"O Cabedelo para mim era o deserto, cheio de prestígio e de aventuras.... Era no Cabedelo que tomávamos os melhores banhos, deitados na areia, deixando vir sobre nós a vaga num rodilhão de algas e espuma. Andar um momento envolvido na crista da onda, ser atirado numa sufocação sobre a areia, correr de novo para o mar, direito à vaga que se encapela lá no fundo, formando concha, outra vez aturdido e impregnado de uma vida nova; e depois procurar, a escorrer, um côncavo quentinho de areia que nos sirva de abrigo contra o vento e secar-se a gente naquele lençol doirado - é uma das coisas boas da terra. E outro prazer simples e extraordinário é ir descalço pelo grande areal fora com os pés na água. A onda vem, espraia-se, molha-nos e salpica-nos de espuma. Calca-se esse mosto branco e salgado que gela e vivifica, e caminha-se sempre ao lado dos sucessivos rolos que se despedaçam na areia. A onda vem, cresce e, antes de se despedaçar em espuma, o sol veste-a de uma armadura de aço a reluzir. Há-as de um esverdeado de alga morta, há-as que se derretem e fundem em torvelinhos de branco e há-as que recuam e se enovelam noutras ondas prestes a desabar. Mas há umas, esplêndidas, que vi em Mira, ao pôr do sol, quando o vasto areal fica todo ensanguentado. A onda forma-se e corre por aquela magnífica estrada que vem do Sol até à praia, ganha primeiro reflexos doirados na crista e depois, quando se estira pelo areal molhado, fica cor do vinho nos lagares.
Espaço institucional de partilha e divulgação das atividades das Bibliotecas Escolares do Agrupamento de Escolas António Rodrigues Sampaio
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
Livros do mês - 2.º / 3.º Ciclos (IV) - outubro
"O Cabedelo para mim era o deserto, cheio de prestígio e de aventuras.... Era no Cabedelo que tomávamos os melhores banhos, deitados na areia, deixando vir sobre nós a vaga num rodilhão de algas e espuma. Andar um momento envolvido na crista da onda, ser atirado numa sufocação sobre a areia, correr de novo para o mar, direito à vaga que se encapela lá no fundo, formando concha, outra vez aturdido e impregnado de uma vida nova; e depois procurar, a escorrer, um côncavo quentinho de areia que nos sirva de abrigo contra o vento e secar-se a gente naquele lençol doirado - é uma das coisas boas da terra. E outro prazer simples e extraordinário é ir descalço pelo grande areal fora com os pés na água. A onda vem, espraia-se, molha-nos e salpica-nos de espuma. Calca-se esse mosto branco e salgado que gela e vivifica, e caminha-se sempre ao lado dos sucessivos rolos que se despedaçam na areia. A onda vem, cresce e, antes de se despedaçar em espuma, o sol veste-a de uma armadura de aço a reluzir. Há-as de um esverdeado de alga morta, há-as que se derretem e fundem em torvelinhos de branco e há-as que recuam e se enovelam noutras ondas prestes a desabar. Mas há umas, esplêndidas, que vi em Mira, ao pôr do sol, quando o vasto areal fica todo ensanguentado. A onda forma-se e corre por aquela magnífica estrada que vem do Sol até à praia, ganha primeiro reflexos doirados na crista e depois, quando se estira pelo areal molhado, fica cor do vinho nos lagares.
