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quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Memória de José Saramago


Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados por pessoas que neles houvessem estado presentes, se é que não falariam, também elas, por terem ouvido contar a outras pessoas. Não é esse o caso daquela escolinha particular, num quarto ou quinto andar da Rua Morais Soares, onde, antes de termos ido viver para a Rua dos Cavaleiros, eu comecei a aprender as primeiras letras. Sentado numa cadeirinha baixa, desenhava-as lenta e aplicadamente na pedra, que era o nome que então se dava à ardósia, palavra demasiado pretensiosa para sair com naturalidade da boca de uma criança e que talvez nem sequer conhecesse ainda. É uma recordação própria, pessoal, nítida como um quadro, a que não falta a sacola em que acomodava as minhas coisas, de serapilheira castanha, com um barbante para levar a tiracolo. Escrevia-se na ardósia com um lápis de lousa que se vendia em duas qualidades nas papelarias, uma, a mais barata, dura como a pedra em que se escrevia, ao passo que a outra, mais cara, era branda, macia, e chamávamos-lhe «de leite» por causa da sua cor, um cinzento-claro, tirando a leitoso, precisamente. Só depois de ter entrado no ensino oficial, e não foi nos primeiros meses, é que os meus dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas.”

 (Recordar as palavras de Saramago, na sua memória de infância, hoje no centenário do seu nascimento).

quarta-feira, 9 de março de 2022

Leitura e expressão plástica

 

Era uma vez um menino que andava a brincar numa floresta que ficava perto da sua casa. O menino começou a explorar a floresta e encontrou uma flor murcha. O menino procurou água para que ela não morresse. Ao sobreviver o que podia a flor fazer por aquele menino cansado? Como se pode imaginar essa flor, a que José Saramago chamou a maior flor do mundo. Como a imaginar? Os alunos do 4.º FK criaram um painel decorrente de uma atividade de leitura sobre a conhecida obra de José Saramago, A maior flor do mundo. O painel ficou montado na Biblioteca do Centro escolar de Forjães.

quinta-feira, 3 de março de 2022

O livro do mês

 "Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de 
              repente não sei se as águas nascem de mim, ou para mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o 
              próprio corpo do rio." (José Saramago)

Inês Fonseca Santos escreveu um livro sobre o autor de Memorial de Convento, especialmente pensado para os mais novos. "Homem-Rio" é assim uma biografia sobre José Saramago que pretende dar a conhecer a geografia do autor, naquilo que foram os fundamentos da sua vida em criança / adolescente e de como essa memória forjou os sinais da escrita que anos mais tarde haveriam de nascer.

Pegando nos significados associados a um rio, como nascente, margens, fluir, a autora fez uma associação com a escrita e sobretudo com a vida de José Saramago. O rio com os seus abraços sobre as margens inspirou a autora a desenhar esses diversos lados que foi a escrita de José Saramago e o contexto da sua própria vida. Se um rio pode ter muitos afluentes, um escritor pode ter muitas margens, todas aquelas que ele inventa e vive.

Assim, dos muitos Saramagos que existiram no corpo de escritor, a autora foi buscar o mais pequeno, "o miúdo Zé", o seu lugar e as suas características humanas e sociais. Assim, entre o vivido e o imaginado foi acrescentada a memória, como forma de recuperar uma experiência e um tempo. Habitando a cidade, essa memória foi a substância que formou em casa dos avós, nas planas águas do Ribatejo. 

"Homem-rio" apresenta-se como uma bonita ilustração a lembrar-nos uma novela gráfica e os seus desenhos juntam a memória de uma experiência com o futurismo das descobertas, com a distância a que muitas vezes deixamos os outros. As palavras em vez de naves espaciais, a linguagem em vez das coisas vistas e não compreendidas, não observadas. A palavra, como forma de exprimir uma ideia, uma vontade, um desenho, uma aspiração a lago mais sublime. 

Dessa palavra estão registadas formas de olhar as coisas, como uma casa onde se habita. A casa que como o rio corre livre e pode ser o lugar onde nos identificamos e que nos acolhe. A casa como expressão da liberdade, essa onde nasceram muitos outros escritores e que aguardam pela nossa voz, no  interior das suas palavras. Existem sonhos que apenas esperam tempo para nascerem, esses que juntam o real, o imaginado e a memória sempre à disposição do que formos capazes de criar.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Leituras...

  De um significado de um texto que elementos se podem escolher? De toda a narrativa o que fica mais visível? O que escolher de modo a ilustrar algo essencial, de um menino, da floresta a percorrer e de uma flor? O que será essa flor? E o menino o que sentirá por essa flor salva? Algumas ideias visuais...

 

 

                        (Ilustrações de Margarida, Letícia, Maria Luísa, Filipa e Clara) – 3.º / 4.º FJ


 

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Leituras...

 O que as imagens nos dizem? Como construímos uma narrativa com alguns sinais visuais? Como os relacionamos? 
Um menino, uma flor e uma floresta, o que podem dizer....

