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segunda-feira, 24 de abril de 2023

25 de Abril de 1974 (III)

 

Realizaram-se neste dia algumas atividades de celebração do 25 de abril de 1974. Os alunos foram convidados a pensar nas letras das duas senhas que fez avançar nas primeiras horas da madrugada o movimento dos capitães. Acederam através de um marcador com um ficheiro em QRCode a um conjunto de materiais sobre aquilo que abril permitiu construir ao nível das liberdades cívicas.

Foi projetado um pequeno vídeo "Ditadura" e com elo se procurou refletir sobre o significado de receber a liberdade e de lutar com ela por novas formas de sociedade. "O que fazer com ela" é uma questão importante que Salgueiro Maia deu corpo com o seu gesto de coragem e de luta por um valor humano, nessa atitude de quem oferece algo valioso apenas porque é essencial à vida das pessoas, às suas possibilidades. 

A informação e o seu controle, a capacidade de desobediência ao que formalmente está errado e olhar o real como uma possibilidade na vida de cada um é um dos seus exemplos maiores e com o qual se aprende o valor da memória para noutros contextos lutar por aquilo que representa a dignidade das sociedades e da vida humana.

Foi ainda visto uma parte de "Capitães de Abril", filme de Maria Medeiros, onde a transição entre dois tipos de sociedade e de visão do Homem se apresentam de forma muito clara. Pensar o 25 de abril como memória histórica, mas também vê-lo e essa é uma ideia urgente, como aquilo que é construído. O presente do que se constrói, a sua validade, as suas possibilidades e não apenas uma iconografia do passado.

domingo, 23 de abril de 2023

25 de Abril de 1974 (I) - A iconografia de um nascimento


"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, 1977


  


Marcador digital - O dia da liberdade (II): materiais

 


 

 




As palavras e o sons para a partida - as senhas do 25 de Abril de 1974

Marcador digital - O dia da liberdade


                                           
O dia da Liberdade - acesso no QR Code por smartphone



25 de Abril de 1974 (II)

 




25 de Abril de 1974 - A arte de rua

 



segunda-feira, 25 de abril de 2022

As cores de Abril...



25 de Abril de 1974
 

José Fanha , Eu sou Português aqui


Carlos Paredes - Mudar de Vida

 

segunda-feira, 4 de abril de 2022

A Instauração da República


Ontem, dia 5 de outubro foi um dia de grande felicidade. Todos esperavam este momento há muito tempo! O caminho foi longo e foi preciso esperar bastante tempo. Voltemos um pouco atrás e vejamos como tal foi conseguido.

Em 1876 formou-se o partido republicano que tinha como objetivo acabar com a Monarquia e instalar uma República. Alguns anos depois, em janeiro de 1891 alguns militares, com o apoio de populares organizaram, no Porto um revolta armada contra a Monarquia. No entanto essa revolta correu mal para os defensores da República.

Em 1908 aconteceu o regicídio e o país perdeu o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro. 
Já este ano houve confrontos entre monárquicos e republicanos e ontem, na varanda da câmara municipal de Lisboa, a República foi saudada por muitos portugueses que a aclamaram. O rei, D. Manuel II partiu para o exílio em Inglaterra.

Viva a República!

Nádia Arantes, 6.º FB 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Memória e Civilização - O Holocausto

É a narrativa mais difícil de explicar. De certo modo é inexplicável, pois pretende compreender o impossível. Um impossível que nos remete a nós todos para a dimensão não humana, a prática de qualquer coisa que não nos torna sequer criaturas de Deus. Acreditámos muitas vezes em caminhos redentores de magia - o conhecimento e a cultura para nos resgatar de uma dimensão de animalidade. Caminho errado e sem respostas. Acreditámos que o bom senso reuniria todos os jovens corações pelo bem, pelo aceitável. Outro erro. 

