amor suspende as lutas políticas, ultrapassa-as. O Doutor Jivago mostra-nos isso, também de um escritor russo a compor um fresco sobre a transformação política e o modo como as pessoas se envolvem, se definem entre si. 

Outro escritor russo, Boris A. Lavrenev escreveu “O Quadragésimo Primeiro”, narrativa entre dois opositores na grande estepe russa, um homem e uma mulher em campos opostos da disputa política. O amor quase supera essa diferença. Ela acaba por matá-lo, pois a consciência de classe é uma mortalha para espíritos burocráticos. Elke Heidenreich quando nos contou este episódio diz-nos algo sobre essa diferença entre leitores e leitoras. Antes do fim, um pequeno livro de poemas que ela escreveu serve de mortalha para os desejos que ele tem em fumar. Ela perde os seus poemas, todas as palavras desfeitas em fumo e cinzas. O inverso sucederia? Dar-lhe ia ele os seus poemas para as suas mortalhas? Talvez não. Ele talvez exigisse os seus poemas perto do coração.

A história permite-nos concluir que sendo as mulheres leitoras de uma frequência maior que os homens estarão numa postura de maior dádiva e disso deriva um temor masculino. O de que mulheres leitoras são uma forma de ser que é temido, por tudo aquilo que a leitura concede. A História cultural e social dos últimos séculos rapidamente nos assegura que foram elas a desbravar páginas para construir na intimidade outras formas de conhecer e de ser. Os exemplos na arte e em especial na pintura são muito evidentes.

Vittorio Matteo Corcos pintou um quadro que denuncia esta ideia de que as palavras pelo feminino desencadearam uma chama capaz de outras possibilidades, de um outro real. A imagem não nos revela uma leitora a ler, mas sim, observamos a construção mental das ideias, as palavras lidas a construir desejos e sonhos. Os livros que a acompanham são vários e isso transmite a ideia de uma procura larga pelo conhecimento, por uma luz capaz de desbravar quotidianos num outro sentido. Há na sua expressão um desafio de quem compreendeu que do seu hábito de leitura nasceu um desafio, uma determinação, a capacidade de romper com uma atitude, quase um nascimento.

Imagem: Vittorio Matteo Corcos, Sonhos, 1896, Galeria Nacional de Arte Moderna, Madrid
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

leituras de dezembro


Título: A noite de Natal
Autor: Sophia de Mello Breyner Andresen
Edição: 2.ª
Páginas: 29, [2]
Editor:  Edições Ática


Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até que chegou o Natal. 
E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os seus sapatos de verniz preto e muito bem penteada às sete e meia saiu do quarto e desceu a escada.
Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande; eram as pessoas crescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que tinham fechado a porta para ela não entrar. Por isso foi à casa de jantar ver se já lá estavam os copos.

(…)

Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam, tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário. As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal. Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Era uma festa. Era o Natal.

Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de Natal as estrelas são diferentes.

Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio, mas o próprio frio brilhava. As folhas das tílias, das bétulas e das cerejeiras tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como rendas pretas. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos. 
E muito alto, por cima das árvores, era a escuridão enorme e redonda do céu. E nessa escuridão as estrelas cintilavam, mais claras do que tudo. Cá em baixo era uma festa e por isso havia muitas coisas brilhantes: velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal. Mas no céu havia uma festa maior, com milhões e milhões de estrelas.
Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada. Não pensava em nada. Olhava a imensa felicidade da noite no alto céu escuro e luminoso, sem nenhuma sombra. 
Depois voltou para casa e fechou a porta. — Ainda falta muito tempo para o jantar? — perguntou ela a uma criada que ia a atravessar o corredor.

— Ainda falta um bocadinho, menina — disse a criada. Então Joana foi à cozinha ver a cozinheira

Gertrudes, que era uma pessoa extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar, e mandava em tudo, e sabia tudo. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia. 
A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os dois perus do Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos perus, muito esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada. 
— Gertrudes, ouve uma coisa — disse Joana.
A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os perus. 
— O que é? — perguntou ela. 
— Que presentes é que achas que eu vou ter? 
— Não sei — disse Gertrudes — não posso adivinhar. 
Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e por isso continuou a fazer perguntas.
— E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes? 
— Qual amigo? — disse a cozinheira. 
— O Manuel. 
— O Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns. 
— Não vai ter presentes nenhuns!? 
— Não — disse a Gertrudes abanando a cabeça. 
— Mas porquê, Gertrudes? 
— Porque é pobre. Os pobres não têm presentes. 
— Isso não pode ser, Gertrudes. 
— Mas é assim mesmo — disse a Gertrudes fechando a tampa do forno. 
Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido que era «assim mesmo».

Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. Todas as manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com a mulher da fruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze da noite. E sabia tudo o que se passava na vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de toda a gente. E sabia todas as notícias, e todas as histórias das pessoas. E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e os homens.

Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mentira. Joana ficou calada a cismar no meio da cozinha.

De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse: 
— Já chegaram os primos.
Então Joana foi ter com os primos. 
Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa.

Tinha começado a festa do Natal.


Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas. E as pessoas riam e diziam umas às outras: «Bom Natal». Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E vendo tudo isto Joana pensava:

— Com certeza que a Gertrudes se enganou. O Natal é uma festa para toda a gente. 
Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com certeza que ele também tem presentes. 
E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes.

O jantar do Natal era igual ao de todos os anos.

Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananases. 
No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala. As luzes eléctricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do pinheiro.

(…)

E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.

Joana olhava, olhava, olhava. 
Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel.

(…)

E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a Gertrudes. 
— Bom Natal, Gertrudes — disse Joana. 
— Bom Natal — respondeu a Gertrudes. Joana calou-se um momento. Depois perguntou: — Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade? 
— O que é que eu disse? 
— Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque os pobres não têm presentes. 
— Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve presentes, nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os pobres são os pobres. Têm a pobreza. 
— Mas então o Natal dele como foi? 
— Foi como nos outros dias. 
— E como é nos outros dias? 
— Uma sopa e um bocado de pão. 
— Gertrudes, isso é verdade? 
— Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite. 
— Boa noite — disse Joana. E saiu da cozinha. 

Subiu a escada e foi para o seu quarto. Os seus presentes de Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E pensava: 
— Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. São tal e qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o que queria. Mas ao Manuel ninguém deu nada. 
E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, Joana pôs-se a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de animais.
«Que frio lá deve estar!», pensava ela. «Que escuro lá deve estar!», pensava ela.

«Que triste lá deve estar!», pensava.

E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde Manuel dormia em cima das palhas, aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um burro.

— Amanhã vou-lhe dar os meus presentes — disse ela. Depois suspirou e pensou:  
«Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal.»

Foi à janela, abriu as portadas e através dos vidros espreitou a rua. Ninguém passava. O Manuel estava a dormir. Só viria na manhã seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra escura: era o pinhal.

Então ouviu, vindas da Torre da Igreja, fortes e claras, as doze pancadas da meia-noite.

«Hoje», pensou Joana, «tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal.»

Foi ao armário tirou um casaco e vestiu-o. Depois pegou na bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a boneca, mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas.

Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por um. Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as panelas e não a ouviu.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

leituras de dezembro

Título: A estrela
Autor: Vergílio Ferreira
Edição: 1ª
Páginas:34
Editor: Quetzal
ISBN:  978-972-564-833-9

"Um dia, à meia-noite, ele viu-a. Era a estrela mais gira do céu, muito viva, e a essa hora passava mesmo por cima da torre. Como é que a não tinham roubado? Ele próprio, Pedro, que era um miúdo, se a quisesse empalmar, era só deitar-lhe a mão. Na realidade, não sabia bem para quê. Era bonita, no céu preto, gostava de a ter. Talvez depois a pusesse no quarto, talvez a trouxesse ao peito. E daí, se calhar, talvez a viesse a dar à mãe para enfeitar oi cabelo. Devia-lhe ficar bem, no cabelo.

 De modo que, nessa noite, não aguentou. Meteu-se na cama como todos os dias, a mãe levou a luz, mas ele não dormiu. Foi difícil, porque o sono tinha muita força. Teve mesmo de se sentar na cama, sacudir a cabeça muitas vezes a dizer-lhe que não. E quando calculou que o pai e a mãe já dormiam, abriu a janela devagar e saltou para  a rua. A janela era baixa. Mas mesmo que não fosse. Com sete anos, ele estava treinado a subir às oliveiras quando era o tempo dos ninhos, para ver os ovos ou aqueles bichos pelados, bem feios, com o bico enorme, muito aberto. 

E se não era o tempo dos ninhos, andava à solta pela serra, saltava os barrancos, jogava mesmo, quando preciso, à porrada com o um homem. Assim que se viu na rua, desatou a correr pela aldeia fora até à torre, porque o medo vinha a correr também atrás dele. Mas como ia descalço, ele corria mais. A igreja ficava no cimo da aldeia e a aldeia ficava no cimo de um monte. De modo que era tudo a subir. Mas conseguiu - e agora estava ali. Olhou a estrela para ganhar coragem,  ela brilhava, muito quieta, como se estivesse à sua espera. 

