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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

O Renascimento | VII


Veneza foi uma das cidades onde o Renascimento se desenvolveu de forma importante entre os séculos XV e XVI. Influenciada pela arte de Florença dos Medici, a realizada em Veneza preocupou-se menos com as questões de definição escultórica e procurando incentivar mais os pormenores de luz e cor.

Giovannni Bellini que viveu entre os séculos XIV e XV está entre os que mais importância tiveram na arte do Renascimento no norte de Itália. A sua influência foi muito importante para a definição das características da pintura do chamado Alto Renascimento.

A cor e a luz, assim como a procura pela representação de uma narrativa que se debruça no jogo entre o visível e o invisível tornam-no um pintor muito importante no Renascimento. A procura de um sentido para a vida humana está sempre presente nos seus quadros.

Nossa Senhora do Prado foi pintada entre 1500 e 1505. Se a cor e a luz eram a principal preocupação da pintura de Veneza, com Bellini as formas e o seu detalhe aproximam-se dos valores da arte de Florença. As cores exprimem uma claridade que nos leva para as questões do belo e que são introduzidas não apenas na figura clássica do menino e da mulher, mas é toda a humanidade integrada na natureza que nos interroga. 

O quadro de Bellini expressa um tema que foi muito pintado no Renascimento, mas traz algo de muito especial. Concilia a questão de um valor do cristianismo com aquilo que é a vida dos homens e esse foi um tema que muitas religiões tentaram sempre decifrar. A maternidade e a infância como algo onde se inicia a vida e a tentativa para apresentar o mundo são aspetos que caracterizam a pintura de Bellini.

O quadro pode ser dividido em vários planos, como um corvo, a paisagem veneziana ou a mãe o filho. O que faz da pintura de Bellini algo muito especial é a procura da construção de uma relação entre o visível e o invisível, naquilo que pode ser o sagrado e o que pode ser humano.

Outros pintores marcaram a pintura de Veneza. Por exemplo Antonello de Messina que trouxe a influência da arte flamenga e do uso dos óleos. Francesco del Cossa ou Vittore Carpaccio pertencentes à escola da cidade de Ferrara trouxeram outras ideias para a pintura deste período. Os contrastes cromáticos, com grande detalhe para a luminosidade alcançada no primeiro caso e a representação material da vida de Veneza no século XV tornam-nos importantes criadores na pintura do Renascimento.

 
Imagens:
Giovanni Bellini, Nossa Senhora do Prado, c. 1500-05, Board of Trustees of the National Gallery.
Antonello da Messina, Virgem da Anunciação, c. 465, Galleria Nazionale della Sicilia, Parma / Scala
Vittore Carpaccio, A Visão de Santa Úrsula, 1494, Academia Veneza / Scala

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

O Renascimento | VI


Do primeiro Renascimento, Piero Della Francesca é um dos nomes mais importantes para evocar na pintura do século XV. Não foi um artista muito admirado no seu tempo, pois as naturezas das suas pinturas evocavam uma atmosfera diferente e o seu patrono, apesar de importante no contexto da época não tinha a dimensão dos Médicis.

Piero Della Francesca nasceu numa pequena cidade da Úmbria, no centro da península itálica, foi apoiado por Federigo das Monefeltro, duque de Urbino. Na sua pintura encontramos traços influenciados por Masaccio e Donatello, aos níveis das linhas escultóricas e da claridade da cor, assim como do interesse pela paisagem real, no que foi influenciado por Domenico Veneziano. Nos últimos anos de vida cultivou os estudos sobre a perspetiva e escreveu dois tratados sobre a matemática da arte. 

Das suas diversas obras, O Batismo de Cristo, de 1540 é uma das suas obras mais importantes, onde fez a releitura dos temas clássicos, em relação à figura de Jesus, ao posicionamento dos anjos e a sua relação com a cidade, onde uma luz pura cristalina que se incorpora numa pomba e que introduz um valor simbólico no quadro.

No entanto, aquela que é considerada a sua obra mais importante é A História da Verdadeira Cruz, onde se descreve os diferentes aspetos da lenda, desde o Paraíso até à sua descoberta por Santa Helena, mãe de Constantino. A adoração sobre o menino revela uma paixão silenciosa, no encontro realizado com Salomão. As diferentes figuras femininas revelam o vestuário de um tempo, mas uma única compreende o significado simbólico desse olhar. O silêncio inunda esse espaço de revelação, o que dá uma atmosfera de algo que perdura, que fica imortalizado. 