Inspirámo-nos em velhos manuais de História, de Economia, de Cultura e Civilização para explicar este mal absoluto do espírito convencidos que há sempre uma racionalidade em cada gesto. Outro erro. Inspirámo-nos em velhas crenças que a maldade só era servida por figuras de segundo plano e votados ao insucesso. Outro erro. O mal pode ser servido por génios. E como se transformam pessoas de bem em condutoras de uma religião de morte? Cultura, civilização, pensamento, onde se distinguem quando são construção do saber e ideologia, a propaganda do poder absoluto sobre tudo, incluindo a vida?

Na total incapacidade para explicar o inexplicável, a indiferença de tantos para com o sofrimento, incluindo os que se dedicavam ao estudo de um Homem e de uma Humanidade sem rosto, um filme para ver essa raridade que foi o compromisso para com a vida no interior da Alemanha nazi. A rapariga que roubava livros, um filme a partir de um livro. Um filme sobre a coragem, a esperança de renovar a vida e o papel dos livros para iluminar a vida. 

O trail do filme, baseado num livro que vale a pena descobrir.

Dia internacional da memória das vítimas do Holocausto

 O Holocausto by BibliotecasAears on Scribd

domingo, 25 de abril de 2021

Evocação do 25 de abril de 1974

 

Em comemoração do 25 de Abril, dia da Liberdade, os alunos do 5ºMB deram a sua opinião sobre "Liberdade". Espreitem!

Para que nunca nos esqueçamos da importância de sermos LIVRES.
Viva o 25 de Abril
Viva a Liberdade

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Palavras importantes (IV)

O dia da memória do Holocausto é uma evocação que não fica no passado, porque ele concentra em si o essencial do que significa a vida humana, as escolhas e os valores morais que defendemos. O nazismo é irrepetível, embora formas novas possam assumir valores como o anti-semitismo, a expulsão de pessoas que fogem de locais em guerra, os direitos humanos que realmente são vividos por todos.
O Holocausto e o nazismo são objeto de uma imensa produção historiográfica, muito porque se tenta perceber o impossível em que se materializou. E, também porque aconteceu nas mais altas condições culturais de uma civilização e no mais profundo esquecimento de grupos letrados e cultos.
O que faríamos, o que faremos quando precisamos de ajudar alguém em grandes dificuldades, mas essa ajuda implica um risco de vida para quem o faz. Foi esta questão colocada a alunos do 7.º e 9ºs anos. a questão, embora partindo da situação histórica foi generalizada a qualquer momento em que alguém precisasse de ajuda, embora com risco de vida.
Algumas respostas.

Ajudaria, pois mesmo em risco, ao ajudar e ao salvar uma pessoa desse risco ficávamos os dois em situação de termos mais possibilidade de nos salvarmos com a nossa entreajuda.
Catarina – 9.º B

Ajudaria, porque cada um tem direito a ser ajudado e respeitado. Independentemente do perigo e das suas consequências ajudaria. Zelaria pela minha segurança, mas acho que todas as pessoas devem ser ajudadas. A nossa vida é importante, mas a vida de outra pessoa também o é. E juntos poderíamos ser mais fortes para enfrentar o perigo.
Carolina, 7.ºA

Ajudaria. Apesar de estar em risco de vida, sempre terei tempo de ajudar, pois, porque não? Se tivesse frio, dar-lhe-ia alguma roupa; se tivesse fome, faria os possíveis para lhe arranjar alimento. Os bons momentos ficam guardados, principalmente para a pessoa que ajudasse. E, pela minha parte, ficaria feliz pela ação, ou última ação que fizera.
Matilde, 7.ºA

Ajudaria. Estando em risco de vida ajudaria outra pessoa, pois corria um risco, mas não ficava com a consciência pesada. E ao ajudar outra ou outras pessoas elas iam lembrar-se de mim, do meu gesto e reconheciam que eu não tinha sido egoísta.
Gil, 7.ºA

Ajudaria. Devemos ajudar a pessoa ou pessoas que precisam de nós. Devemos pensar naquilo que os outros precisam de nós. Além do mais, ao ajudar outra pessoa, também podemos nos ajudar a nós próprios.
Clara, 7.ºA

