Um livro que apresenta aos mais jovens uma figura humana feita de coragem e humildade, justamente Salgueiro Maia, aqui, como uma produção gráfica, a que voltaremos no conteúdo da mensagem e nas produções biográficas a serem realizadas pelos alunos.
Espaço institucional de partilha e divulgação das atividades das Bibliotecas Escolares do Agrupamento de Escolas António Rodrigues Sampaio
Mostrar mensagens com a etiqueta O Livro do mês. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O Livro do mês. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 26 de abril de 2022
quarta-feira, 13 de outubro de 2021
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
A Noite de Natal (II)
A Festa
Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até que chegou o
Natal.
E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os
seus sapatos de verniz preto e muito bem penteada às sete e meia saiu do quarto
e desceu a escada.
Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande; eram
as pessoas crescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que tinham fechado
a porta para ela não entrar. Por isso foi à casa de jantar ver se já lá estavam
os copos.
(…)
Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam, tão
frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha
do que do fundo de um armário. As velas estavam acesas e a sua luz atravessava
o cristal. Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e extraordinárias: bolas
de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas
encarnadas. Era uma festa. Era o Natal.
Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de
Natal as estrelas são diferentes.
Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio,
mas o próprio frio brilhava. As folhas das tílias, das bétulas e das cerejeiras
tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como rendas pretas. Só o cedro
tinha os seus ramos cobertos.
E muito alto, por cima das árvores, era a escuridão enorme e
redonda do céu. E nessa escuridão as estrelas cintilavam, mais claras do que
tudo. Cá em baixo era uma festa e por isso havia muitas coisas brilhantes:
velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal. Mas no céu havia uma festa
maior, com milhões e milhões de estrelas.
Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada. Não pensava em
nada. Olhava a imensa felicidade da noite no alto céu escuro e luminoso, sem
nenhuma sombra.
Depois voltou para casa e fechou a porta. — Ainda falta muito
tempo para o jantar? — perguntou ela a uma criada que ia a atravessar o
corredor.
— Ainda falta um bocadinho, menina — disse a criada. Então Joana
foi à cozinha ver a cozinheira
Gertrudes, que era uma pessoa extraordinária porque mexia nas
coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar, e
mandava em tudo, e sabia tudo. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela
conhecia.
A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os
dois perus do Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos perus, muito
esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada.
— Gertrudes, ouve uma coisa — disse Joana.
A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os
perus.
— O que é? — perguntou ela.
— Que presentes é que achas que eu vou ter?
— Não sei — disse Gertrudes — não posso adivinhar.
Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e
por isso continuou a fazer perguntas.
— E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes?
— Qual amigo? — disse a cozinheira.
— O Manuel.
— O Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns.
— Não vai ter presentes nenhuns!?
— Não — disse a Gertrudes abanando a cabeça.
— Mas porquê, Gertrudes?
— Porque é pobre. Os pobres não têm presentes.
— Isso não pode ser, Gertrudes.
— Mas é assim mesmo — disse a Gertrudes fechando a tampa do
forno.
Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido que
era «assim mesmo».
Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. Todas as
manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com a mulher da
fruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era cozinheira há trinta anos. E
há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze
da noite. E sabia tudo o que se passava na vizinhança e tudo o que se passava
dentro das casas de toda a gente. E sabia todas as notícias, e todas as
histórias das pessoas. E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer
todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e
de legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e os homens.
Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mentira.
Joana ficou calada a cismar no meio da cozinha.
De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse:
— Já chegaram os primos.
Então Joana foi ter com os primos.
Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos
para a mesa.
Tinha começado a festa do Natal.
Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da mesa
tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas
doiradas. E as pessoas riam e diziam umas às outras: «Bom Natal». Os copos
tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E vendo tudo isto Joana
pensava:
— Com certeza que a Gertrudes se enganou. O Natal é uma festa
para toda a gente.
Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com certeza que ele também
tem presentes.