Ainda de 1450, Piero Della Francesca pintou Ressurreição de Cristo, onde este se afirma como alguém que entra no real do quotidiano, como alguém capaz de o resgatar e dando ao mundo adormecido uma luz de ação para algo mais heroico.

                Piero Della FrancescaA História da Verdadeira Cruz, c. 1452-57, San Francesco, Arezzo /Scala.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Um poema

rilke1896

Mesmo que o mundo mude com rapidez,
 como nuvens em movimento, 
tudo volta outra vez
ao primeiro momento.

Sobre as mudanças, quanto
mais livre ainda se estira
e dura o teu pré-canto,
deus com a lira!

Não se compreende a dor,
não se aprende o amor,
e ao que na morte nos desterra

a mente é muda.
Só o canto sobre a terra
salva e saúda.

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu, (II.19).

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

O Renascimento | V

 


Florença foi uma cidade essencial no desenvolvimento do Renascimento na pintura, na escultura e na arquitetura. Depois de Masaccio, Sandro Botticelli surge como um dos pontos altos da escola, ou tradição florentina. Com Botticelli algo novo acontece na pintura do Renascimento, como as formas humanas, as suas linhas esguias e ondulantes. Botticelli foi muito influenciado pelo desenho dos irmãos Pollaiuolo que foram os primeiros a desenhar o corpo para o estudar nas suas estruturas.

Com Botticelli a ideia de dissecar o corpo, como o faziam os irmãos Pollaiuolo já não existe do mesmo modo, tendo evoluído para uma ideia mais apurada da perspetiva e da anatomia humana e relaciona-se com o que a corte dos Medici desenvolveram na sua visão do mundo. A ideia de amor no neoplatonismo da Corte dos Medici influenciou a pintura de Botticelli. Os quadros mitológicos de Botticelli são de um lirismo e de uma beleza impressionantes.

A Alegoria da Primavera, ou O Nascimento de Vénus são dois quadros em que os elementos clássicos são reajustados ao espírito da época e dos valores ou símbolos conhecidos no tempo. Em A Alegoria da Primavera, quadro de 1478, o trabalho destinava-se a ser colocado na residência dos Medici. É um dos quadros mais significativos da arte ocidental, onde as figuras se apresentam em tamanho natural, dando uma ideia de grande monumentalidade com a chegada das flores, símbolo da Primavera. O quadro fá-lo usando a mitologia dos valores clássicos.

No quadro as referências ao mundo clássico são muito evidentes, com a introdução de Vénus (divindade associada à Primavera) e dela parece emergir uma credibilização de toda a cena e dos outros elementos. O Cupido aparece sob as árvores apontando uma flecha às Três Graças que representam a beleza, a castidade a sensualidade e onde também surge Zéfiro, o conhecido vento da Primavera. 

No quadro encontramos ainda, em vestes escarlate, Mercúrio - deus mensageiro dos ventos e que na tradição clássica dissipava as nuvens de modo a permitir que os raios solares iluminassem o jardim. Todo o quadro é profundamente gracioso na junção das Três Graças, a deusa Flora e Vénus tornando-o um dos marcos do Renascimento. Os traços de feminilidade, graciosidade e delicadeza fazem dele uma obra maior da pintura europeia e do Renascimento.

Sandro Botticelli, Alegoria da Primavera, c. 1482, Galeria Ufizzi, Florença.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Um poema


"Os mares de Homero deixaram 
de trazer, esbeltas, as suas naves

em nome dos sem-nome, continua
por desertos de areia, desertos sem
sentido, continua. por rostos no deserto,
os do sem nome ou rosto, continua.
ao fundo do deserto, diz-se gotas de
sangue e grãos de areia, a esfinge
no deserto, continua. no verdadeiro
nome do espesso líquido que se diz
vital, em toneladas certas, continua.

os divinos moinhos moendo devagar
fina farinha, inúteis mares de pó."

Ana Luísa Amaral, “Mediterrâneo”, in What´s in a name

O Renascimento | IV

 

Nos primórdios do Renascimento Fra Angelico e Fra Filippo Lippi são dois nomes que no século XV marcaram a pintura nesse período histórico e cultural.

