segunda-feira, 11 de novembro de 2019

No dia de S. Martinho


(...) Vinde, porque é de mosto
O sorriso dos deuses e dos povos
Quando a verdade lhes deslumbra o rosto.

Houve Olimpos onde houve mar e montes.
Onde a flor da amargura deu perfume.
Onde a concha da mão tirou das fontes
Uma frescura que sabia a lume.

Vinde, amados senhores da juventude!
Tendes aqui o louro da virtude,
A Oliveira da paz e o lírio agreste...

E carvalhos, e velhos castanheiros,
A cuja sombra um dormitar celeste
Pode tornar os sonhos verdadeiros.

Miguel Torga, «Libertação»

(No dia de São Martinho, a evocação de um imaginário que nos transporta pelo poema  a um território que Miguel Torga chamou de Reino do Maravilhoso. Reino de vales desenhados a sol e a perfume de terra, entre as pedras e o rio Douro que serpenteia no seu caminho para a foz. Reino de castanheiros que desenham encostas de verde, sombras e veludos de castanhas em ouriços despertados pelos dias.)


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Sarau solidário - Olhares sobre os direitos das crianças

A CPCJ (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Esposende) organiza no dia treze de novembro um sarau solidário que se destina a colaborar com um Centro de Nutrição que apoia crianças desfavorecidas, no Haiti. O agrupamento António Rodrigues Sampaio e as suas bibliotecas escolares associam-se a este evento.

Este evento terá lugar no dia 13 de novembro, às 21.00h, no Auditório Municipal de Esposende e contará contará com a participação de alunos do 1.º, 2.º e 3.º ciclos do nosso Agrupamento. A participação dos alunos será feita através da leitura, da poesia e da dança, onde darão a sua voz e expressão à temática escolhida, “Olhares sobre os Direitos da Criança“. 

A aquisição de bilhetes, cujo custo é de cinco euros deve ser feito previamente e a mesma pode ser feita através das bibliotecas escolares. O Agrupamento António Correia de Oliveira e a Escola Secundária Henrique Medina participarão igualmente neste evento.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Memória de Albert Camus

"Cada geração se sente, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje a tudo destruir, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir ao ódio e à opressão, esta geração tem o débito, com ela mesma e com as gerações próximas, de restabelecer, a partir de suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer.” (1)

Ele foi o melhor homem de França, uma respiração pela síntese mais intensa do que significa construir uma civilização humana. Veio das planícies áridas de África, onde os alíseos sopram ventos agrestes, de um mar recortado de aventuras para iluminar velhos intelectuais de uma Europa perdida em descrença. Integrou no século XX a ideia essencial de Goethe, de que a civilização é antes de tudo o mais um exercício de respeito global, por onde se inserem o divino, a identidade do território, os outros ao nosso lado e a nossa dignidade. 

Inspirou-se em velhos humanistas que construíram um homem pelo seu peso moral. E em tardes cinzentas recordou a Malraux e a Sartre o ideal aristocrático por excelência, a nobreza de espírito como a intemporalidade de uma civilização e o papel deslumbrado dos intelectuais por aparências, “os demasiados ambientes de desonra intelectual”( Stephen Spender, World within a world). Lutou no campo das responsabilidade das ideias, como forma de resguardar uma civilização e demonstrou em palavras e gestos que toda a superficialidade de todos os ismos foram as aparentes fórmulas do relativo, a morte da vontade e o esquecimento do outro. 

Do absurdo da existência, das suas irregulares formas concedeu-nos a sabedoria que reconhece que toda a visão política e ideológica da beleza ou da justiça significam amputar os valores universais dando à luz os sábios da “boa” moral, a “sabedoria” eleita. E em tardes de dias cinzentos explicou a Sartre que a essência de mentes politizadas apenas conduz à abstração sem rosto humano. Indicou-lhe o essencial do papel das ideias, a verdade como forma de construir sociedades de liberdades de sentido democrático. 

O autor do Estrangeiro retirou-se com a ideia essencial de que são as mentiras contadas da realidade que destroem esse caminho de liberdade e verdade. Se Malraux encolhia os ombros, Sartre não o percebia, nesse desprezo pelas necessidades históricas, pelo combate contra a politização do espírito. Voltou-se já na ombreira da porta e sorriu-lhes – a vossa desistência trará os bárbaros perfeitos, os que julgando-se livres, serão os profetas da escravatura, esperança sem verdade. 

O homem que soube que na sedução do poder ou na infidelidade aos valores imortais residia um novo niilismo que apenas traria a morte da nobreza de espírito, ou a incapacidade de encontrar essa decência maior de que falava Sócrates, a coragem da procura. E em momentos de fraternidade universal, quando Sartre lhe perguntou porque não defendera a Argélia, ele respondeu-lhe, – gosto mais da minha mãe do que de revoluções. Chama-se Albert Camus e soube sempre que no curso do rosto existem mais verdades que em palácios de aparências formais.

(1) - Do Prémio Nobel, recebido em 1957.

Livros do mês (III)

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais. 
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
                                                                      Elas são a casa, o sal da língua.

O sal da língua / Eugénio de Andrade ; pref. Carlos Mendes de Sousa. - 1ª ed. - Porto : Assírio & Alvim, 2018. - 85, [2] p. ; 21 cm. - (Obras de Eugénio de Andrade ; 20). - ISBN 978-972-37-2060-0