E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão
alegre como antes.
O jantar do Natal era igual ao de todos os anos.
Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os
perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananases.
No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a
porta e entraram na sala.
As luzes elétricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do
pinheiro.
(…)
E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José,
a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido
interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.
Joana olhava, olhava, olhava.
Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel.
(…)
E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a
Gertrudes.
— Bom Natal, Gertrudes — disse Joana.
— Bom Natal — respondeu a Gertrudes. Joana calou-se um momento.
Depois perguntou:
— Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade?
— O que é que eu disse?
— Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque os
pobres não têm presentes.
— Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve
presentes, nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os pobres são
os pobres. Têm a pobreza.
— Mas então o Natal dele como foi?
— Foi como nos outros dias.
— E como é nos outros dias?
— Uma sopa e um bocado de pão.
— Gertrudes, isso é verdade?
— Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se
fosse deitar porque estamos quase na meia-noite.
— Boa noite — disse Joana. E saiu da cozinha.
Subiu a escada e foi para o seu quarto. Os seus presentes de
Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E pensava:
— Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. São tal e
qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o que queria. Mas ao Manuel
ninguém deu nada.
E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, Joana pôs-se
a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite de Natal
naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de animais.
«Que frio lá deve estar!», pensava ela.
«Que escuro lá deve estar!», pensava ela.
«Que triste lá deve estar!», pensava.
E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde
Manuel dormia em cima das palhas, aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um
burro.
— Amanhã vou-lhe dar os meus presentes — disse ela. Depois
suspirou e pensou:
«Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal.»
Foi à janela, abriu as portadas e através dos vidros espreitou a
rua. Ninguém passava. O Manuel estava a dormir. Só viria na manhã seguinte. Ao
longe via-se uma grande sombra escura: era o pinhal.
Então ouviu, vindas da Torre da Igreja, fortes e claras, as doze
pancadas da meia-noite.
«Hoje», pensou Joana, «tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora,
esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal.»
Foi ao armário tirou um casaco e vestiu-o. Depois pegou na bola,
na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a boneca, mas ele
era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas.
Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por
um. Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as panelas e não a
ouviu.
(…)
A noite de Natal / Sophia de Mello Breyner Andresen. Ilustrações de Maria Keil.
A noite de Natal / Sophia de Mello Breyner Andresen. Ilustrações de Maria Keil.
quarta-feira, 27 de novembro de 2019
Livros do mês (V)
Há muitos e muitos anos, em 1862, nasceu numa ilha da Dinamarca um menino a quem puseram o nome de Jan Henrik Andresen. A Dinamarca é um país do norte da Europa, com Invernos escuros e frios e florestas de pinheiros e bétulas. Jan era um rapaz forte e corajoso, que sonhava ser capitão de um navio e viajar para longe. Queria conhecer lugares mais quentes onde o sol brilhasse e, um dia, decidiu partir.
Assim começa, A minha Primeira Sophia de Fernando Pinto do Amaral, um livro maravilhoso que consegue ser uma biografia de Sophia integrando a sua vida com excertos de algumas das suas obras para o público infantil e juvenil.
Livro que consegue transmitir de uma forma encantadora aquela que foi a vida de Sophia, o seu próprio imaginário feito de ideais preenchidos pelo encanto pela natureza, como o mar e as florestas. Livro que constrói os lugares de Sophia, onde ainda descortinamos o significado da palavra saudade, o valor da poesia na vida diária e o valor da nobreza, como um sentido para a própria vida e para a relação que devemos ter para com os outros e o mundo.
Livro que nos fala da memória, dessa lição dada pelo professor Cláudio no Rapaz de Bronze, e de como histórias encantadoras e belas alimentam a nossa fantasia e como nos fazem estar atentos ao mundo, à sua beleza e também às formas injustas que observamos tantas vezes. Livro que abre uma leitura plástica sobre um universo feito de animais, pessoas, flores, "brancos pavores", na procura da beleza das coisas.