Ajudaria. A vida de cada um de nós é preciosa e devemos estar atentos ao outro. Devemos nos colocar no lugar do outro. Essa é uma das coisas mais importantes.
Kayala, 9.ºB


Palavras importantes (III)

Chamo-me Rosa Branca.
Vivo na Alemanha, numa pequena cidade de ruas estreitas,velhos fontanários e edifícios altos onde os pombos vêm pousar nos beirais.
Um dia, chegou o primeiro camião e saíram de lá muitos homens vestidos de soldados.
O inverno estava a começar.  (...)

Um dia todas as pessoas abandonaram a cidade. carregando sacos de sarapilheira, tachos e mobília. Entre elas, havia soldados. Alguns tinham os uniformes rasgados. Outros coxeavam. E outros estavam feridos e pediam que lhes dessem água.

Nesse dia, Rosa Branca também saiu da cidade.
Mais uma vez, foi até à floresta.
A estrada desaparecera sob o nevoeiro. Rosa Branca saltava de pedra em pedra, tentando não sujar os sapatos.

No meio da floresta, a clareira já não era a mesma. Estava tudo vazio.
Pousou no chão a sacola cheia de comida e deixou-se ficar quieta.

Ente as árvores, havia sombras em movimento. Era difícil distingui-las. Os soldados viam o inimigo em todo o lado. 
Ouviu-se um disparo. (...)

A mãe de Rosa Branca esperou muito tempo pela sua menina.
As flores de açafrão começaram a despontar na terra, finalmente.
O rio aumentou de caudal e alastrou pelas margens. As árvores tornaram-se verdes e acolheram os pássaros.

A primavera cantava.

Ponto de partida para falar da ocupação nazi da Europa entre 1939 e 1945 a um conjunto de alunos do 7.º e 9.º ano.  Ponto de partida para falar do movimento Rosa Branca que tentou anular o Führer em 1942 e como sabemos teve um fim triste para esses estudantes de grande coragem.

Ponto de partida para escolher palavras importantes de uma narrativa sobre o próprio fundamento da vida e dos seus riscos. de AuschwitzApós a leitura e exploração visual os alunos consideraram como as palavras mais fortes ou com mais sentido nesta mensagem, as seguintes: 
Rosa Branca;
soldados;
tanques;
floresta;
estrela amarela;
floresta. 

Palavras importantes (II)

 
O comboio tem muitos vagões,
Não é como aquele que apanhávamos para ir à praia.
Na estação há gente com malas.
Os soldados vigiam.

Por cimo do portão de entrada
vejo um relógio grande,
altifalantes e holofotes

A luz magoa-me os olhos.
Os cães ladram, uivam.

Fumo:
silêncio, amigo e céu
soldados , chorar, amigo
brilho, raízes, comboio

Ponto de partida para falar do Holocausto a um conjunto de alunos do 9.º ano de Auschwitz. O seu silêncio tumular, o programa do nazismo e a solução final. Ponto de partida para falar de um genocídio e dos suportes que fundamentaram esta desistência pelo que é humano. Ponto de partida para uma história difícil, a mais difícil de todas. Ponto de partida para falar, ainda que ao de leve da dor antiga, da humilhação e da vida perdida. Ponto de partida para escolher algumas palavras de Fumo, um livro de Antón Fortes e com ilustrações de Joanna Concejo e publicada pela OQO. 

Após a leitura e exploração visual os alunos consideraram como as palavras mais fortes ou com mais sentido nesta mensagem, as seguintes: 
silêncio, amigo e céu
soldados , chorar, morte
multidão, raízes, comboio.

Palavras importantes


Entre 1933 e 1945, mataram seis milhões dos meus. Muitos com um tiro. Muitos queimados nos fornos crematórios, asfixiados nas câmaras de gás ou mortos de fome. A mim não me mataram.

