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terça-feira, 7 de março de 2023

Boletim Bibliográfico - Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade by BibliotecasAears

Boletim Bibliográfico - Agustina

 

Agustina Bessa-Luís by BibliotecasAears on Scribd

Esposende - Agustina e Eugénio

 Agustina Bessa-Luís e Eugénio de Andrade celebram este ano o centenário do seu nascimento. A semana da leitura organiza um conjunto de atividades à volta da sua obra e via literárias. Esposende foi um local geográfico e humano onde os dois escritores passaram momentos da sua vida. Agustina viveu nos anos sessenta quatro em Esposende e Eugénio frequentou diversas vezes os espaços da costa, entre Esposende, Apúlia e Fão.

Agustina


«Vivíamos então em Esposende, numa pequena casa de praia que comprámos à senhoria, uma senhora não sei se dinamarquesa. Foram quatro anos em que escrevi muito e conheci dias bons com o mundo e comigo mesma. Minha filha estava no colégio interna, meu marido advogava no Porto e saía de tarde, voltando à noite, ficando eu e os gatos numa espécie de encantamento, a ouvir o suspiro do mar. Vinha à porta o carrinho da fruta, e a mulher que vendia dizia: «não sei como se dá nesta pasmaceira». Para ela toda a boa fruta era do Douro, inclusive as bananas. Não passava ninguém na rua, os tamarindos vergavam com o vento. A peixeira Cravelha ensinou-me a tirar a pele às azevias.»

 Fonte:

O livro de Agustina : uma autobiografia / Agustina Bessa-Luís . - 2ª ed. - Lisboa : Guerra e Paz.

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«Esposende tinha duas almas: a do sul, que era piscatória, e a do norte, que era banhista. Uma era feita de gente natural e misteriosa, com dramas e alegrias rápidas, como se um vento cínico e audaz, vindo de muito longe, talhasse a sua história. A alma do sul já existia quando o reizinho D. Sebastião jogava às laranjas com os seus cortesãos – e as comia. Porque o príncipe era guloso; em apetites de mesa e arrancadas de estribo perdeu a vida, e nós a independência e a lei dela. O que lá vai lá vai!

Quando eu fui pela primeira vez a Esposende, achei que sucedia alguma coisa de solene; como um rito. Era em Julho. Nas noites em que o calor abrasava, vinha do rio um hálito de vasa. Como se o princípio do mundo rompesse o cristal das areias e borbulhasse uma vida espessa e cega, no lodo.»

 Memória de Esposende. In Vila e concelho de Esposende no IV centenário 1572-1972 / Agustina Bessa-Luís.
Imagem: Copyright - Biblioteca Municipal de Esposende

quarta-feira, 1 de março de 2023

Um mês com Agustina e Eugénio...

No centenário de Agustina e de Eugénio de Andrade as suas palavras e a sua celebração são também o que elas deixaram nos seus leitores e nos que os conheceram. O Porto não tendo sido o seu lugar de nascimento físico, foi para Eugénio de Andrade uma influência marcante na sua poesia. A sua figura era um vulto existencial da cidade das camélias e muitos o ouviram e dele aprenderam palavras no rumor das coisas.

"Trouxe-te um ramo de frésias
(não eram essas as flores dos jardins de 
                                            Castelo Branco?)
embrulhadas em celefone
por causa do frio
Trouxe-te um ramo de frésias
já que não te podia trazer um rio."

"Aniversário" / Jorge Sousa Braga, in Aproximações a Eugénio de Andrade. Porto: Edições Asa, 2002

Um mês com... Agustina e Eugénio

   


No centenário de Agustina e de Eugénio de Andrade as suas palavras e a sua celebração são também o que elas deixaram nos seus leitores e nos que os conheceram. Mónica Baldaque, filha de Agustina Bessa-Luís foi naturalmente marcada pelo espírito de sua mãe desse espaço do imaginário do Douro, ela própria influenciada por ele e dele escreveu em diferentes momentos memórias que são também a entrada nesse imaginário da autora de Sibila.

   "Vivemos rodeados de vozes. E não são apenas vozes de pessoas, Tudo tem voz. O vento, a chuva, as folhas das árvores; uma cidade, uma rua, uma casa. As próprias recordações têm uma voz. são companhias, são laços fortes com os encontros que constroem os cenários da nossa vida. se nos dedicarmos a ouvir as vozes que nos acompanham, sentimos necessidade de as fixar, e de partilhar com elas a nossa própria voz. Ou assim, em tom de memórias escritas ou pintadas. Ou de tantas outras maneiras...