Livro que Fernanda Fragateiro soube ilustrar de um modo também encantado e que só por si é uma outra história que acompanha a narrativa de um livro feito de beleza e que é mais do que um livro. É um objeto artístico que se pode admirar para compreender aquilo que foi uma vida de enigmas e de palavras e ações acima das palavras para retirar do mundo o caos e compreender a manhã inicial das coisas.
A minha primeira Sophia / Fernando Pinto do Amaral ; il. Fernanda
Fragateiro ; rev. Clara Boléo. - 2º ed. - Alfragide : D. Quixote, 2000. - 44,
[1] p. : il. ; 24 cm. - ISBN 978-972-20-3854-6D. Quixote, 2010. - 44, [1] p.
: il. ; 24 cm. - ISBN 978-972-20-3854-6
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
Livros do mês (IV)
Mas o Búzio aparecia sozinho, não se sabia em que dia da semana,
era alto e direito, lembrava o mar e os pinheiros, não tinha nenhuma ferida e
não fazia pena. Ter pena dele seria como ter pena de um plátano ou de um rio,
ou do vento. Nele parecia abolida a barreira que separa o homem da natureza. O
Búzio não possuía nada, como uma árvore não possui nada. Vivia com a terra toda
que era ele próprio. A terra era sua mãe e sua mulher, sua casa e sua
companhia, sua cama, seu alimento, seu destino e sua vida. Os seus pés
descalços pareciam escutar o chão que pisavam. E foi assim que o vi aparecer
naquela tarde em que eu brincava sozinha no jardim. (...)
No alto da duna o Búzio estava com a tarde. O sol pousava nas suas
mãos, o sol pousava na sua cara e nos seus ombros. Ficou algum tempo calado,
depois devagar começou a falar. Eu entendi que ele falava com o mar, pois o
olhava de frente e estendia para ele as suas mãos abertas, com as palmas em
concha viradas para cima. Era um longo discurso claro, irracional e nebuloso
que parecia, com a luz, recortar e desenhar todas as coisas. Não posso repetir
as suas palavras: não as decorei e isto passou-se há muitos anos. E também não
entendi inteiramente o que ele dizia. E algumas palavras mesmo não as ouvi,
porque o vento rápido lhas arrancava da boca.
Mas lembro-me que eram palavras moduladas como um canto, palavras
quase visíveis que ocupavam os espaços do ar com a sua forma, a sua densidade e
o seu peso. Palavras que chamam pelas coisas, que eram o nome das coisas. Palavras
brilhantes como as escamas de um peixe, palavras grandes e desertas como
praias. E as suas palavras reuniam os restos dispersos da alegria da terra. Ele
os invocava, os mostrava, os nomeava: vento, frescura das águas, oiro do sol,
silêncio e brilho das estrelas."
Sophia, "Homero" in, Contos exemplares / Sophia de Mello Breyner Andresen ; il. João Catarino. - 2ª ed. - Porto : Porto Editora, 2014. - 161, [2] p. : il. ; 21 cm. - ISBN 978-972-0-72627-8
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Livros do mês (III)
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Etiquetas:
O Livro do mês,
Poesia
quarta-feira, 6 de novembro de 2019
Livros do mês (II)
"Vais
pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras
cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que
desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e
enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em
frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma
luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em
ruínas.
Passa
debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até
encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no
centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois
de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo
pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o
branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não
encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar.
Entra
no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente
da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e
escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas
guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles
cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e
cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os
búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e
um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra.
À
tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego
que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia- idade com rugas
finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do
filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um
ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os
figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre
uma lágrima de mel.
Depois
vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças,
ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para
o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente
de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus
ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares
uma igreja alta e quadrada.
Lá
dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho
azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu
amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus
invisível".
