quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Um poema para Sophia


Não sei porque floriram no meu rosto
os olhos e os versos que há em ti.
Floriram por acaso, ao sol de agosto,
sem mesmo haver agosto ou sol em mim.
Não sei porque floriram: se o orvalho as queima...
(Ponho as mãos nos olhos para os proteger!)
Tão estranho! florirem no meu rosto
olhos e versos que não posso ver.


Eugénio de Andrade
Fevereiro.1946
Fonte: Fundo documental digital da Biblioteca Nacional.

Escrita de palavras (X)


Na minha opinião, a história que li é diferente, porque fala da Atlântida que estava perdida e submersa. A parte da história que eu mais gostei, foi quando resgataram Kida. Ela era o coração da Atlântida, mas ninguém sabia. Nesta parte da história, eu senti que era uma personagem da história. Também, gostei muito de verificar que o sonho do avô e do neto era encontrar a Atlântida.
Aconselho os meus colegas a ler, porque tal como eu, irão fazer parte do enredo da história.

Autor da história: Disney
Beatriz 6FB

Sophia - "O nome das coisas"



"O nome das coisas" - Um filme/documentário sobre alguns dos aspetos que moldaram a sua vida e as palavras que construiu na descoberta do real, dos momentos únicos da sua revelação. 

O mar azul e branco e as luzidias
Pedras – O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.

"Inicial", (Dual), in Obra poética / Sophia de Mello Breyner Andresen ; pref. Maria Andresen Sousa Tavares. - 1.º ed. - Porto : Assírio & Alvim, 2015. - 980, [11] p. ; 25 cm. - (Obras de Sophia de Mello Breyner Andresen). - ISBN 978-972-37-1824-9


Boletim 02 - Sophia

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Livros do mês (II)


"Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. 

Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. 

Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. 

À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia- idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. 

Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada. 

Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível".

"Caminho da manhã" (Livro Sexto), in Obra poética / Sophia de Mello Breyner Andresen ; pref. Maria Andresen Sousa Tavares. - 1ª ed. - Porto : Assírio & Alvim, 2015. - 980, [11] p. ; 25 cm. - (Obras de Sophia de Mello Breyner Andresen). - ISBN 978-972-37-1824-9

Sophia, na Primeira Pessoa

Sophia na primeira pessoa é um documentário com recurso às imagens e aos lugares da autora de Navegações. Um documentário que vale a pena muito ver pelas palavras e pela voz de Sophia.
                                                                  Sophia na primeira Pessoa



terça-feira, 5 de novembro de 2019

Livros do mês


Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.

Eugénio de Andrade, “Em louvor das crianças”, in 
Rosto precário / Eugénio de Andrade ; pref. Joana Matos Frias. - 1ª ed. - Porto : Assírio & Alvim, 2015. - 223, [1] p. ; 21 cm. - (Obras de Eugénio de Andrade ; 11). - ISBN 978-972-37-1815-7