Fra Angelico foi um monge dominicano que construiu os seus quadros com uma linguagem austera dos motivos religiosos e em que a luminosidade é particularmente viva. Foi um pintor importante do Renascimento não muito reconhecido porque o seu papel inovador não foi nos temas, mas no modo como os apresentou.

No seu quadro, A Virgem e o Menino no Trono com Anjos e Santos, de 1438-1440 há uma clara recuperação do estilo gótico visível nas linhas graciosas e nas cores fortes. No entanto verificam-se elementos inovadores, como sejam a utilização da perspetiva, da cor e o próprio desenho das figuras no modo como habitam o espaço, que confirmam uma evolução em relação ao gótico. Os elementos naturais em que os anjos são colocados, e o modo como a luz incide iluminado pontos das árvores mostra-nos que Fra Angelico foi um dos pontos de evolução do Renascimento na pintura.

Fra Filippo Lippi foi outro dos nomes que marcou a pintura dos primórdios do Renascimento. Filippo Lippi foi educado pelos monges carmelitas em Florença. Masaccio influenciou muito Filippo Lippi, pois a sua versão da Virgem e o Menino Jesus entre S. Frediano e Santo Agostinho foi apenas apresentada depois dos frescos de Masaccio na Capela Brancacci em Florença. Se Filippo Lippi aprendeu a monumentalidade com Masaccio introduziu-lhe uma imensa graciosidade e delicadeza, como as pintadas por Fra Angelico.

A Anunicação de Filippo Lippi, quadro de 1448-1450 tem uma doçura e uma ternura cativantes, no encontro entre o anjo e a jovem. Terá feito parte de um painel de mobiliário de um quarto de um nobre importante, possivelmente Piero de ´Medici que foi seu patrono. Os anjos em Filippo Lippi têm um ar feliz e de bem-estar. O seu filho, Filippino seria criado por Boticelli e daria a mesma ideia de bem-estar, mas já com contornos do que na vida humana se torna frágil, como se ela fosse um sonho etéreo sobre a realidade, onde os anjos flutuam.

Imagens:
Fra Angelico, A Virgem e o Menino no Trono com Anjos e Santos, c. 1438-140, Convento de São Marcos, Florença.
Fra Fillippo Lippi, Anunciação, c. 1448-1450, National Gallery, Londres.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

O Renascimento | III



Do primeiro Renascimento, o que se estabeleceu nas primeiras décadas do século XV, Paolo Uccello é um dos que deve ser destacado. Uccello foi um artista do Renascimento que viveu e desenvolveu a sua atividade em Florença e que se destacou sobretudo pela inovação que trouxe no campo da perspetiva.

Uccello tratou a perspetiva e pensou-a no seu resultado final, como a possibilidade de ordenar o mundo e as suas representações. A perspetiva introduz uma nova leitura na representação, pois ela deixa de ser apenas simbólica ou decorativa e assume uma leitura tridimensional dos objetos. A perspetiva é uma leitura do representado que orienta o nosso olhar, desde os planos mais próximos aos afastados, onde os objetos parecem convergir nos planos mais distantes.

Uccello organizou a perspetiva na convergência de linhas que encontram um ponto único, chamado ponto de fuga. A sua obra mais marcante foi A Caçada na Floresta, datada de 1460. O ponto de fuga do quadro e no qual os planos de organizam é o de um veado distante, quase invisível. Todas as figuras da caçada (caçadores, cavalos, cães) surgem de todos os lados, como a construção poética que se ergue numa paisagem de claro / escuro.

As ideias de Uccello já tinham sido desenvolvidas ao nível da perspetiva por Brunelleschi na cúpula da catedral de Florença. Uccello foi o primeiro a aplicá-la à pintura e influenciou os artistas nos anos seguintes pelas estruturas de perspetiva dos seus desenhos que apresentavam objetos em espaços tridimensionais. O ponto de fuga como aspeto determinante da composição e do olhar do observador marcaram a importância de Uccello na pintura do renascimento.

                     Paolo Uccello, ACaçada na Floresta, Ashmolean Musuem of Art and Archaeology, Oxford, 1460.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Um poema



"Lá vem o meu pobre Outono
que em troca daquela beleza
de vestir folhas douradas,
um vermelho sem igual
e um castanho especial,
sente a obrigação de abrir
a porta ao vento e à chuva ...

que nesta estação já perderam
a vontade de brincar
e lembram a toda a gente
que é tempo de trabalhar.
Ao Outono resta ainda
a bela consolação
de comer frutos de Verão".