"Caminho da manhã" (Livro Sexto), in Obra poética / Sophia de Mello Breyner Andresen ; pref. Maria Andresen Sousa Tavares. - 1ª ed. - Porto : Assírio & Alvim, 2015. - 980, [11] p. ; 25 cm. - (Obras de Sophia de Mello Breyner Andresen). - ISBN 978-972-37-1824-9
terça-feira, 5 de novembro de 2019
Livros do mês
Se há na terra um reino que nos
seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e
simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país
inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em
momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa
espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os
anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o
Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da
sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da
utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da
alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis
criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as
mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão
sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta,
não diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.
Eugénio de
Andrade, “Em louvor das crianças”, in
Rosto precário / Eugénio de Andrade ; pref. Joana Matos Frias. - 1ª ed. - Porto : Assírio &
Alvim, 2015. - 223, [1] p. ; 21 cm. - (Obras de Eugénio de Andrade ; 11). -
ISBN 978-972-37-1815-7
Etiquetas:
Livros,
O Livro do mês
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
Livros do Mês (10.19) - II
Eram as flores no
friso da janela que davam a nota mais colorida à sala de estar, virada para a
rua. A tia Gertrud da América mandara, certo dia, um cartuchinho de sementes
que a avó espalhara num vaso com terra. Em breve nascera uma roseira. Não uma
roseira vulgar, mas sim rara, que dava apenas uma rosa em cada Verão, rosa dum
vermelho carregado e, no dizer da avó, mais bela e mais duradoura do que todas
as rosas da aldeia. Assim como o Sol é o astro mais altivo e mais luminoso no friso
da janela.
Ao contemplá-la, absorta, pensava na terra da América e na cidade de
Nova Iorque, que estava para a nossa aldeia como o elefante para a mosca. E
assaltava-me então a curiosidade de terras distantes, estranhas, de tal forma
que me esquecia do avô Markus, a quem prometera nunca deixar. Sonhava com ruas
largas, sem fim, onde floresciam sebes de rosas diante de casas brancas cujas
janelas transbordavam de rosas, molhos e molhos de rosas, e uma inquietação
tomava posse de mim. A Ânsia de permanecer junto do friso da janela e ao mesmo
tempo de poder estar lá, onde as rosas eram assim, e até em toda a parte do
mundo.
Ao lado da janela,
precisamente onde floria a roseira americana, a avó Ester dormia todas as
tardes a sua sesta de quinze minutos. A cabeça encostada à almofada, os pés no
escabelo, certinhos um ao lado do outro, a meia com as cinco agulhas no regaço,
dormia sem se mexer. O rosto miúdo, sulcado de rugas, donde o nariz parecia
quere saltar, refletia o seu cansaço. Quando a via assim a dormir, lembrava-me
dum pássaro morto que certa vez encontrei, com o avô, na borda de um poço
coberto de neve.
Entretanto eu tinha
licença de folhear as velhas revistas, de dobrar tiras de papel para acender o
candeeiro a gás ou o cachimbo do avô, pois a avó não consentia que se gastassem
fósforos estando o fogão aceso para fornecer lume. De tempos em tempos
interrompia essas ocupações para contemplar a avó a dormir. Em vão procurava no
rosto esgotado os vestígios da beleza e da graciosidade que tivera, no dizer do
avô, quando fora nova e ele a escolhera para mulher.
Uma das duas portas
da sala de estar dava para o quarto de dormir, onde pairava sempre um cheiro a
lilases saído da gaveta inferior da cómoda. Ali a avó guardava as suas
quinquilharias pessoais. Não deixava de ser estranho ela, a mulher prática, não
conseguir desfazer-se de todas essas rendas e rendinhas, golas e golinhas
antiquadas, dos leques, das flores de papel e de outras coisas no género, eme
vez disso conservá-las em caixas de sabonetes e latas de rebuçados.