Nasci em 1944.
Não sei o dia.
Não sei que nome me deram.
Não sei em que cidade nem em que país vim ao mundo.
Tampouco se tive irmãos.

O que sei é que quando tinha apenas uns meses salvaram-me do Holocausto.
Muitas vezes tento imaginar como era a vida da minha família e como foram as últimas semanas que passei com eles. Penso nos meus pais privados de tudo o que tinham, expulsos da sua casa e transferidos para um gueto.

Mais tarde, quem sabe talvez nos tirassem do gueto. Os meus pais deviam estar impacientes por abandonarem aquele bairro da cidade rodeado por arame farpado em que os tinham fechado, por fugirem do tifo, da acumulação, da sujidade e da fome. Mas imaginavam onde iam acabar?

Disseram-lhes que os iam tranaferir para um lugar melhor? Prometeram-lhes trabalho e comida?
Ouviram falar dos campos da morte?

Ponto de partida para falar do Holocausto a um conjunto de alunos do 9.º ano de Auschwitz. O seu silêncio tumular, o programa do nazismo e a solução final. Ponto de partida para falar do silêncio de muitos e dos justos que souberam erigir uma voz de combate, como Aristides de Sousa Mendes. Ponto de partida para falar, ainda que ao de leve da dor antiga, da humilhação e da vida perdida. Ponto de partida para escolher algumas palavras desta História de Erika. 

Após a leitura e exploração visual os alunos consideraram como as palavras mais fortes ou com mais sentido nesta mensagem, as seguintes: Imaginar, cuidar, comboio, destruição e estrela.
(com os alunos do 9.º FB)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Memória e cidadania - A memória do Holocausto - Os livros (IV) - exposição temática

  

  

 

  


Os livros dão-nos a memória do que representou em todos os momentos da existência, o Nazismo e a sua ideologia de extermínio a milhões de pessoas. Do trabalho, à vida pública, às relações sociais, à possibilidade de viver em família, aos gestos mais particulares e íntimos de uma pessoa houve repercussões que o gravaram como a mais baixa forma de existência da Humanidade. Deixamos alguns dos possíveis livros que nos dão essa proximidade do que foi o desespero de milhões de pessoas. Alguns deles estão em mostra na Biblioteca na exposição feita para homenagear uma memória e a mais inexplicável história humana.


Memória e cidadania - A memória do Holocausto - Os livros (III)

"Estou sentada em cima da minha mochila, no centro de um vagão cheio, e preciso de te ajudar, meu Deus. (...)
Estou sentada em cima da minha mochila, o vagão trepida, as crianças dormem e os velhos velam,  e eu vou no transporte e penso que tenho de te ajudar, meu Deus. Tu não tens forças para nos socorrer, por isso eu preciso de vir em teu socorro. Porque tu estás reduzido a tão pouco, e não podes valer a todos, então eu preciso de te dar as minhas forças. Precisas de ajuda, meu Deus, porque estás ferido e exangue. Precisas que eu trate de ti, que te vele, que te dê um pouco do calor que guardo em mim, dentro das camisolas de lã. Que eu guarde este calor por ti, dentro de mim.

Eu queria ser o coração pensante dos barracões, meu Deus, porque todos os outros estavam tão ocupados, sempre mais atarefados do que eu. Porque os outros tinham filhos pequenos e os pais a morrerem, e estavam terrivelmente assustados. Mas eu não tinha medo, podia pensar por eles. Podia levar os pensamentos deles até ti, meu Deus, como um correio que não abrisse as cartas para as censurar. Queria ser o coração pensante, quando os outros não tinham tempo para pensar, à procura de comida, agasalho e notícias. E queria ajudar-te a pensar com eles, pensar os pensamentos deles.