   Laura, sou eu, e percorro aqui o tempo de um ano de infância, passado entre o Porto e o Douro. e anoto atmosferas, sentimentos, toda uma forma de ver rolar os dias, como se os espreitasse sempre por detrás de um cortinado...
   Acompanha-me ao longo do texto a folha do limoeiro, pela qual eu bebia a +agua gelada da mina, que corria brilhante e rápida, sobre o musgo e uma terra macia e dourada como um pó de arroz. Simbolizando a água da vida, a fonte da juventude eterna. 

   Três vozes se encontram aqui.
   A primeira voz é a de minha avó Laura. Uma voz do não-dito, que esteve presente até aos 97 anos, às vezes já refugiada no esquecimento, outras vezes na memória.
  A segunda voz é a de minha mãe, Agustina. Uma voz que é um dom, de um tempo que é propriedade sua. Uma vida de belas palavras, entre nuvens, brumas e ventos, num percurso circular, sem fim.
   A terceira voz é a minha: Laura, que murmura encontros e memórias de três gerações."

A folha de Limoeiro / Mónica Baldaque. Porto: Edições Asa, 2005


terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Um mês com... Miguel Torga


De seu nome Adolfo Correia da Rocha, com a profissão de médico, é um dos mais importantes escritores do século XX. Escreveu sob o pseudónimo de Miguel Torga. Miguel, em homenagem a duas figuras da cultura universal, Cervantes e Unamuno. Torga, em homenagem à sua natureza transmontana. Natural de Sabrosa, distrito de Vila Real, construiu uma obra vasta, variada que abarcou, a poesia, o romance, o conto e as memórias. 

Fundou várias revistas literárias e publicou, desde 1928, uma extensa obra, podendo–se destacar: Os Bichos, Novos Contos da Montanha, A Criação do Mundo, A Poesia e Os Diários. Recebeu diferentes prémios entre 1969 e 1981 (Diário de Notícias, Poesia de Bruxelas, Prémio Montaigne). A sua escrita apresenta o encanto silvestre e a originalidade humana desse reino único, muito especial, a que ele deu o nome de maravilhoso.

 A sua obra e a sua figura são a morada desse tempo quase eterno onde a montanha faz nascer a liberdade e a beleza. É um autor que nos recorda o valor da paisagem e de como ela é uma construção humana. Torga é um exemplo da importância de um território e de uma memória como suportes de uma cidadania formalizada nos valores culturais de uma comunidade. As palavras de Torga são um combate pela liberdade, naquilo que ela tem de valor moral, de consistência civilizacional.

Lutou pela liberdade, pela possibilidade de construir uma sociedade mais livre e tolerante. Sentiu essa prisão num País que não evoluiu, que não se permite a si mesmo ser livre e autêntico. Torga foi o recriador literário desses espaços de liberdade e beleza perenes que são os montes ouvidos pelo vento, ou os rios onde correm as transparências telúricas dos seixos e de uma vida selvagem quase pura. Chamou-lhe o reino do maravilhoso.

Nesse reino, o silêncio criado nas fragas, onde o som mais encantado das cotovias chega dos castanheiros milenares, onde tudo se apresenta frontal e belo encanou-o e encanta quem o conhece. O reino encantado das flores silvestres, onde torgas luxuriantes lutam entre as pedras nessa resistência de sonho, por onde corre o vento e o silêncio. A biografia de Torga é construída das muitas escolhas que fez na vida, perante esse testemunho vivo da terra e do maravilhoso que ele descobriu nela. Os seus poemas são o grito dessa liberdade e a angústia de uma vida que se queria livre, grande e incomensurável como o tempo. 

A sua passagem pelo Brasil deu–lhe a conhecer essa extensão informal de Portugal e permitiu–lhe realizar os seus estudos. Chega a Coimbra, em 1928, para estudar Medicina, iniciando nesse ano a publicação dos primeiros poemas. Em 1929, encontramo–lo a trabalhar na Revista Presença, onde fica pouco tempo, pois a sua voz era uma voz de liberdade, de compromisso com a dureza da vida e com a beleza que encontrava nos testemunhos da memória. 

Em 1933, escolhe exercer Medicina em Trás–os–Montes. Passou a dedicar –se à dupla missão de ser médico e de ser escritor. Foi preso, durante o regime político do Estado Novo. Nunca optou pelo caminho do exílio, ficando porque se considerava a voz de uma identidade, da Terra, de uma identidade cultural, de um património de pertença. Escreveu sobre o seu País esquecido, Portugal, sobre a suas tradições e particularidades. Imaginou a criação de um mundo telúrico e foi um poeta de grande alcance humanista. 

Torga é um exemplo de uma figura de grande valor cultural e humanista, e o facto de ter sido obliterado à vida de uma comunidade evidencia um País afastado de si próprio. Torga sentiu tudo isto. Torga criou na Literatura um reino maravilhoso, porque o descobriu, porque o soube ver nas fragas de xisto que se debruçam das arribas do Douro, nas plantas rasteiras que no cimo das serras resistem a todas as intempéries. Estas paisagens inspiraram–no na sua escrita. 