E de repente lembrou-se: se a porta estivesse fechada? Levantou-se logo, foi ver. A torre era muito alta e tinha uma porta para a rua. Pedro empurrou-a um pouco e viu que estava aberta. Ficou muito admirado, mas depois nem por isso. Ninguém ia roubar os sinos que mesmo eram muito pesados. E quanto ás estrelas, se calhar ninguém se lembrava de que era fácil empalmá-las. E tão contente ficou de aporta estar aberta, que só depois se lembrou de a ter ouvido ranger. E então assustou-se. Voltou a experimentar e rangeu outra vez. Rangia pouco, mas o silêncio era muito e parecia por isso que também a porta rangia muito. E teve medo. Reparou mesmo que estava a suar e não devia ser da corrida, porque este suor era frio. 

A porta ficara já deslocada e agora era  só encolher-se um pouco e passar. Mas sem tocar na porta, para não ranger. Meteu-se de lado e entrou. Havia um grande escuro lá dentro. Já calculava isso, mas as coisas são muito diferentes de quando só se calculam. E cheirava lá a ratos, a cera, às coisas velhas que apodrecem na sombra. Como estava escuro, pôs-se a andar às apalpadelas. Mas as pedras frias assustaram-no. Lembravam-lhe mortos ou coisas assim. (…) Mas, à medida que ia subindo, vinha lá de cima um fresco que aclarava o cheiro. À última volta da escada em caracol, olhou ao alto o céu negro, muito liso. Via algumas estrelas, mas era tudo estrelas velhas e fora de mão. Até que chegou ao campanário e respirou fundo. Aproveitou mesmo para puxar as calças que estavam a cair.  Eram dois sinos e uma sineta. (…) E assim que se pôs em terra, largou para casa, mas não muito depressa. Apetecia-lhe mesmo parar de vez em quando e olhar a estrela com uma atenção especial. Era formidável. 

Lembrava um pirilampo, mas muito maior. Oh, muito maior. E de outro feitio, já se vê. A certa altura, voltou-se para trás e olhou ao alto o sítio donde a despegara, como se para ver se realmente já lá não estava. E não. O que lá estava agora era um buraco escuro, por sinal bem feito. Lembrava-lhe a boca dele quando lhe caiu um dente, mas não sabia bem porquê. Quando por fim chegou a casa, trepou á janela que deixara aberta e meteu-se na cama. Estava ainda algum tempo com a estrela na mão, mas não muito, porque já não podia mais, arrombado de sono. De modo que guardou a estrela numa caixa e adormeceu. 

No dia seguinte acordou tarde. A mãe estranhou aquele sono demorado, mas não muito, porque quem passava os dias no retoiço era natural que uma vez por outra pegasse no sono com vontade. Como tinha o berro forte, capaz de ir de monte a monte, a mão ouviu logo. Veio então a correr muito aflita, sem fazer ideia do que fosse, e perguntou-lhe o que tinha. E ele, que estava fora de si, ou mesmo ainda com sono, disse assim:
- Roubaram-ma! Roubaram-ma!

E a mãe, naturalmente, perguntou o que é que lhe tinham roubado. Mas ele aqui calou-se. A mãe cuidou que seriam restos de sonho e não ligou. (…) Mas não tinha sido um sonho, não. O que aconteceu foi que, logo de manhã, assim que acordou, abriu a caixa para ver a estrela e a estrela não estava lá. Ou por outra, estava lá, mas não era a mesma, era assim como uma estrela de lata. E então pensou que lha tinham trocado para pensar qualquer coisa, porque aquilo, realmente, não era coisa que se pensasse. É claro que brilhava um pouco. Mas toda a estrela de lata brilha. O que é, só de dia, quando lhe bate o sol. E mesmo assim, não muito.  Que afinal, com sol todas as coisas brilham com o brilho que é do Sol e não dessas coisas. E a estrela brilhava com  um brilho só dela. Mas nada disse à mãe do que se passara (…)"

Vergílio Ferreira, A Estrela. Quetzal. 2010.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

A Noite de Natal (II)