Eu ajoelhava em frente ao urzal, meu Deus, o urzal atrás do arame farpado. E tu estavas ali, pobre, atrás do arame farpado. Os raios de sol nas urzes, na água gelada, atrás do arame farpado.
Deixa-me agora ser o coração do vagão, meu Deus. 
Estão demasiado cansados, mal conseguem falar. Mas se eu levar o meu pensamento pela noite fora, toda a viagem de comboio, até ao fim, é como se guardasse um pouco de calor, intacto, por nós todos. Deixa-me guardar o resto do pensamento. Mesmo  a tremer, mesmo a cair de cansaço ainda hei-de conseguir um pouco de força para te amparar. (...)

Eu aceito tudo , meu Deus. Continuo a ajoelhar, e ajoelharei no vagão e no campo, como ajoelhei em frente ao urzal. Se eu não te ajudar, meu Deus, quem te levará até à morada da morte?
Espreito pela frincha, o ar entra, tudo está morto. Montanhas e florestas.
Tenho tudo dentro de mim, mesmo quando é tão difícil.

Partimos de Westerbork há dois dias. Como se a viagem durasse anos de vida. Pode-se envelhecer vidas inteiras num vagão, durante uma noite. Todos nós, mesmo as crianças, somos agora muito velhos. Com mais velhice do que cabe numa vida. Amanhã chegaremos ao campos, e ninguém sabe o que acontecerá. Correm rumores horríveis. mas seja o que for que nos espera, meu Deus, eu aceito. Mesmo na morada da morte te ajudarei.

Olho pela frincha. Lá em cima, a Ursa Maior, clara, nítida, e fria. Que nos acompanha desde a partida. Por que é que as estrelas andam quando eu ando, perguntou-me uma criança em Westerbork, e param quando eu paro?
Uma pequena força dentro de mim. 

As estrelas brilham sobre a neve. Uma claridade branca começa atrás dos montes, o dia nasce do lado para onde o transporte avança. Vejo um caminho, uma casa. Um regato gelado. Luzes ao longe, uma cidade. Uma placa a indicar a direcção. 
Consigo ler a placa: "Leipzig".

E a neve recomeça a cair.
Uma pequena força, meu Deus, dentro de mim.

Pedro Eiras. "Etty Hillesum", in 
Bach / Pedro Eiras. - Reimp. - [Porto] : Assírio & Alvim, 2015. - 157, [2] p. ; 21 cm. - (A phala ; 50).
Imagem - Capa do livro que junta os Diários de Etty Hillesum (1941-43) e que como Anne Frank vivia em Amesterdão; Copyright - persephonebooks

Memória e cidadania - A memória do Holocausto - Os livros (II)


“ (…) um operário civil italiano (Lorenzo) trouxe-me um bocado de pão (…), todos os dias, durante seis meses; ofereceu-me uma camisola sua cheia de remendos; escreveu por mim um postal para Itália e fez-me chegar a resposta. Por tudo isto, não pediu nem aceitou alguma compensação, porque era bom e simples, e não achava que o bem devesse fazer-se para obter compensações. (…)

Creio que devo justamente a Lorenzo o facto de estar vivo hoje; não tanto pela sua ajuda material, quanto por me ter constantemente lembrado com a sua presença, com a sua maneira tão linear e fácil de ser bom, que ainda existia um mundo justo para além do nosso, algo e alguém ainda puro e incontaminado, não corrupto e não selvagem alheio ao ódio e ao medo; algo que mal se pode definir, uma remota possibilidade de bem, pela qual, porém, valia a pena conservar-se.

As personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrem. Os SS maus e estúpidos, os políticos, os criminosos, os proeminentes grandes e pequenos (…) todos os degraus da insana hierarquia criada pelos Alemães, estão paradoxalmente unidos numa única desolação interior.

Mas Lorenzo era um homem; a sua humanidade era pura e incontaminada, estava fora deste mundo de negação. Graças a Lorenzo, aconteceu-me não esquecer que também eu era um homem”.

Se isto é um homem / Primo Levi ; trad. Simonetta Cabrita Neto. - 15ª ed. - Alfragide : D. Quixote, 2017. - 185, [6] p. ; 24 cm. - Tít. orig. : Se questo è un uomo. - ISBN 978-972-20-5402-7