Torga foi essa montanha que não se move, que não cede às pequenas intrigas e vaidades, e que se afirma na beleza da palavra sempre pronta para fazer da liberdade a maior bravura. Torga morreu há um pouco mais de vinte anos, despedindo–se de um País que reconheceu o valor da sua literatura, mas não lhe deu uma oportunidade de participar na sua construção. Torga sentiu esse desprezo de um País político pela mais elementar verdade, pela beleza das coisas simples, por esse território de gente sofrida, pobre e sem oportunidades, que lutava no cimo das encostas por uma vida mínima de possibilidades. 

A solidão deste escritor foi também uma forma de encontrar a revelação desse real tão belo, dessa força natural imensa. Torga era uma forma de consciência, um património humano, que assume atualmente um maior significado do que quando se despediu de nós. Torga sentiria, hoje, uma imensa tristeza pelas “praias tristes”, abandonadas da vontade, em que se tornou parte deste país.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Um mês com... Miguel Torga


«Liberdade. Passei a vida a cantá-la, mas sempre com a identidade no pensamento, ciente de que é ela o supremo bem do homem. Nunca podemos ser plenamente livres, mas podemos em todas as circunstâncias ser inteiramente idênticos. Só que, se o preço da liberdade é pesado, o da identidade dobra. A primeira, pode nos ser outorgada até por decreto; a outra, é sempre da nossa inteira responsabilidade.» 

O autor do mês de Janeiro na Biblioteca é Miguel Torga. Na verdade é mais do que um autor, é uma geografia e uma paisagem humana únicas. Na primeira entrada para a sua apresentação importa salientar que Torga foi um ser de grande valor humano feito de uma raridade e de uma frontalidade só quase vivida pela geografia mais sublime. Mais que um homem, foi uma criação de um património, a respiração do vento mais puro, agreste, difícil, verdadeiro e frontal como as quedas de água no alto das fragas.

Miguel Torga, pseudónimo do médico Adolfo Coelho da Rocha que mistura a reverência por Unamuno e Cervantes na escolha de Miguel e de celebração do mais agreste, as pequenas flores silvestres no cimo dos montes. Torga representa na dimensão humana o carácter duro, mas solidário, frontal, mas apaixonado por uma consciência de valores imutáveis.

A sua escrita apresenta o encanto silvestre e a originalidade humana desse reino único, muito especial, aquele deu o nome de maravilhoso.

A sua obra literária e a sua figura humana são a morada desse tempo quase eterno onde a montanha faz nascer a liberdade e a beleza. Torga confunde-se com esse reino. Há nele essa dimensão de natureza frontal, em estado maciço que se apresenta como um universo a descobrir, uma fonte de vida e valores universais. Um universo de pura pedra inconformável com a injustiça, incapaz de metamorfoses sob o peso dos outros, ou do mundo.

Miguel Torga é na verdade uma atmosfera de resistência e de revelação. O seu desencanto nos últimos anos de vida revelou uma vez mais que ele era de um outro tempo. Durante o mês, a ele voltaremos para divulgarmos uma obra única que nos faz compreender como somos herdeiros de um território e de uma identidade. A sua atualidade é por demais evidente, num tempo a esquecer-se do essencial em relação ao património, como identidade de pessoas e de um território.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Um mês com ... Sophia


"O vento sopra contra
As janelas fechadas

Na planície imensa
Na planície absorta
Na planície que está morta,

E os cabelos do ar ondulam loucos
Tão compridos que dão a volta ao mundo.

Sento-me ao lado das coisas
E bordo toda a noite a minha vida

Aqueles dias tecidos
Que tinham um ar de fantasia
Quando vieram brincar dentro de mim.

E o vento contra as janelas
Faz-me pensar que eu talvez seja um pássaro."

"O Vento", in Obra Poética I / Sophia. Lisboa: Caminho, 1999.


sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Um mês com... Sophia

"Desvendar as sombras"

                                                                                                                                                             Sophia de Mello Breyner Andresen é o nome em destaque em novembro nas Bibliotecas. Sophia, nome maior das letras e da cidadania fez da sua vida um encantamento por esse amor antigo e futuro de todas  as ideias, concedeu-nos as palavras da pura claridade, o dia inicial criado do caos para nos harmonizar com o real. Sophia é um nome, uma paisagem, uma forma de olhar  que tem inspirado sucessivas gerações a descobrir no real, uma forma de divindade por onde as suas palavras respiram assombradas  pela sua essência de simplicidade. Deu-nos uma respiração de coral e nela vemos a tão difícil, mas tão necessária, dimensão da autenticidade nos gestos e nas palavras.