A Festa 

Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até que chegou o Natal.
E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os seus sapatos de verniz preto e muito bem penteada às sete e meia saiu do quarto e desceu a escada.
Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande; eram as pessoas crescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que tinham fechado a porta para ela não entrar. Por isso foi à casa de jantar ver se já lá estavam os copos.
(…)
Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam, tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário. As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal. Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Era uma festa. Era o Natal.
Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de Natal as estrelas são diferentes.
Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio, mas o próprio frio brilhava. As folhas das tílias, das bétulas e das cerejeiras tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como rendas pretas. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos.
E muito alto, por cima das árvores, era a escuridão enorme e redonda do céu. E nessa escuridão as estrelas cintilavam, mais claras do que tudo. Cá em baixo era uma festa e por isso havia muitas coisas brilhantes: velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal. Mas no céu havia uma festa maior, com milhões e milhões de estrelas.
Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada. Não pensava em nada. Olhava a imensa felicidade da noite no alto céu escuro e luminoso, sem nenhuma sombra.
Depois voltou para casa e fechou a porta. — Ainda falta muito tempo para o jantar? — perguntou ela a uma criada que ia a atravessar o corredor.
— Ainda falta um bocadinho, menina — disse a criada. Então Joana foi à cozinha ver a cozinheira
Gertrudes, que era uma pessoa extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar, e mandava em tudo, e sabia tudo. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia.
A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os dois perus do Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos perus, muito esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada.
— Gertrudes, ouve uma coisa — disse Joana.
A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os perus.
— O que é? — perguntou ela.
— Que presentes é que achas que eu vou ter?
— Não sei — disse Gertrudes — não posso adivinhar.
Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e por isso continuou a fazer perguntas.
— E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes?
— Qual amigo? — disse a cozinheira.
— O Manuel.
— O Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns.
— Não vai ter presentes nenhuns!?
— Não — disse a Gertrudes abanando a cabeça.
— Mas porquê, Gertrudes?
— Porque é pobre. Os pobres não têm presentes.
— Isso não pode ser, Gertrudes.
— Mas é assim mesmo — disse a Gertrudes fechando a tampa do forno.
Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido que era «assim mesmo».
Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. Todas as manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com a mulher da fruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze da noite. E sabia tudo o que se passava na vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de toda a gente. E sabia todas as notícias, e todas as histórias das pessoas. E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e os homens.
Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mentira. Joana ficou calada a cismar no meio da cozinha.
De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse:
— Já chegaram os primos.
Então Joana foi ter com os primos.
Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa.
Tinha começado a festa do Natal.
Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas. E as pessoas riam e diziam umas às outras: «Bom Natal». Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E vendo tudo isto Joana pensava:
— Com certeza que a Gertrudes se enganou. O Natal é uma festa para toda a gente.
Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com certeza que ele também tem presentes.
E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes.
O jantar do Natal era igual ao de todos os anos.
Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananases.
No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala.
As luzes elétricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do pinheiro.
(…)
E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.
Joana olhava, olhava, olhava.
Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel.
(…)
E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a Gertrudes.
— Bom Natal, Gertrudes — disse Joana.
— Bom Natal — respondeu a Gertrudes. Joana calou-se um momento. Depois perguntou:
— Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade?
— O que é que eu disse?
— Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque os pobres não têm presentes.
— Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve presentes, nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os pobres são os pobres. Têm a pobreza.
— Mas então o Natal dele como foi?
— Foi como nos outros dias.
— E como é nos outros dias?
— Uma sopa e um bocado de pão.
— Gertrudes, isso é verdade?
— Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite.
— Boa noite — disse Joana. E saiu da cozinha.
Subiu a escada e foi para o seu quarto. Os seus presentes de Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E pensava:
— Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. São tal e qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o que queria. Mas ao Manuel ninguém deu nada.
E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, Joana pôs-se a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de animais.
«Que frio lá deve estar!», pensava ela.
«Que escuro lá deve estar!», pensava ela.
«Que triste lá deve estar!», pensava.
E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde Manuel dormia em cima das palhas, aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um burro.
— Amanhã vou-lhe dar os meus presentes — disse ela. Depois suspirou e pensou:
«Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal.»
Foi à janela, abriu as portadas e através dos vidros espreitou a rua. Ninguém passava. O Manuel estava a dormir. Só viria na manhã seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra escura: era o pinhal.
Então ouviu, vindas da Torre da Igreja, fortes e claras, as doze pancadas da meia-noite.
«Hoje», pensou Joana, «tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal.»
Foi ao armário tirou um casaco e vestiu-o. Depois pegou na bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a boneca, mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas.
Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por um. Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as panelas e não a ouviu.
(…)

A noite de Natal / Sophia de Mello Breyner Andresen. Ilustrações de Maria Keil.


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Do livro e da leitura (III)

 O livro e a leitura - celebrar os momentos íntimos da leitura!

"Um dia, eu disse: vamos brincar à beleza das coisas que se pensam, como as que se lêem. Porque as coisas que se lêem precisam de ser pensadas. 
E ela perguntou: as que existem ou as que não existem? E eu disse: todas. As coisas todas que pudermos imaginar.
Então, ela propôs: pássaros com trombas de elefante a voar sobre cabeças de mulheres com raízes de árvores."