A avó
dormia numa das suas camas, enquanto eu ficava com o avô na outra. Era ela que
me lavava, no fim do dia, dos pés à cabeça, numa bacia de zinco, mas era o avô
quem me levava às cavalitas para a cama que, nos primeiros dias depois de a avó
lhe ter mudado os lençóis, cheirava a alfazema. Todas as noites o avô se
sentava ao meu lado. Contava histórias e cantava canções. A voz volumosa,
grave, animava a escuridão com as figuras dos contos de fadas e da Bíblia e
embalava-me até eu adormecer.
Certa noite, depois
de ele me ter deixado, aproximou-se da janela aberta um ruidoso bater de asas.
Suspendi a respiração e julguei morrer de medo. Duas asas batiam sobre a minha
cabeça e os meus ombros. Quis gritar, mas a garganta aperte-se-me. Fechei os
olhos, abri-os, cravei-os na escuridão… Já não havia mais nada. Pela janela
aberta, entrava, leve e fresco, o ar da noite. Sentei-me, apalpei tudo em
redor, ergui os braços. Nada. Só a escuridão e o silêncio. Quem estivera
comigo? O anjo de Jacob? O pássaro gigante? O rei dos amieiros? Mas os reis
tinham asas?... Quando finalmente o avô tornou a entrar para se deitar ao meu
lado, aconcheguei-me, aliviada, nos seus braços.
Etiquetas:
Escritores,
O Livro do mês
quarta-feira, 9 de outubro de 2019
A literatura de memórias
"Ai, que bela poderia ser a vida, que nos presenteava com
coisas tão maravilhosas: a neve a cair silenciosamente lá fora, as maçãs
assadas, a compota de morangos... se não houvesse as dúvidas angustiosas e a
desconfiança contra ela, a própria vida!" (1)
A Literatura de memórias tem nos últimos anos dado uma grande
importância ao testemunho dos momentos particulares, da intimidade com que
tantas pessoas sujeitas a processos políticos e sociais violentos foram capazes
de sobreviver e construir a sua identidade. O mundo em que vivi é de um tempo,
em que esse tipo de literatura ainda não tinha uma grande expressão na Europa,
mas enquadra-se muito nesse espírito.
Ilse Losa escreve na primeira pessoa, a experiência da sua
infância, do início da adolescência na Alemanha dos anos trinta, dando-nos a
memória da sua família, de um passado com os seus avós, de um universo que se
perdeu em muitas das suas particularidades e afetos. É um livro sobre esse
momento inexplicável da história humana, em que a ausência de um espírito corrompeu a essência da vida e a dignidade de milhões de seres humanos.
Nele percebemos como o impossível pôde ser possível, pela crença
de um povo numa esperança que se ausentou de si no mais óbvio, onde aos sinais
sucessivos foram dadas respostas pouco adequadas. É um livro sobre a vida num
século, onde assistimos à construção de um tempo global dominado por uma
estética de agressão, de desvinculação das pessoas a uma comunidade, a uma
cultura. São esses fragmentos de mundos particulares que chegam até nós.
Em O mundo em que vivi recebemos os espaços, as atmosferas de uma
condenação no plano individual a uma cultura que não pôde sobreviver, que se desmoronou, nas perguntas de silêncio de milhões de
judeus que interrogaram os dias. Dessas perguntas, as respostas impossíveis chegaram acima de toda a probabilidade, acima de toda a decência humanas. A história de Ilse Losa teve um fim feliz e com ela recordamos esse
passado, de onde ela sobreviveu para uma vida de escritora, na cidade do
Porto. O mundo em que vivi é em parte, esse caminho para uma escrita que
ela preencheria com momentos particulares, os "pequenos nadas" que
podem fazer renascer os momentos da vida.
(1) Ilse Losa, O mundo em que vvi, pág. ...
(1) Ilse Losa, O mundo em que vvi, pág. ...
Subscrever:
Mensagens (Atom)