As palavras são, em Sophia, não uma descrição planeada ou imaginada do real, mas sim a descrição do olhar, o concreto onde sobressai a nossa dimensão humana. Com a sua arte poética e narrativa, temos uma escrita muito preocupada com os limites da existência humana, de onde emerge em simplicidade um encontro com a Natureza e em especial com o mar. Sophia deu-nos uma obra literária marcada pela poesia, pelos contos, onde fez nascer um imaginário de conhecimento das  imagens  que nos levam ao real, à procura de uma essência do humano. 

Da sua obra, destacam-se a poesia, como forma primeira de uma expressão da palavra, na respiração do mundo, e os contos, em que muito do seu imaginário foi levado a crianças mais jovens. Na poesia, publicou diversos títulos, como No tempo dividido, CoralNavegaçõesIlhasO nome das coisas, onde o deslumbramento pela palavra, a extrema sensibilidade e clareza tentam encontrar campos e horizontes de felicidade, numa procura de uma dimensão humana que se afirma acima de qualquer tempo.  A obra de Sophia procurou ligar-nos ao real e à procura do que foram os elementos fundadores da nossa natureza humana.

A luz que ela nos deu é clara e transparente como as manhãs nascidas de um tempo novo, não numa dimensão política, da usura de títulos, mas a de uma nobreza feita da que procura dialogar consigo própria, a da manhã branca, onde a claridade emerge de um dia alvo, desenhado e vivido de possibilidades que o real nos concede. As suas palavras deram-nos uma estética do maravilhoso, de quem se espanta pelo assombro do mundo, pela sua beleza e injustiça, num compromisso autêntico, livre e sublime, com a respiração que nos pode fazer herdeiros da maior inteireza possível. 

Conduziu-nos pela maresia, falou-nos dessa primeira liberdade, correu com o vento para que nós também sentíssemos a questão inicial, o sopro vivo da palavra comprometida. Infelizmente, nós não a compreendemos e temos muitos exemplos desta destruição pelo valor da palavra, onde a construção de uma comunidade se vê isolada da sua substância mais vital. Resta-nos com ela absorver o seu maior legado. O coração e as palavras que são sempre novas todos os dias, pois elas procuram construir um equilíbrio. Aquele que se sobreponha aos labirintos e ao caos, desvendando as sombras que no real nos afastam da essência. Palavras, como instrumentos para podermos abordar os dias, reconquistando um real a esse caos, tantas vezes usado e criado por desleixo e falta de vontade humana. 

As suas palavras são uma permanente iluminação, por onde se busca a mais perfeita claridade. Sophia criou um reino, uma linguagem que se exprime na sua Poesia, como uma forma de tornar possível, de fazer nascer um real onde se fragmentam os nossos passos de sol nas ondas de azul. Os seus contos infantis e juvenis estão cheios desses valores que importa continuar a conhecer e a amar como um sinal de um divino em cada pessoa, em cada rosto. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Um mês com... Agustina Bessa-Luís

 
"Lourença tinha três irmãos. Todos aprendiam a fazer habilidades como cãezinhos, e tocavam guitarra ou dançavam em pontas dos pés. Ela não. Era até um bocado infeliz para aprender, e admirava-se de que lhe quisessem ensinar tantas coisas aborrecidas e que ela tinha de esquecer o mais depressa possível. O que mais gostava de fazer era comer maçãs e deitar-se para dormir. Mas não dormia. Fechava os olhos e acontecia-lhe então uma aventura bonita e conhecia gente maravilhosa. Eram as pessoas que ela via no cinema ou que ela já tinha encontrado em qualquer parte, mas que não sabia quem eram. Não gostava de ninguém que se pusesse entre ela e a imaginação, como um muro, e a não deixasse ver as coisas de maneira diferente. Não gostava que lhe tocassem e, sobretudo, que a gente grande pesasse com a grande em cima da sua cabeça. Apetecia-lhe morder-lhes e fugir depressa. Mas não fazia nada disso. Ficava quieta e olhava para a frente dela, cheia de seriedade. Isto tinha o efeito de causar estranheza, e diziam sempre que ela era uma menina obediente e sossegada. Mas retiravam a mão. Tinham-lhe posto o nome de "dentes de rato". porque os dentes de rato eram pequenos e finos, e pela mania que ela tinha de morder a fruta que estava na fruteira e deixar lá os dentes marcados.
    - Já aqui andou a "dentes de rato" - diziam os da casa, escandalizados. Viravam e reviravam as maçãs, e em todas havia duas dentadinhas já secas e onde a pele mirrara. Era uma mania que ninguém podia explicar. (...)

