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quarta-feira, 1 de março de 2023

Um mês com... Agustina e Eugénio

   


No centenário de Agustina e de Eugénio de Andrade as suas palavras e a sua celebração são também o que elas deixaram nos seus leitores e nos que os conheceram. Mónica Baldaque, filha de Agustina Bessa-Luís foi naturalmente marcada pelo espírito de sua mãe desse espaço do imaginário do Douro, ela própria influenciada por ele e dele escreveu em diferentes momentos memórias que são também a entrada nesse imaginário da autora de Sibila.

   "Vivemos rodeados de vozes. E não são apenas vozes de pessoas, Tudo tem voz. O vento, a chuva, as folhas das árvores; uma cidade, uma rua, uma casa. As próprias recordações têm uma voz. são companhias, são laços fortes com os encontros que constroem os cenários da nossa vida. se nos dedicarmos a ouvir as vozes que nos acompanham, sentimos necessidade de as fixar, e de partilhar com elas a nossa própria voz. Ou assim, em tom de memórias escritas ou pintadas. Ou de tantas outras maneiras...

   Laura, sou eu, e percorro aqui o tempo de um ano de infância, passado entre o Porto e o Douro. e anoto atmosferas, sentimentos, toda uma forma de ver rolar os dias, como se os espreitasse sempre por detrás de um cortinado...
   Acompanha-me ao longo do texto a folha do limoeiro, pela qual eu bebia a +agua gelada da mina, que corria brilhante e rápida, sobre o musgo e uma terra macia e dourada como um pó de arroz. Simbolizando a água da vida, a fonte da juventude eterna. 

   Três vozes se encontram aqui.
   A primeira voz é a de minha avó Laura. Uma voz do não-dito, que esteve presente até aos 97 anos, às vezes já refugiada no esquecimento, outras vezes na memória.
  A segunda voz é a de minha mãe, Agustina. Uma voz que é um dom, de um tempo que é propriedade sua. Uma vida de belas palavras, entre nuvens, brumas e ventos, num percurso circular, sem fim.
   A terceira voz é a minha: Laura, que murmura encontros e memórias de três gerações."

A folha de Limoeiro / Mónica Baldaque. Porto: Edições Asa, 2005


segunda-feira, 8 de março de 2021

Elas

 


“Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para lai uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. 

Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram.

Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar À roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que agente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte da casa fechada. 

Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.”

Maria Velho da Costa. (1976). Cravo. Lisboa: Moraes Editores.
Imagem: Copyright - Alfredo Cunha Official Fujifilm X-Photographer, Vila Verde, 2001

terça-feira, 9 de junho de 2020

Do natural

"A verdade é que, estando nós prestes a penetrar nesta floresta e pensando que podemos aqui falar alto e bom som, rir à gargalhada e chamarmos uns pelos outros, não é verdade! Estranhas sensações comandam as nossas atitudes, todos os nossos gestos, todas as intenções. A floresta é densa, todas as cores existem aqui. O coração palpita quando a floresta exige, quando a floresta ordena. 

É aqui que o sagrado e as artes se reúnem para celebrar a vida e para respeitar a morte: a antiquíssima música produzida pelo vento ou pelas aragens ao escolherem as mais altas copas das mais altas árvores para as inquietar, produzindo ora assobios, ora variações de acordes longínquos ou próximos, doces ou aflitivos com o piar do pássaro, a brama do veado ou o aviso da tempestade; a pintura, com seus matizes variando com a elegância e sabedoria nas quatro estações do ano, conferindo todas as cores possíveis ao chão, às plantas, ao céu, aos próprios bichos; a escultura da natureza a formar e a deformar, a diminuir ou a acrescentar particularidades aos ramos e aos troncos das árvores, às rugosidades das pedras e calhaus dos ribeiros, às hastes de alguns animais que caem ou não caem.

É como se estivéssemos a entrar num local de culto, num santuário misterioso, frio e quente, escuro e claro, algures, onde o imprevisto pode sempre acontecer. Avançamos pelo interior deste verde total como se caminhássemos pela nave central de um grande templo, ao mesmo tempo silencioso e murmurante. Percebemos, então, uma língua de luz estreita e fina, uma passagem para um outro mundo, iluminado por outra luz, aquecido por outro calor.

A vida em centelhas, em pós cintilantes que se evolam no ar em espirais de fendas e buraquinhos aqui e além. São partículas animadas e parece que esvoaçam, acabando por desfazer-se em névoa que se arredonda e acena mesmo à frente dos nossos olhos. É chão de terra macia, debruado por árvores enormes com cabeleiras de verde, com corpos de troncos muito fortes, de braços abertos e amplos, sempre prontos a abraçar. E em cada braço de árvore correm rios de seiva e sangue e líquidos que alimentam e fazem vibrar todo o restante corpo das árvores.

Deveremos manter o silêncio para não perturbar a densidade da floresta e toda a sua vida"

As fabulosas histórias da tapada de Mafra / Cristina Carvalho. Porto: Sextante Editora, 2016. 
Imagem: Copyright - [남일 풍경수채화 시범작품] 숲길 - 수채화 과정