Outono, João Pedro Mésseder, in O Livro dos Meses
Imagem: Copyright: Junaida


quinta-feira, 13 de outubro de 2022

O Renascimento | II


 O Renascimento desenvolveu-se ao longo dos séculos XV e XVI. No entanto, antes do século XV já se encontram características na pintura que se vão identificar com o Renascimento. Em Giotto eles já se enunciavam, mas foi o rigor da representação e um maior realismo, onde a harmonia ganhou formas muito substantivas que figuras como Leonardo Da Vinci, Rafael ou Miguel Ângelo elevaram a arte do Renascimento. O humanismo influenciou profundamente aquele movimento.

O Renascimento na pintura iniciou-se em Itália, a meio do século XIII e alargou-se à Europa.  O momento mais alto do Renascimento surge no final do século XV. Os artistas que deram corpo ao Renascimento procuraram recuperar a tradição da cultura grega e romana. Foi Giotto que iniciou essa recuperação e, embora a sua pintura se enquadre na arte gótica, já é visível nele, o que vai caracterizar o Renascimento. Isto é, a representação de um modo naturalista, em que as figuras de temas bíblicos surgem com uma dimensão real, uma existência marcadamente humana. O realismo da existência humana é uma das marcas do Renascimento.

Foi com o pintor de Florença Masaccio que se inaugura a pintura renascentista e que sofreu influências de Giotto. Na verdade, Masaccio era uma alcunha para o seu nome, Tomasso de Giovanni di Simone Gaudi cuja vida foi muito curta.  A sua pintura é classificada como um pouco desajeitada, mas há nela algo de profundamente humano e onde a dimensão espacial que já se via em Giotto também aparece. 

As figuras de Jesus apresentadas como reais crianças, ou a Virgem com uma imagem de dignidade, onde se apresenta uma representação austera ligando-a à vida comum das pessoas são sinais marcantes de Masaccio e do primeiro Renascimento. Masaccio foi influenciado pela escultura e em particular de Donatello, com a sua representação tridimensional dos espaços e das perspetivas. Nos quadros de Masaccio encontramos as linhas da escultura de Donatello, ao nível da perspetiva ótica, com a representação da luz a incidir nos objetos. 

Em Masaccio já não existe a leveza do gótico, mas o drama humano incorporado nas histórias bíblicas, como em Adão e Eva expulsos do paraíso, obra de 1427, ou a Trindade de 1425. são muito marcantes.

Masaccio, A Virgem e o Menino, Galeria de Uffizi, Florença, c. 1426.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Um poema

"Paisagem rural
vindo à deriva
de há séculos;
a distância

amplia-se
o navio singra.
Outra vez a constante
música alimenta

um vazio à popa,
os Açores sumidos.
O vácuo atrás e o vácuo
à frente são o mesmo.
toda a ilha é um continente."

John Updike, “Azores”.
Imagem: Ilha do Pico, entre as vinhas e o negrume das rochas – © Maria Adelina.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

O Renascimento | I


O Renascimento foi um dos movimentos mais importantes da arte europeia com influências profundas na sociedade entre o fim da Idade Média e o século XVI. É dele que falaremos na publicação semanal durante o primeiro período (como recurso educativo), integrado no Plano nacional das Artes.  A palavra "Renascimento" teve diferentes significados e não existe uma pintura renascentista que possa ser delimitada em características únicas ou definíveis. Ao contrário da arte gótica, expressão de uma sociedade criada pelo mundo feudal e pelas tradição românica e bizantina, o Renascimento é a expressão de uma luz em evolução.

O Renascimento marca o surgimento e desenvolvimento de um mundo novo, o moderno que daria forma a uma nova sociedade. Na arte, o Renascimento incentivou um novo estilo, uma nova forma de observar, onde o realismo e os elementos naturais tinham uma importância muito substantiva. A arte gótica era construída como marca de uma sociedade que propunha influenciar espiritualmente os observadores. No Renascimento, os elementos pintados refletem o mundo do observador e tentam criar uma conversação com o próprio observador. A emoção é agora projetada de um modo diferente. De algum modo, o observador migra para o interior de um quadro do Renascimento.