   De repente aborreceu-se de usar bibes ou o uniforme preto que a mãe achava tão distinto. Vestia Lourença à inglesa, o que era muito desengraçado. Começou a ter birras que lhe davam para não comer. A mãe não sabia como lidar com ela. Já não era Dentes de Rato, e a sensatez dela evaporara-se. (...)
   Só o pai a tratava como dantes, sem muita confiança; mas olhava às vezes para ela como se a vida parasse à volta e só Lourença estivesse viva no mundo. Raramente lhe dava um beijo e, se o fazia, era com respeito e alguma severidade. Não era um pai camarada, como se usava ser; Lourença pensava que um pai desses não lhe convinha. Não enganavam ninguém, e notava-se logo que eram tão velhos como os outros. Ela preferia que o pai fosse assim, uma pessoa um bocado doutro tempo e que falava de coisas completamente desinteressantes - do preço do vinho e da crise da lavoura. Tinha segredos com a mãe, mas isso fazia parte do direito de serem os pais e não o quaisquer outras pessoas. (...)
   
   À noite, estando aberta a janela do quarto, uma pomba veio pousar no peitoril. Começou a dar voltas e a arrulhar. "É o meu presente de anos" - pensou Lourença. "Alguém o mandou, de muito longe..." O coração dela, oprimido e cheio de inconfessáveis tristezas, encontrou de repente consolação. Achou que o mundo inteiro esperava por ela, e os mares todos, com as suas tempestades, podiam ficar calmos porque ela assim queria que fosse."

Dentes de Rato / Agustina Bessa-Luís.Lisboa: Relógio d ´Água, 2017.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Um mês com... Agustina Bessa-Luís

 


"Esposende tinha duas almas: ado sul, que era piscatória, e a do norte, que era banhista. Uma era feita de gente natural e misteriosa, com dramas e alegrias rápidas, como se um vento cínico e audaz, vindo de muito longe, talhasse a sua história. A alma do sul já existia quando o reizinho D. Sebastião jogava às laranjas com os seus cortesãos - e as comia. Porque o príncipe era guloso; em apetites de mesa a arrancadas de estribo perdeu a vida, e nós a independência e a lei dela. O que lá vai lá vai!

Quando eu fui pela primeira vez a Esposende, achei que sucedia alguma coisa de solene; como um rito. Era em Julho. Nas noites em que o calor abrasava, vinha do rio um hálito de vasa. Como se o princípio do mundo rompesse o cristal das areias e borbulhasse uma vida espessa e cega, no lodo. A motora do peixe descia pela corrente, os homens iam calados. Via-se o casco na linha da água, como uma faca abrindo a pele da noite. Os cães ladravam. A alma do sul estava acordada. Desde tempos muito antigos ela tinha aquele pacto com o mar, sobrevivia nos seus flancos, paciente, lentamente, ajustada à magra colheita de peixe e de sargaço.

A alma do norte floresceu um dia, construiu nos pinhais um chalé branco, pôs-lhe um azulejo azul, botou patamar e alpendre à moda de mestre Raul Lino. Plantaram-se tamarizes na avenida; alguma dama no seu mirante aprendia piano com um senhora do Porto, e tinha um chapéu com cerejas maduras. Distinguia-se: a sua gola de valencianas ficava cheia de grãos de areia quando ela saía à rua.”

 Memória de Esposende. In Vila e concelho de Esposende no IV centenário, 1572-1972, Agustina Bessa-Luís. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Um mês com... Agustina Bessa Luís

 


   Agustina Bessa Luís, é um dos grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea. A Guimarães Editora considerou-a a maior escritora portuguesa. Agustina mais que uma escritora é uma força da natureza, uma respiração sublime sobre os elementos desconexos e contraditórios que é a própria vida. De uma lucidez desconcertante, a sua obra constrói uma catarse sobre o papel do homem na sociedade humana. Com ela descobrimos em diversos livros os alicerces históricos e biográficos de uma cultura, nomeadamente nos seus timings contemporâneos. 

   Se todos somos a circunstância geográfica e cultural do sítio onde nascemos e vivemos, a obra de Agustina é o produto de uma região. Conhecedora da comédia humana, encontra-mos nela aforismos representativos de uma simplificação da vida. Maria Ordoñes, nome onde se escondeu um universo literário e cultural complexo e deslumbrante, começou a sua viagem a 15 de Outubro de 1922. Filha de uma senhora de Zamora e de um pai que pertencia à aristocracia rural do Porto, viveu entre o campo e a cidade, ficando por esta fascinada. Estudou nas Doroteias e divertiu-se nos serões de espetáculos geridos pelo pai e que tanto recebia cinema, como cafés concerto. Aos vinte e dois anos escolheu marido num anúncio de jornal, onde “procurava corresponder-se com alguém inteligente e culto”. O afortunado, com quem partilhou a vida durante várias décadas, Alberto Luís, ordenou a sua escrita e deu-lhe letra de máquina. 