 


Era uma vez um menino que vivia com a mãe e o pai.
 
E um dia saiu de casa e subiu uma montanha que fica perto da sua casa. Depois de subir aventurou-se entre as árvores.
E quando viu que não tinha nada mais para ver correu pela floresta até que encontrou uma flor.
Ela estava murcha.
Foi buscar água a casa e a flor conseguiu crescer.

 
 
Era uma vez um menino que tinha ido passear pela floresta. 
O menino adorava a natureza e por isso queria saber se conseguia viver nela. 
Quando lá chegou, encontrou uma flor murcha, quase a morrer. O menino apressou-se a salvá-la e foi buscar água, mas não encontrou um rio, voltou a procurar e encontrou um rio.
Apressou-se a salvá-la e assim conseguiu. E assim a flor ficou bem. 
 
 
3.º / 4.º FJ
 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Leituras...

 De um significado de um texto que elementos se podem escolher? De toda a narrativa o que fica mais visível? O que escolher de modo a ilustrar algo essencial, de um menino, da floresta a percorrer e de uma flor? O que será essa flor? E o menino o que sentirá por essa flor salva? Algumas ideias visuais...

O menino 


(Ilustrações de Vasco, Duarte Martins, João Leite e Carolina)

Leituras...


O que as imagens nos dizem? Como construímos uma narrativa com alguns sinais visuais
? Como os relacionamos? 
Um menino, uma flor e uma floresta, o que podem dizer....
 
Era uma vez um menino que era encantado pela natureza. Um dia estava a passear e encontrou uma montanha. Decidiu subi-la! Ele, encontrou atrás da montanha uma floresta encantada. Passado algum tempo, chegou a um lugar distante e encontrou uma flor. Ela estava murcha. Como a flor estava a morrer decidiu ir buscar água. Já era noite. Então teve a ideia de dormir na floresta. Não sentiu frio. Uma pétala caiu sobre o seu corpo. Os seus familiares ficaram preocupados. E enquanto isso, o menino dormia tapado com uma pétala duma flor maravilhosa.
 
Maria Morgado, 4.º FK
 
Era um vez um menino que gostava muito de caminhar na natureza. Saiu de casa e decidiu explorar um montanha. Após algum tempo tentou ir para casa, mas teve dificuldades em regressar. Conseguiu encontrar um sítio especial.
Nessa tarde, viajou muito tempo e encontrou uma floresta e nela uma planta quase morta. Decidiu ir buscar água para ajudar a planta. Longe dele, os familiares ficaram preocupados.
Decidiu ir procurar água e encheu para uma garrafa vazia a que estava numa poça. Não aconteceu nada do que ele pensava.
A flor cresceu e até ficou mais alta do que ele. acabou por adormecer e uma pétala aqueceu-o. Os pais acabaram por encontrá-lo. E todos ficaram felizes

Miguel Pereira, 4.º FK


Era uma vez um menino que andava a brincar numa floresta que ficava perto da sua casa. O menino começou a explorar a floresta e encontrou uma flor murcha, o que deixou o rapaz triste,
Passando uma semana, o menino foi de novo à floresta e tentou procurar a flor, mas não a encontrou.
Quando se estava a aproximar de uma árvore viu a flor e pensou que ele tinha vida, pois devido ao vento ela mexeu-se. O menino estava tão cansado que adormeceu. Uma pétala da flor caiu em cima dele e aqueceu-o. Pouco tempo depois os pais que estavam preocupados encontraram o menino.
O senhor Luís e a senhora Margarida ficaram encantados ao ver o seu filho com uma flor branca a tapa-lo. Levaram o seu filho para casa e acordaram-no, mas o menino não queria estar em casa, mas sim na floresta. Ele apenas queria estar na floresta.
 
Luana Carquejo, 4.º FK
....

Leituras centenárias

As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples… Quem me dera saber escrever essas histórias…
Se eu tivesse aquelas qualidades, poderia contar, com pormenores, uma linda história que um dia inventei… …seria a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas…
… havia uma aldeia. …e um menino.
… sai o menino pelos fundos do quintal, e, de árvore em árvore, como um pintassilgo, desce o rio e depois por ele abaixo…
Em certa altura, chegou ao limite das terras até onde se aventurara sozinho. Dali para diante começava o “planeta Marte”. Dali para diante, para o nosso menino, será só uma pergunta: «Vou ou não vou?» E foi. O rio fazia um O rio fazia um desvio grande, afastava-se, e de rio ele estava já um pouco farto, tanto que o via desde que nascera. Resolveu cortar a direito pelos campos, entre extensos olivais, ladeando misteriosas sebes cobertas de campainhas brancas, e outras vezes metendo pelos bosques de altas árvores onde havia clareiras macias sem rasto de gente ou bicho, e ao redor um silêncio que zumbia, e também um calor vegetal, um cheiro de caule fresco.