Na pintura do Renascimento, o ponto de fuga nasce do próprio observador que lê as próprias linhas da perspetiva. A luz integra o quadro renascentista de um modo que o observador as sente de um modo muito mais intenso. A imagem na pintura renascentista é uma construção da visão do observador. Na arte pré-renascentista, ainda se observa que quem contempla revela uma dimensão divina, o que mais tarde será alterado para uma visão humana. Nessa dimensão se construirá a visão do Humanismo e de uma ideia diversa para o Homem no mundo e para a própria religião.

Na Literatura, na Escultura e na Pintura muitos foram os nomes que lhe deram forma. Petrarca simboliza o princípio temporal desse movimento, de uma ideia que tentava conhecer muito sobre diferentes domínios. A restauração da cultura greco-romana, o valor do corpo humano como sinal de juventude e de beleza foi um das chaves do Renascimento e essa ideia que Aristóteles tinha enunciado, o valor e o sinal de ser instruído. Ou seja, a capacidade refletir criticamente, de modo a encontrar o sentido das coisas e as sombras que escondiam essa revelação capaz de compreender o universo e contemplá-lo de um modo integral.

O Festim dos Deuses / Giovanni Bellini, 1514, Galeria Nacional de Arte, Washington DC.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Um poema

 


Se deste Outono

“Se deste outono uma folha,
apenas uma, se desprendesse 
da sua cabeleira ruiva, 
sonolenta, 
e sobre ela a mão 
com o azul do ar escrevesse 
um nome, somente um nome, 
seria o mais aéreo 
de quantos tem a terra, 
a terra quente e tão avara 
de alegria.“  

Se deste Outono”, in O sal  da Língua / Eugénio de Andrade. Porto: Assírio & Alvim,  2018. 

segunda-feira, 6 de junho de 2022

O 1.º Modernismo - Fernando Pessoa e Almada Negreiros (VI)

 

 

Almada Negreiros foi um dos artistas do século XX que esteve ligado ao 1.º Modernismo. Fernando Pessoa também dele participou, nomeadamente através da Revista Orpheu, onde foi colaborador, tendo escrito alguns textos para essa importante revista.

“Retrato de Fernando Pessoa” de Almada Negreiros é o título de dois quadros pintados por Almada Negreiros. O primeiro quadro é de 1954 e foi pintado para o restaurante Irmãos Unidos, que era um antigo ponto de encontro da geração do Orpheu. O segundo quadro é de 1964 e foi realizado, a partir de uma encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian. O segundo quadro representa a imagem invertida do representado no primeiro quadro. Almada Negreiros já tinha pintado a figura de Fernando Pessoa por duas vezes, uma na primeira década do século XX, justamente em 1913 e outra nos anos trinta, em 1935. A primeira para Exposição dos Humoristas e a segunda, aquando da morte do poeta, publicada no Diário de Lisboa.

     “Retrato de Fernando Pessoa” é um duplo quadro de grande importância por diversos motivos. Em primeiro lugar pelo grande valor de Fernando Pessoa como poeta e de Almada Negreiros como um importante artista. “Retrato de Fernando Pessoa” é na obra de Almada Negreiros que foi extensa e diversificada, uma das suas mais importantes criações. Quando os quadros foram produzidos a geração do Orpheu já não existia, o que também lhe dá a importância de religar duas gerações na arte em Portugal no século XX.

     O quadro apresenta-nos algumas características curiosas. Fernando Pessoa aparece sentado a uma mesa num lugar a que ficou especialmente ligado,  podendo ser “o Martinho da Arcada”, ou “a Brasileira do Chiado” e na mesa o número dois da revista do Orpheu. Na representação do poeta o olhar revela uma determinada fragilidade no olhar, onde se percebe um sentido de introspeção, de pensamento, onde a emoção não se pressente e com a curiosa apresentação de uma figura que se assemelha com um arlequim. O quadro apresenta-se-nos como um olhar do poeta parado em direção a um pensamento, onde se vislumbra uma atmosfera de pouca tranquilidade.

     Fernando Pessoa criou um conjunto de figuras poéticas, os seus heterónimos com características diversas no seu olhar sobre o mundo e a sociedade. Um dos poemas de Fernando Pessoa, “Chuva Oblíqua” conduz-nos a algumas das ideias que o quadro de Almada Negreiros expressa. Se lermos Chuva Oblíqua e observarmos alguns dos detalhes do quadro vemos a ideia do interseccionismo que se apresenta de modo comum.