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Livros do mês - 2.º / 3.º Ciclos (III) - outubro
Vai cair a tarde. O azul desmaia sobre o areal doirado. Mais pó esbranquiçado lá no fundo, par o norte - névoa ou luz que nasce, não sei bem; para o sul, o morro transparente que entra pelo mar... Três grandes barcos decorativos estão num grupo, de proa à água, que a toda a hora esmorece. Somem-se as casas denegridas, a agitação e os homens; só o barco se me afigura cada vez maior, sobre a vaga imensa do areal, sob o resplendor imaculado do Sol, enchendo o céu e a terra com as suas grandes linhas decorativas. À primeira vista parece uma coisa teatral, prestes a desconjuntar-se, só cenário e mais nada, com quatro patas desajeitadas de bicho, sem o alicerce da quilha a sustentá-lo, impróprio para o mar e para a terra - obra de lavradores que resolveram um dia ir à sardinha. Os quatro remos pesadíssimos, com uma grande parte mais grossa e reforçada, que se chama cágado, são coevos do alfange, e estes bicos aguçados, que tão bem ficam no areal e no céu, não têm solidez nenhuma. Na realidade, um barco destes, que parece inútil, é um produto de engenho secular. Como não há porto nem abrigo e a embarcação tem de passar logo do areal para a onda que escachoa, atravessando a arrebentação para sair ao largo ou para regressar à terra, era necessário oferecer à onda a menor resistência e saltar-lhe no dorso: - por isso ergueu a proa. E como a dança das ondas se sucede durante alguns minutos, era forçoso também que, mal assentasse na água, lhe andasse ao de cima: - e a popa fugiu-lhe para o céu. O barco tem exactamente o feitio côncavo do espaço que vai de vaga em vaga, com um pouco de espuma figurada nas duas extremidades.
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
Livros do mês - 2.º / 3.º Ciclos (II) - outubro
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
Livros do mês - 2.º / 3.º Ciclos (I) - outubro
10 de
Agosto - 1921
Esta nossa terra portuguesa vai pela costa fora sempre de braços abertos para o mar, estreitando-o amorosamente contra si. Começa em Caminha até ao forte de Ãncora - de Âncora ao extremo do monte da Gelfa, e daí ao farol de Montedor, em três largas reentrâncias, que têm como pano de fundo a cadeia azulada dos montes, de onde emerge um ou outro cone transparente... Todas as povoações são viradas para o mar. O sol doira uma janela, uma eira, um espigueiro, o campo de milho alimentado a sargaço que tem os pés na água. E o biombo cor de lousa desenrola-se ao lado do comboio...
31 de Agosto
Deixo
esta manhã Viana e os incaracterísticos pescadores da Ribeira e sigo pelo
pinhal de Darque, Anha, S. Romão de Neiva, para Esposende, com o rio à esquerda
por terras vermelhas, donde irrompem alguns tufos de pinheiros majestosos como
templos. Ao longe a serra de Arga e as torres de S. Silvestre... Ficam-me na
retina uma igreja branca, a de Darque, recortada ao céu, e a verde solidão dos
pinheirais, que associo sempre à ideia do mar largo. Pela estrada
incaracterística acompanho carreadas de sargaço e de patelo, até que chego a
Belinho, onde o grande poeta exilado bate as portas na cara do mar que detesta
- depois de atravessar um fio de água, com o morro selvático do Castelo de
Neiva em frente.
De Belinho para S. Bartolomeu já me envolve a poalha da tarde e depois uma luz violenta nas Marinhas. Tenho de um lado os montes escuros e do outro o mar verde com o resplendor do céu em cima. À beira da estrada branca de poeira, movem-se ainda - trabalham noite e dia - alguns grupos de moinhos. E esta engenhoca seduz-me: anima a paisagem e tem alguma coisa de navio e de brinquedo de criança.
Faz-se tarde. No fundo mais negro, as casas, mais pálidas, embranquecem: só o milho fica loiro e o céu fica doirado. (...) Esposende, terra de beira-mar, donde não consigo ver o mar, terra de tristes pescadores. As redes de arrasto deram cabo do peixe, matando a criação. Só resta uma catraia para a pescada, alguns batéis para a raia, com redes de malha muito larga, e diferentes barquinhos para a pesca do rio, que dá o sável, a tainha e o robalo na vazante, e a solha que se fisga com a petada nos fundos de areia mais escura.
Os Pescadores / Raul Brandão. Porto: Porto Editora, 2010
Imagem: Copyright - praia de Belinho: C.M. de Esposende