Ó que feliz ia o menino! Andou, andou, foram rareando as árvores, e agora havia uma charneca rasa, de mato ralo e seco, e no meio dela uma inclinada colina redonda como uma tigela voltada. Deu-se o menino ao trabalho de subir a encosta, e quando chegou lá acima, que viu ele? Nem a sorte nem a morte, nem as tábuas do destino… Era só uma flor. Mas tão caída, tão murcha, que o menino se achegou, de cansado. E como este menino era especial de história, achou que tinha de salvar a flor. Mas que é da água? Ali, no alto, nem pinga. Cá por baixo, só no rio, e esse que longe estava!... Não importa. 

Desce o menino a montanha, atravessa o mundo todo, chega ao grande rio, com as mãos recolhe quanta de água lá cabia, volta o mundo atravessar, pelo monte se arrasta, três gotas que lá chegaram, bebeu-as a flor com sede. Vinte vezes cá e lá… Mas a flor aprumada já dava cheiro no ar, e como se fosse uma grande árvore deitava sombra no chão. O menino adormeceu debaixo da flor. Passaram as horas, e os pais, como é costume nestes casos, começaram a afligir-se muito. Saiu toda a família e mais vizinhos à busca do menino perdido. E não o acharam. Correram tudo, já em lágrimas tantas, e era quase sol-pôr quando levantaram os olhos e viram ao longe uma flor enorme que ninguém se lembrava que estivesse ali. Foram todos de carreira, subiram a colina e deram com o menino adormecido. Sobre ele, resguardando-o do fresco da tarde, estava uma grande pétala perfumada…


Este menino foi levado para casa, rodeado de todo o respeito, como obra de milagre. Quando depois passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos. Este era o conto que eu queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever histórias para crianças. Mas ao menos ficaram sabendo como a história seria, e poderão contá-la doutra maneira, com palavras mais simples do que as minhas, e talvez mais tarde venham a saber escrever histórias para crianças… 

Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?...


José Saramago. A maior flor do mundo. Ilustrações de André Letria. 
 Fundação José Saramago. 2013.

 


terça-feira, 16 de novembro de 2021

A memória em José Saramago

Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então.” (1)

 As memórias com que trabalhamos o quotidiano dão-nos imagens e flashes de vivências que tivemos e que pelo seu significado nos concedem espaços de viagem a um passado que apenas reencontramos. Neste território, queremos habitar o olhar, as formas de brincar com os dias, desejar construir o quotidiano com a mesma forma de possíveis, mas já lá não estamos com as mesmas atribuições de fantasia. 

As pequenas memórias, como espaço de infância é um território já afastado de nós, estranho à nossa dimensão de seres trabalhados no tempo e onde a viagem está já marcada por esse pó que se levanta dos dias. Escrever da infância é sempre regressar ao milagre da descoberta dos primeiros passos, do olhar que ficou marcado nos gestos, nos encontros, nas pessoas, nos objectos que reivindicam uma pequena imortalidade. A memória é também uma reconstrução desse tempo e nesse sentido do que foi a infância. 

Em Pequenas Memórias José Saramago reescreve esse tempo, em que procurou integrar um espaço social, económico e cultural. As suas memórias terminam na adolescência, pois a construção da infância, a emersão nesse território por onde entrou no mundo aí fazem terminar a fantasia desse olhar. Biografia, uma biografia sua já não teria o mesmo significado. Em Pequenas Memórias, Saramago recorda o processo de reconstrução da imagem da infância, pelo que foi, pelo que foi encontrado de particular e de original nessa festa que é sempre a chegada de uma criança. 

Em Pequenas Memórias não recebemos ainda os elementos que confirmaram Saramago com um escritor. Apesar do seu sucesso educativo como aluno, é o olhar, os ambientes, as sombras, as pessoas, os dilemas de vida que forjam as suas representações do mundo. José Saramago descobriu-se como grande leitor mais tarde e a sua escrita conduz às palavras, essa imaginação das possibilidades, que desde criança o colocou nesse confronto com o quotidiano. 

As Pequenas Memórias explicam-no como pessoa e aproximam-nos de uma ironia de pensamento com que povoou os seus livros. A recriação do real, a ousadia das abordagens, as polémicas que manteve foram formas de construir as paisagens humanas, que desde cedo conheceu e quis transformar. A memória é também em Saramago, uma reconstrução, uma forma de possíveis. Toda a sua obra mergulha na tentativa conquistar o real, por esse olhar que desde cedo procurou trazer uma forma mais justa e questionável de medir o horizonte dos dias.

 (1) José Saramago. (2014). As Pequenas Memórias. Porto: Porto Editora.


Saramago - A substância das palavras (I)

 

«Não me peçam razões, que as não tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

 
Não me peçam razões por que se entenda
A força da maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não o aceito.

 
Não me peçam razões, ou que as desculpe;
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor da Primavera que há-de vir
.» (1)

 (1) José Saramago, «Não me peçam razões» ,in Os Poemas Possíveis.