     No quadro encontramos essa ideia (interseccionismo) através dos pontos que fazem essa intersecção e que são apoiados pela luz de tons quentes. A luz é marcada pelos tons alaranjados que se interpõem no espaço onde aparece a figura de Fernando Pessoa. Essa luz desdobra-se em outras cores, como os vermelhos, ou os amarelos. A estrutura pictórica é também marcada por zonas de sombras, com tons acastanhados e vermelhos escuros. Existem ainda outras tonalidades com tons de cinzento e de azuis que marcam as zonas onde se definem a luz e a cor. E neste tons encontramos objetos como o açucareiro, os punhos da camisa, a chávena do café ou a folha de papel. Todo o quadro é construído segundo a ideia de uma conceção geométrica do espaço, onde se cruzam planos quadriculados de linhas perpendiculares com as linhas diagonais que se cruzam no pavimento em ladrilho.

   O poema destacado enquadra-se com as ideias expressas no retrato, pois nos dois, as ideias de interseccionismo estão presentes de diversos modos.  Nos dois vemos as ideias do futurismo, com as sobreposições dinâmicas  e a  confluência de um mundo exterior em diálogo com um eu interior. Dessa contemplação e intersecção de paisagens surge a fragmentação dos planos, que no poema é muito clara.

Fonte: A arte em Portugal no século XX / José-Augusto França. 4ª ed. - Lisboa : Livros Horizonte, 2009. 

O 1.º Modernismo - Fernando Pessoa e Almada Negreiros (V)



"Atravessa esta paisagem o meu sonho de um porto infinito 
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios 
Que largam do cais arrastando nas aguas por sombra 
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na agua pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a agua do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra de uma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma…”

Fernando Pessoa é um dos marcos da cultura portuguesa e a sua modernidade trouxe para a compreensão do mundo, aquilo que é uma das marcas do mundo contemporâneo. O poema "chuva oblíqua" devolve-nos a construção de uma imagem, a da chuva que se apresenta inclinada e que impede que as pessoas se dela possam desviar. Há assim uma intersecção de planos, o real e o imaginário, num cruzamento de elementos. O poema relaciona-se muito com o quadro de Almada Negreiros, "Retrato de Fernando Pessoa"  nessa construção de uma realidade fragmentada em planos. Que mais não é que o da própria vida num tempo de sociedade profundamente alterado e angustiado. 

“Chuva Oblíqua”, in Poemas Interseccionistas de Fernando Pessoa, 1914, in Orpheu 2, junho de 1915, pp. 160-161.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

O 1.º Modernismo - Fernando Pessoa e Almada Negreiros (IV)

 Arte e sociedade (I)


O 1.º modernismo procurou criar uma ideia nova para o país e uma visão sobre o mundo diversa da que vinha do século XIX. As ideias do futurismo e do sensacionismo organizaram os dois números da Orpheu, revista que, em 1915, procurou agitar a sociedade portuguesa. A Orpheu foi a expressão do movimento modernista, uma ideia nascente de um Portugal Futurista. Procurou responder esteticamente a um país em convulsão social, uma 1ª República em grandes dificuldades com a sua instabilidade política, com as suas ideias de anticlericalismo e também uma ideia de nacionalismo que atravessa esses tempos.

A  Orpheu apresentou-se como uma estética de rutura para afirmar, pelas ideias, pela cultura, pela arte e pela literatura, uma forma esclarecida e criativa de pensar o País. A Orpheu tentou canalizar os movimentos vanguardistas que chegavam da Europa e foi, sem dúvida, um grande objeto cultural que sintetizou a estética dos seus criadores e incorpora as ideias do seu tempo, o Modernismo.

No início do século XX, o Modernismo iniciou uma abordagem nova ao que deveria ser a Arte. Movimento introduzido em Paris, centro de uma vanguarda cultural europeia, onde diferentes figuras experimentavam ideias e experiências, criando correntes estéticas que mudaram a cultura no século XX. O Modernismo português nesta sua primeira fase organizou-se à volta das chamadas Vanguardas. Acreditavam que tinham um papel  histórico de romper com o passado e inventar um futuro, criando um mundo novo.  Os seus valores são de luta contra a tradição e futurista.