   Agustina, de coração amarantino, o que ousada e modernamente já tinha dado a Amadeo, os contornos de uma ambição futurista da vida, no sentido mais livre possível, deixou-nos em letras apertadas de cadernos manuscritos personagens e atmosferas que nos são familiares. Iniciou-se na escrita, com Mundo Fechado, de 1948 e teve em Sibilia, de 1954, o romance que lhe deu visibilidade. Soubemos há alguns anos, que no início da década de 40, a escritora concluía os até agora desconhecidos Ídolo de Barro e Deuses de Barro, dois livros assinados com nome de ressonâncias maternas: Maria Ordoñes. Ferreira de Castro dizia dela que praticava “a depuração das palavras” e Eduardo Lourenço, que escrevia com “a novidade de um olhar insólito veemente e desarmante”. 

   Escreveu como quem respira, em doses imensas de palavras e livros (mais de sessenta), em romances nada convencionais, o que somos como modo de ser. Dos seus textos saiu a matéria-prima de filmes, como Francisca, Vale Abraão ou o Convento. Participou na vida cívica de modo intenso, tendo dirigido o 1º de Janeiro e o Teatro Nacional D. Maria II. Disse-nos em entrevistas cheias de sabedoria, que gostando dos aplausos, prefere ter graça a ter fama e revela-nos que sendo conhecida, não é muito lida. Dá-nos os seus livros como memória de uma ideia, de uma forma de humanidade, pois uma longa vida não se descreve, pois ninguém a vê passar. 

 Agustina é uma escritora criadora de figuras de uma dimensão muito peculiar e tem-nos dado a voz de uma geografia física e humana capaz de compreender a relação do Homem com os mitos, o simbolismo dos seus valores. Criadora de palavras que nos conduzem a caminhos onde se identificam os percursos da Humanidade, acima do contexto histórico, na procura de uma identidade que o é por si. 

   Da sua obra de ficção, à poesia, ao teatro, às crónicas, ao livro de viagens, aos ensaios a sua obra é uma referência pelo sentido de humor das suas representações, mas pelo modo também frontal como nos faz encarar a realidade. Há nela a procura de entender o quotidiano usando uma sabedoria própria, tirada de uma determinada realidade, mas também uma imensa liberdade que se assume como essencial para se afirmar e descobrir. A liberdade como uma das mais belas concretizações do Homem, embora torneada de elementos nem sempre claros e construídos sobre si próprio. 

   Retemos dela uma ideia de uma luz de quem caminhou ao contrário, da maturidade para a infância, de quem nos ensinou que a vida é demasiado importante para ser levada a sério e que por isso nada mais difícil do que o gesto grave, a dureza do caminho, para os que procuram um lugar de felicidade, de conquista de individualidade. Por isso as fórmulas rápidas e fáceis são inexpressivas de qualquer verdade, pois em cada ser há uma respiração diferente. Nas suas obras, as mulheres de diferentes gerações revelam essa aspiração de humanidade, que condensam o que viveram, o que sonharam, em luta com o real sem se saber se se ousou o suficiente, se a afirmação foi suficiente para chegar a esse momento quase final em algo que se compreendeu. 

   Agustina Bessa-Luís é uma figura maior da nossa escrita, a que convidamos a descobrir e por isso ela foi escolhida para ser alvo de destaque como escritora do mês na Biblioteca. O seu olhar como figura humana pode ser encontrada biograficamente em muitos dos seus livros, como por exemplo em Sonho de Cão ou Dentes de Rato, entre outros. Destacamos pois Agustina, em Outubro, mês do centenário do centenário do seu nascimento em 2022, pela sua dimensão como figura da cultura portuguesa deste século e do passado. Pela escrita, pelos temas, pelo humor e por aquele sorriso de quem já parece ter percebido o sentido das coisas e por isso sorri para o horizonte, como a criança acabada de nascer. O final de Sibila dá-nos essa dimensão de uma forma clara.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Um Mês com... Agustina Bessa-Luís


Mensalmente, será dado destaque a um escritor. Agustina Bessa-Luís celebra este
ano, o centenário do seu nascimento. É uma das grandes figuras da cultura portuguesa e deixou-nos uma obra de grande valor literário e artístico. Ao longo do mês deixaremos algumas ideias e publicações sobre esta importante escritora.

"Todos os meus livros são, afinal, só isso, a oportunidade de milhões de almas, únicas, todas elas, almas de sapinhos cheios de importância de viver. [...] Uns partem um pouco depois de dizerem bom dia, outros ficam até morrer. Todos se continuam naquilo que têm de profundamente entre si - a vocação para serem sós, porém aceites por cada um dos outros. Porque a solidão que me acusam de impor aos meus personagens, como uma grilheta, é apenas a sua individualidade biológica, a exclusividade, a reivindicação superior da sua própria luta. Um homem jamais corresponde a outro homem; as suas reacções e conclusões não equivalem a vivência de outra alma, a experiência do outro eu. O mistério do eu cumpre-se em cada homem de forma única".