"O rapaz que habitava os livros", in Contos de cães e maus lobos / Valter Hugo Mãe. Porto: Porto Editora, 2015, págs. 95-97.
Imagem - Copyright: Reading Lamp, Elin K. Danielson-Gambog.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Do livro e da leitura (II)

O livro e a leitura - celebrar os momentos íntimos da leitura

Nem sempre o percebemos, mas oferecer uma leitura é engrandecer o espírito. Oferecer uma história é um gesto de altruísmo, uma mão a construir um caminho. A leitura é a essência do livro. Há assim uma dádiva na oferta de uma história, a abertura a um tempo privado, o incentivo a uma conversação. As imagens que a leitura transporta em cada um oferece a cada leitor uma reflexão, um tempo individual. O livro é um passaporte para um isolamento do mundo, para uma imobilidade, para o silêncio. O livro e a leitura é assim um imenso privilégio. Ela representa o contra-movimento à cidade, ao grupo, ao barulho. E, ainda que alguns achem que não, a Biblioteca como espaço de livro e leitura pode ser um espaço espiritual e tornar-se o elemento de uma combustão interior, a história pessoal de cada um que assim se transforma.

Bessie MacNicol (1869-1907) - Elizabeth reading, 1897

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Do livro e da leitura (I)

Falaremos semanalmente desta ideia que se nos afigura essencial, os livros e a leitura. O que significa ler, o que nos dá a leitura, como a relacionamos com ela? Que valor tem para a formação pessoal e cultural de cada um? Como a leitura se relaciona com a arte e como a exprimiu e o que dizem dela autores e escritores?

Os livros chegam-nos como um ponto de partida para algo a descobrir, a compreender, a pensar, a fazer, a realizar. Os livros entregam-se a nós como pontos de chegada e desse encontro dual, múltiplo permitem que nós estabeleçamos uma viagem, que nós saibamos compreender outras possibilidades, que nós consigamos articular pontos de partida. Os livros são a construção de uma leitura e têm por isso um verbo inicial essencial, ler.

Ler é uma forma múltipla de perguntar, de encontrar algumas ideias possíveis e é como outros verbos essenciais para esta aventura chamada vida. Esta é no fundo a "prática (pro)activa de verbos corajosos" (1). Verbos esses de procura, de encontro, de perigo e de conquista, como abraçar, compreender, viver, amar, questionar. Verbos para a construção de uma linguagem, para a utilização dos nomes e fazê-los exercitar como um amor infindável no interior da leitura.

Primo Lévi disse desse encontro com o indescritível, "por um momento esqueci-me de quem sou e onde estou" e neles pareceu-lhe compreender melhor esse espaço da Divina Comédia, essa que retrata um período e que se alongou para outros formatos contemporâneos. Ler é assim prolongar o momento, é fazer adiar instantes e pode na verdade salvar uma vida humana, muitas vidas humanas, porque torna o periférico relativo e alarga o próprio mundo. 

Poderíamos dizer que "ler é um trampolim de sonhos, uma marcha ruidosa contra o tédio, a pequenez de perspectivas, a falta de imaginação e de argumentos, a rotina e os excessos de realidade." (1) Ou ainda que a leitura interefere na ideia de aceitar o real de um modo cómodo, não reflexivo e que produz um choque capaz de incentivar a curiosidade, o espanto, o deslumbramento, numa palavra, a imaginação.

A leitura é assim uma actividade de construção, mas também de inquietação, de assombro, na expressão de Pessoa, de desassossego, pois remete para dúvidas, questionamentos, alimenta feridas e conduz esse processo de duvidar do inaceitável, do incompreensível, do não digno. Como sugeriu Elke Heidenreich, "quem lê reflecte, e quem reflecte forma uma opinião e quem forma opinião pode dissidir" (2), e esta é a forma mais próxima para a rebelião das pessoas e das ideias. 

A leitura e a sua disciplina, a Literatura são assim caminho para um conhecimento, entre instantes, minutos de paz e momentos de desassossego. Ferramenta e objecto de contínuas formas de sedução ela pode transformar a vida, os minutos de cada um, numa atitude de contágio pelas ideias. Atitude formulada na paisagem de uma frase, na atmosfera de um parágrafo e que conduz a uma forma de vida, que é a de ter uma contínua luz acesa no horizonte.

(1) - Do editorial, Somos Libros 3, Bertrand Livreiros, Dezembro de 2018.
(2) - Mulheres que lêem são perigosas Stefan Bollman . Lisboa: Quetzal, 2007.