A geração do Orpheu foi influenciada pela arte que veio de França e que logo na exposição de 1905, no salon d’ Automne introduzia novas formas de expressão e criação e que deu lugar a diferentes correntes dentro da arte europeia. A cor expressava de forma intensa  uma emoção, sobrepondo-se muitas vezes sobre a forma. A correspondência entre o representado e o real deixava de ser importante.  

A afirmação do mundo das máquinas, o sentimento do indivíduo, as manchas de cores contrastantes, ou  a introdução de materiais de uso do quotidiano, abria portas a outras formas de expressão, o futurismo. O apelo a uma libertação do pormenor representativo, às emoções fez surgir o Abstracionismo. A par destas correntes, destaca-se também o Futurismo desenvolvido em Itália por Filippo Marinetti, em que se rejeita o passado e se glorifica o futuro pela ação das máquinas, onde a velocidade é um culto.  Todo este enquadramento influenciou Almada Negreiros como artista plástico e Fernando Pessoa como poeta.

 Imagem, Amadeo de Souza Cardos, Motion, 1912.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

O 1.º Modernismo - Fernando Pessoa e Almada Negreiros (III)

 A sociedade em Portugal nos finais do século XIX

Pertenço a uma geração que ainda está por vir, cuja alma não conhece já, realmente, a sinceridade e os sentimentos sociais". (Fernando Pessoa, Orpheu, Nº1)

     A História contemporânea portuguesa foi marcada por um conjunto de acontecimentos que criariam no país profundas dificuldades de arranque industrial e de construção de uma sociedade moderna. Na 1ª metade do século XIX, houve uma grave crise do indústria e do comércio, agravada pelas invasões francesas, pela ida da corte para o Brasil, pela perda do exclusivo do comércio com o Brasil e pela crescente influência da economia inglesa nos mercados portugueses.  Até 1850, falharam muitas das ideias de industrialização para o país.

      Na 2ª metade de Oitocentos, a Regeneração tentou modernizar o país através de um conjunto de planos de reforma educativa, fomento industrial e novas vias de comunicação. É o país que Eça nos deu nos seus romances e artigos de opinião. No final de Oitocentos, Portugal era predominantemente agrícola, com um défice acumulado por um maior número de importações e por uma indústria pouco competitiva em quantidade e qualidade. O Estado recorria a frequentes aumentos de impostos. A crise económica e financeira de 1890 veio juntar-se ao Ultimato Inglês para consolidar a ideia de uma crise da Monarquia. No início do século XX em Portugal há um confronto entre um partido republicano em ascensão e as posições monárquicas em queda de influência na sociedade.

      Foi neste contexto que o regicídio e a implantação da República criaram focos de esperança para uma sociedade mais desenvolvida. Registaram-se sinais de profunda divisão na sociedade, ainda dominantemente rural e sem grupos sociais capazes de uma mudança de fundo. É com este enquadramento e com a agitação social e política da 1ª República que as ideias do Modernismo tentam, pela Arte e pela Literatura, romper com um Portugal antigo e propor uma nova ideia sobre o país e sobre o mundo. Elementos essenciais deste 1º Modernismo foram diferentes artistas como os pintores Santa-Rita, Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa.

terça-feira, 31 de maio de 2022

O 1.º Modernismo - Fernando Pessoa e Almada Negreiros (II)

 

Base para uma exposição de pintura a realizar pelos alunos do nono ano em ligação com o movimento das vanguardas - o 1.º Modernismo e aquilo que foi uma nova ideia para a Arte em Portugal no início do século XX.

"Somos portugueses que escrevem para a Europa, para toda a civilização; nada somos por enquanto, mas aquilo que agora fizermos será um dia universalmente conhecido e reconhecido. (…)A uma arte assim cosmopolita, assim universal, assim sintética, é evidente que nenhuma disciplina pode ser imposta, que não a de sentir tudo de todas as maneiras, de sintetizar tudo, de se esforçar por de tal modo expressar-se que dentro de uma antologia da arte sensacionista esteja tudo o que de essencial produziram o Egipto, a Grécia, Roma, a Renascença e a nossa época. A arte, em vez de ter regras como as artes do passado, passa a ter só uma regra - ser a síntese de tudo."

(Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, p.124)