 (1) Agustina Bessa-Luís, in Revista "Lusíada", Porto, Outubro - 1955


segunda-feira, 6 de junho de 2022

O 1.º Modernismo - Fernando Pessoa e Almada Negreiros (V)



"Atravessa esta paisagem o meu sonho de um porto infinito 
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios 
Que largam do cais arrastando nas aguas por sombra 
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na agua pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a agua do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra de uma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma…”

Fernando Pessoa é um dos marcos da cultura portuguesa e a sua modernidade trouxe para a compreensão do mundo, aquilo que é uma das marcas do mundo contemporâneo. O poema "chuva oblíqua" devolve-nos a construção de uma imagem, a da chuva que se apresenta inclinada e que impede que as pessoas se dela possam desviar. Há assim uma intersecção de planos, o real e o imaginário, num cruzamento de elementos. O poema relaciona-se muito com o quadro de Almada Negreiros, "Retrato de Fernando Pessoa"  nessa construção de uma realidade fragmentada em planos. Que mais não é que o da própria vida num tempo de sociedade profundamente alterado e angustiado. 

“Chuva Oblíqua”, in Poemas Interseccionistas de Fernando Pessoa, 1914, in Orpheu 2, junho de 1915, pp. 160-161.

terça-feira, 31 de maio de 2022

O 1.º Modernismo - Fernando Pessoa e Almada Negreiros (II)

 

Base para uma exposição de pintura a realizar pelos alunos do nono ano em ligação com o movimento das vanguardas - o 1.º Modernismo e aquilo que foi uma nova ideia para a Arte em Portugal no início do século XX.

"Somos portugueses que escrevem para a Europa, para toda a civilização; nada somos por enquanto, mas aquilo que agora fizermos será um dia universalmente conhecido e reconhecido. (…)A uma arte assim cosmopolita, assim universal, assim sintética, é evidente que nenhuma disciplina pode ser imposta, que não a de sentir tudo de todas as maneiras, de sintetizar tudo, de se esforçar por de tal modo expressar-se que dentro de uma antologia da arte sensacionista esteja tudo o que de essencial produziram o Egipto, a Grécia, Roma, a Renascença e a nossa época. A arte, em vez de ter regras como as artes do passado, passa a ter só uma regra - ser a síntese de tudo."

(Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, p.124)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O escritor do mês - Entre Miguel Torga e Eugénio de Andrade


 

Neste mês dedicamos as palavras em destaque a dois poetas que são na sua vida marcados pelo mês de janeiro, justamente Miguel Torga e Eugénio de Andrade. Dois escritores que usaram dois pseudónimos para a criação de um minimalismo, de uma frugalidade existencial que procuraram dotar as palavras para uma veracidade sentida pela experiência de viver.

A dezassete de janeiro desaparecia fisicamente Miguel Torga, um dos mais importantes escritores do século passado, frontal e verídico como essa consistência telúrica e granítica do reino que ele inventou para nós, porque foi o primeiro a vê-lo com a alegria de uma magia descoberta, o seu reino do maravilhoso. 

Miguel Torga escolheu esse pseudónimo em homenagem a duas figuras da cultura universal, Cervantes e Unamuno. Torga, em homenagem à sua natureza transmontana. Natural de Sabrosa, distrito de Vila Real, construiu uma obra vasta, variada que abarcou, a poesia, o romance, o conto e as memórias. 

Fundou várias revistas literárias e publicou, desde 1928, uma extensa obra, podendo–se destacar: Os Bichos, Novos Contos da Montanha, A Criação do Mundo, A Poesia e Os Diários. Recebeu diferentes prémios entre 1969 e 1981 (Diário de Notícias, Poesia de Bruxelas, Prémio Montaigne). A sua escrita apresenta o encanto silvestre e a originalidade humana desse reino único, muito especial, a que ele deu o nome de maravilhoso. 

É um autor que nos recorda o valor da paisagem e de como ela é uma construção humana. Torga é um exemplo da importância de um território e de uma memória como suportes de uma cidadania formalizada nos valores culturais de uma comunidade. As palavras de Torga são um combate pela liberdade, naquilo que ela tem de valor moral, de consistência civilizacional.  

Eugénio de Andrade é um pseudónimo de José Fontinhas e com ele nasceu uma das mais importantes obras poéticas do século passado. Uma obra feita de palavras concisas, contempladas de emoção, nessa frugalidade que lhe inspirou a vida e que ele desenhou nas palavras essenciais, como água, sol, luz, claridade, amizade. 

Da sua obra poética podemos destacar, As mãos e os frutos, de 1948, As palavras interditas de 1958, Véspera da água, de 1973, Limiar dos pássaros de 1976, Matéria solar de 1980, ou Rente ao Dizer, de 1992, entre outras obras de grande significado poético. Na prosa podemos destacar Os afluentes do silêncio, de 1968, Rosto Precário de 1979, ou à Sombra da memória de 1993. Publicou para o público mais jovem, História da Égua Branca, de 1977 e Aquela nuvem e as outras, de 1986.

A sua obra recebeu diferentes prémios, como sejam, o Prémio D. Dinis, da Casa de Mateus, O Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, de 1989, ou o Prémio Camões em 2001.

 A sua obra ficou muito ligada ao imaginário da sua infância, mas também aos elementos com que conviveu na cidade do Porto. Em dias de silêncio, de passeio pela cidade das camélias, os seus passos encontravam as palavras com que chamava a cidade, como um refúgio de pássaros. Eugénio de Andrade buscava as palavras com aquela ideia telúrica e desassossegada de construir um olhar na cidade. E ele continua muito próximo de uma ternura emotiva pelas coisas.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O escritor do mês

 


"Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito da verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê a espantosa beleza do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo (...) somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser." (1)

É uma das grandes figuras da cultura europeia e mundial, do século passado e de todos. Nasceu no Porto a seis de Novembro de 1919, onde passou a sua infância. Mais tarde mudou-se para Lisboa, onde fez os seus estudos universitários entre 1936 e 1939. Publicou os seus primeiros poemas em 1940, nos Cadernos de Poesia. Foi uma defensora dos direitos civis dos presos políticos durante o Estado Novo.

A sua luz é clara e transparente como as manhãs nascidas de um tempo novo, não o da dimensão política, não o da pequena ambição pelo cargo, pela nomeação, pelo lucro rápido e incolor. Apenas e só a que procura dialogar consigo próprio, a da manhã branca, onde a claridade emerge de um dia alvo, desenhado e vivido das possibilidades que o real concede. As suas palavras deram-nos uma estética do maravilhoso, num compromisso autêntico, livre e sublime, com a respiração que nos faz ser herdeiros da maior inteireza.

Conduziu-nos pela maresia, falou-nos dessa primeira liberdade, correu com o vento para que também nós sentíssemos a questão inicial, o sopro da palavra comprometida. Nela encontramos um coração de nobreza e as suas palavras que são sempre novas todos os dias. 
Escreveu diversos livros de poesia que se encontram publicados autonomamente na sua obra poética. Podemos destacar Livro Sexto, Navegações, Coral, No Tempo Dividido ou O Nome das Coisas. Em 2011 para assinalar a exposição internacional que decorreu na BN foram juntos alguns textos não conhecidos e agrupada toda a sua poesia num volume imenso de palavras e descobertas.

Destacou-se ainda na escrita para crianças em livros como A Fada Oriana, O Rapaz de Bronze, A Árvore ou A Floresta. Traduziu autores diversos, como Shakespeare ou Eurípedes. Escreveu ensaios, da terra das casas brancas no azul do Mediterrâneo, de que tanto gostava. Recebeu ao longo da sua vida vários prémios, como o Prémio Camões 1999 ou o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 2003. 

Sophia, deu-nos uma escrita de grande beleza, preocupada com os limites da existência humana, onde encontramos a simplicidade e o encontro com a Natureza, em especial o mar. Influenciada pela cultura grega, por esse mar de casas brancas, onde o sonho, a descoberta de novos horizontes está sempre presente. 

Com Sophia encontramos o deslumbramento pela palavra, onde a sensibilidade e a pureza tenta encontrar campos e horizontes de felicidade. As musas do mundo grego que tanto a inspiraram deram-nos nas suas palavras uma nova dimensão para o homem. Com Sophia a palavra tem contornos de magia por onde a dimensão humana se afirma acima de qualquer tempo. Com Sophia encontramos um deslumbramento permanente:

" (...) mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais 
        Do fundo do mar
        Eu nasci há um instante." (2)
                                 
(1) Sophia, "Posfácio", In Livro Sexto / Sophia de Mello Breyner Andresen ; pref. Manuel Gusmão. - 1ª ed. Porto : Assírio & Alvim, 2013. - 113, [6] p. ; 21 cm. - (Obras de Sophia de Mello Breyner Andresen). ISBN 978-972-37-1783-9

(2) Sophia, "Gráfico", in Coral / Sophia de Mello Breyner Andresen ; pref. Gustavo Rubim. - 1ª ed. Porto : Assírio & Alvim, 2014. - 100, [11] p. ; 21 cm. - (Obras de Sophia de Mello Breyner Andresen). ISBN 978-972-37-1702-2